Pular para o conteúdo
Notícias

Artistas abrem mão de cachê para manter Parada LGBT+

Getty Images

A artista multimídia Jup do Bairro se apresenta pela primeira vez na Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo neste domingo (7). Escalada para performar no Trio de Visibilidade Travesti/Trans, Jup é um dos nomes de maior destaque da produção cultural LGBTQIAPN+ atualmente, transitando por linguagens que vão da música e das artes visuais ao cinema. Desde o convite, sabia das dificuldades da organização da Parada em conseguir verba para colocar o evento na Avenida Paulista. Por isso, foi uma das artistas que toparam abrir mão do cachê para a Parada poder acontecer.

“Nossa presença se faz mais do que urgente nesse momento”, diz Jup do Bairro à Marie Claire. “Não posso usar de hipocrisia em dizer que esse dinheiro não faz falta, pois faz. Mas estou fazendo a minha parte e investindo por acreditar que isso vai para além do meu bolso. Não é nada romântico ver artistas tão talentosos e que, assim como eu, dependem de seus trabalhos para sobreviver, abrindo mão da rentabilidade do próprio trabalho. Mas, ao mesmo tempo, isso é o que estamos vivendo agora. É legado e compromisso com o meu público e com quem ainda acredita que ser feliz também é política e um direito”, afirma.

A Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, responsável pela organização do evento, enfrenta anualmente resistência política e dificuldades de financiamento. Neste ano, porém, os obstáculos foram ainda maiores. Embora a edição marque o 30º aniversário da Parada, houve uma queda de 60% no patrocínio de marcas e empresas privadas, que costumam arcar com a maior parte da estrutura do ato. A saída encontrada para manter o evento foi uma articulação com diversos artistas e suas equipes.

“A resposta foi extremamente positiva: muitos compreenderam a importância da Parada SP e abriram mão de seus cachês habituais. Em outros casos, apesar do contato realizado, algumas equipes não retornaram ou informaram não ser possível participar sem a remuneração habitual”, diz Matheus Emílio, da Secretaria Geral e Diretoria de Imprensa e Comunicação da APOLGBT-SP.

Pabllo Vittar, Gloria Groove e Urias receberão apenas metade do valor que eventualmente cobrariam para se apresentar. Outros artistas toparam se apresentar recebendo somente uma ajuda de custo.

A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo é reconhecida pelo Guinness como a maior do mundo, chegando a reunir até 4 milhões de pessoas em edições prévias. Organizada pela APOLGBT-SP, o evento se consolidou como um espaço importante de reivindicação política, pertencimento e segurança. Desde 2018, também faz parte do calendário turístico da capital paulista.

A expectativa é que a Parada reúna 2 milhões de pessoas e movimente R$ 466,2 milhões na economia da cidade neste ano. O valor, apesar de alto, é R$ 82 milhões menor do que o registrado no ano passado, segundo estimativa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

Matheus Emílio diz que a queda de patrocínio coincide com um momento em que empresas têm revisado suas estratégias ligadas à diversidade e aos direitos humanos. “O que antes era tratado como uma pauta prioritária passou, em alguns casos, a ser visto com mais cautela diante de pressões conservadoras e mudanças de posicionamento corporativo”, explica.

Segundo ele, esse cenário exigiu um esforço maior da organização para adaptar estruturas, revisar custos e fortalecer parcerias, a fim de garantir que a Parada se mantenha nas ruas. A programação da parada conta ainda com Pepita, Diego Martins, Isma, Katy da Voz e As Abusadas, Boombeat, MC Soffia, Bixarte, MC Trans, Zumbicore, Dornelles e Melody, Majur, Grag Queen, Chameleo e DJ Bruna Strait. Grande parte dos artistas trabalham de forma independente.

