Pular para o conteúdo
Notícias

Arbitragem feminina na Copa tem só 3,5% e enfrenta machismo

Reprodução/ Getty Images/ Eurasia Sport Images

Em quase um século de história, esta é a segunda edição do Mundial masculino de futebol a contar com mulheres na arbitragem. Na lista dos 170 nomes divulgados pela FIFA para apitar os jogos da Copa do Mundo de 2026, apenas seis são mulheres, o que corresponde a 3,52% do grupo. Os números revelam um cenário de ambiguidade: a inclusão feminina avança, mas os desafios para a consolidação da igualdade de gênero persistem.

Apesar disso, para Jéssica Soler, 24 anos, aluna do curso de arbitragem da Federação Paulista de Futebol (FPF), a presença de mulheres na competição reforça a certeza de que há espaço para construir uma carreira na profissão. “Se elas chegaram lá, eu também posso”, afirma, em entrevista à Marie Claire.

Mas os obstáculos não se resumem apenas à inclusão. O machismo que opera dentro das quatro linhas também as coloca em desvantagem. Recentemente, a brasileira Daiane Muniz foi alvo de ofensas machistas por parte do zagueiro Gustavo Marques. O jogador, que disputou pelo Red Bull Bragantino as quartas de final do Campeonato Paulista contra o São Paulo, questionou a escalação de uma mulher para apitar um jogo decisivo. “Não adianta colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”, declarou em uma entrevista, colocando em dúvida a capacidade da profissional.

No entanto, Daiane Muniz é uma árbitra experiente, faz parte da equipe oficial da FIFA, apitou partidas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 e já atuou em diferentes edições da Copa do Mundo de Futebol Feminino. Na época, o Tribunal de Justiça Desportiva do Estado de São Paulo (TJD-SP) puniu o jogador com uma suspensão de 12 jogos, além de multa de R$ 30 mil.

Há um apagamento histórico da participação feminina no futebol, segundo José Paulo Florenzano, antropólogo e membro do conselho consultivo do Museu do Futebol. “Nós temos a impressão de que as mulheres passaram a praticar o esporte em um período mais recente, o que absolutamente não é verdade”, afirma. Pesquisas mostram a presença delas no futebol desde o início do século 20.

A ex-árbitra Sílvia Regina de Oliveira, uma das principais referências brasileiras, observa que as mulheres percorreram um longo caminho para chegar ao mundial masculino. Na Copa do Mundo, a inclusão feminina na arbitragem evoluiu da ausência total até a incorporação de seis mulheres na edição de 2022, no Catar. “Com o tempo este paradigma foi quebrado e eu, como uma das pioneiras no futebol masculino, me sinto parte desta mudança de pensamento”, afirma.

Antes de chegarem à Copa, as árbitras passaram por um processo de transição e pioneirismo em torneios continentais. No ano passado, o quadro feminino de arbitragem brasileira da FIFA subiu de sete vagas para oito. O novo espaço foi ocupado por Gleika Oliveira Pinheiro, 34 anos, a primeira árbitra paraense a alcançar nível internacional.

De acordo com a ex-árbitra Sílvia Regina de Oliveira, o cenário atual já apresenta mais possibilidades para as mulheres que querem se consolidar na profissão. Ela destaca que há cursos que ampliam o acesso e há divulgação para que mais mulheres iniciem a carreira profissional. “A aptidão é muito importante”, ressalta. A veterana fez seu primeiro curso de arbitragem em 1980. Mesmo assim, demorou 19 anos para ser escalada em partidas oficiais depois da formação.

A estudante Jéssica Soler conta que o curso de arbitragem da FPF atualmente acrescentou 10 vagas para aumentar o número de alunas: entre os 90 matriculados, 11 são mulheres. O processo começa pelo nível 1, um curso teórico introdutório aberto a qualquer pessoa interessada em aprender as regras do futebol. Após a conclusão, a aluna recebe um diploma e pode se candidatar ao nível 2, que tem número limitado de vagas e exige aprovação em provas teóricas e testes físicos. No segundo estágio, a formação passa a ser voltada à prática e aborda os aspectos físicos, psicológicos, técnicos e táticos do jogo. As alunas também são submetidas a avaliações rigorosas, como testes físicos e medições periódicas de percentual de gordura, que têm peso na nota final.

Para a ex-árbitra, não serem vistas com naturalidade dentro da profissão ainda é o principal obstáculo enfrentado pelas mulheres. “Ainda somos vistas como uma minoria que quer a qualquer custo ocupar um espaço masculino, o que não é verdade”, avalia. Soler compartilha esse sentimento de frustração ao relatar que foi desencorajada pela família quando quis se profissionalizar no futebol. Constrangida pelos parentes, ela se formou em jornalismo para se manter próxima das coberturas esportivas. Para a jovem, manter o controle psicológico é fundamental durante o processo para se tornar uma árbitra profissional. “Até para não cair nessa pilha das pessoas falando que as mulheres não são capazes”, afirma. Ela destaca que o gênero não deveria ser um impeditivo para que mulheres se tornassem árbitras. “Eu acho que não existe gênero no futebol, e cada vez mais árbitras estão presentes no esporte, o que mostra que podemos ocupar esse espaço”, conclui.