A cantora e compositora paraibana Bixarte também abriu mão do cachê para se apresentar na Parada e receberá uma ajuda de custo. Para ela, o recuo de patrocinadores está relacionado ao avanço de políticas conservadoras de extrema direita e das ameaças de retirada de direitos em escala mundial. “O ideal seria que a gente nunca precisasse abrir mão do nosso cachê para fazer nosso trabalho, sobretudo cultura e arte”, diz.

“Enquanto um corpo de uma travesti nordestina, faz muito sentido para mim estar neste espaço. É uma pena porque entendemos que, quando acontecem cortes, as pessoas trans e LGBTQIAPN+ são as primeiras a serem atingidas”, diz. Ela e Jup do Bairro afirmam que os impactos no bolso ultrapassam o Mês do Orgulho, já que era em junho que muitos artistas recebiam a maior fonte de renda de seus anos.

A rapper MC Soffia, que se apresenta no Trio de Visibilidade Bi+, acredita que a presença dos artistas nesta edição é uma movimentação necessária, independentemente do cachê. “Ser artista independente não é fácil, mas tenho que fortalecer causas como a luta LGBTQIA porque o rap é música de resistência. Sou bissexual, então estar nesse espaço é muito importante”, afirma a artista, que participa pela segunda vez da Parada.

“Queremos ocupar a Avenida Paulista para dar um recado ao conservadorismo que eles não vão conseguir de forma alguma nos silenciar”, diz Bixarte. “Se os discursos não fossem tão frutíferos, não cortariam a verba”, pondera.

Nas redes sociais, outras artistas confirmadas no evento usaram seus perfis para criticar a ausência de marcas patrocinadoras. Pabllo Vittar apontou para o dinheiro movimentado nos últimos anos. “A população LGBTQIA+ também gasta, pega carro de aplicativo, usa cartão de crédito, usa banco, consome restaurante, lota hotel. Então é muito fácil, no mês do orgulho, colocar bandeira colorida no ícone e mudar a foto de perfil, sendo que esse apoio não é verdadeiro para a nossa comunidade”, afirmou a drag queen.

Em seu Instagram, Pepita também se posicionou em um vídeo em que aponta que a falta de patrocínio é um indicativo para outras áreas que pararam de receber financiamento, como saúde, segurança e emprego. “Muito se ganhou em cima da estética, da linguagem, da cultura e da potência LGBTQIAPN+. Então quando chega a hora de apoiar, se posicionar e permanecer junto, o silêncio também fala”, disse em seu perfil.

A organização enfrenta resistência política e dificuldades de financiamento todos os anos, mas a 30ª edição registrou desafios maiores. Neste ano, a Parada terá uma estrutura menor do que em edições anteriores: serão 14 trios elétricos, reunindo artistas, ativistas, DJs, coletivos culturais, organizações sociais e marcas parceiras.

O tema deste ano é “A voz da urna é a voz do povo” e deve reforçar debates sobre representatividade, ocupação do espaço público e direitos da população LGBTQIA. A escolha acontece em meio às eleições presidenciais e estaduais, marcadas para outubro. O maior público da parada foi em 2011, na 15ª edição, que reuniu 4 milhões de pessoas.

A perda de apoio financeiro ocorre em meio a discursos conservadores e um movimento ligado à diminuição de ações de diversidade dentro das empresas. Paralelamente, o evento é alvo de ações políticas como o projeto de lei que quer vetar que crianças e adolescentes frequentem a Parada LGBT, mesmo com a presença dos pais. De autoria do vereador Rubinho Nunes (União Brasil), o projeto passou em primeira votação na Câmara Municipal.

Todo o orçamento de organização da parada fica a cargo da associação e de captação de recursos privados. A Prefeitura de São Paulo cede apenas infraestrutura de rua, como banheiros químicos, gradis e postos de atendimento médico. Colocar um trio elétrico na rua varia entre R$ 40 mil e R$ 85 mil, em média. Por estar incluído no calendário oficial de turismo da cidade, pode receber verba prevista na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).