terça-feira, abril 14

O sexo tem dinâmicas diferentes para cada pessoa, e quando se trata de mulheres sáficas – lésbicas e bissexuais – isso ganha mais camadas. Para a jornalista Camila Marins, 41 anos, a lógica de “ativa” ou “passiva” não faz sentido. Ela vê isso como uma reprodução de uma binariedade patriarcal. “Me identifico como sapatão e mulher negra que ama mulheres, e entendo o prazer como um diálogo. A heteronormatividade é muito estática e dentro de uma relação entre mulheres existe muito mais fluidez no desejo”, diz.

Ainda assim, a ideia de que no sexo entre mulheres uma pessoa domina e a outra se submete persiste no senso comum. É daí que vêm os rótulos como “ativa”, “passiva” ou “relativa”, mais comuns em relações entre homens. Mas na vivência sáfica, essa visão pode não bater com a realidade.

Para a professora Natália*, 28 anos, que é bissexual, esses termos não captam a complexidade de suas experiências. “Existem definições que considero mais importantes, do tipo: Curte BDSM? Gosta de submissão ou dominação? É voyeur ou exibicionista? É muito mais rico conhecer essas preferências do que apenas saber se ela é ativa ou passiva”, afirma.

O que significa ser “ativa”, “passiva” ou “relativa”?

De modo geral, a pessoa “ativa” é quem conduz e estimula durante o sexo. A “passiva” é quem recebe as carícias, seja no sexo oral ou com penetração. Já a “relativa” é quem transita entre os dois lados. Historicamente, dentro da comunidade sáfica, outras categorias, como butch e femme, já foram usadas para expressar identidade e pertencimento.

Butch era um termo usado para mulheres que performam mais masculinidade – hoje, muitas se identificam como desfem. Femme se refere àquelas que expressam papéis considerados mais femininos e alinhados ao que a sociedade espera. Além da aparência, esses termos também falam sobre seu posicionamento dentro e fora da comunidade.

Butch e femme ganharam força principalmente entre as décadas de 1940 e 1960 em bares lésbicos dos Estados Unidos, como mapeado no livro Boots of Leather, Slippers of Gold (1993), das historiadoras Elizabeth Lapovsky Kennedy e Madeline Davis. A associação direta dessas identidades com os papéis de “ativa” e “passiva” veio depois, influenciada por padrões heteronormativos, conforme apontado pela ativista Joan Nestle na coletânea The Persistent Desire (1992). Na prática, tentar organizar o desejo em papéis fixos pode não gerar pertencimento, mas sim servir como barreira.

Para Jussara Nascimento, 29 anos, bissexual, o problema não são os rótulos em si, mas as limitações que vêm com eles. Ela lembra de um relacionamento sem espaço para troca. “Eu não podia nem encostar nela. Queria experimentar outras coisas, mas ela era muito limitada. Foi frustrante”, relata. Natália passou por algo parecido. “Já me relacionei com uma mulher que só queria ser ativa. Com muita conversa isso foi mudando, mas mostra como esses papéis podem travar a experiência”.

Outro ponto negativo é quando a pressão vem da própria comunidade. “Se você é mais feminina, esperam que seja passiva. Por performar mais feminilidade sempre me colocavam no lugar de quem recebe. Acho que esses estereótipos são ultrapassados”, aponta Jussara. A jornalista Rose Rossi, 37 anos, que performa mais masculinidade, vive o inverso: “Acaba sendo até uma piada o fato de eu ser uma desfem que também gosta de ser ‘passiva'”. Para ela, o equilíbrio no sexo entre mulheres acontece quando ambas pensam no prazer uma da outra – algo que, em sua visão, falta no sexo hétero.

Entre rótulos e realidade: o que funciona na prática?

Se a história ajuda a entender a origem dessas definições, os relatos atuais mostram que o desejo pode não funcionar com regras rígidas. Quando a atração aparece, o que importa não é quem faz o quê, mas o quanto as pessoas desejam uma à outra e se sentem seguras para explorar.

A analista de qualidade social Victória Faria, 28 anos, reflete sobre a importância do consentimento e os riscos de impor papéis. “O sexo é um momento de vulnerabilidade. Se alguém te pede para performar algo que soe como uma obrigação para a transa acontecer, isso já é uma red flag e dificulta que a troca seja equilibrada”, alerta. Para ela, os rótulos só são úteis em alguns contextos, principalmente para descobrir gostos. “Nomear certas preferências pode facilitar o diálogo, ainda mais para descobrir quando alguém não se sente confortável com algo no sexo”, explica.

Ela ressalta, porém, que suas relações nunca foram marcadas por essas divisões. “Sempre foi algo muito mútuo: dar e receber prazer juntas, sem precisar se rotular”. No final, o que torna o sexo bom pode não ter ligação com quem comandou a cena. O segredo pode estar na liberdade de mudar de ideia e vivenciar o que der vontade. “Vai ter momentos que posso querer ser mais passiva e outros, mais ativa. É tudo questão de dar e receber prazer. Um sexo bom para mim é quando as duas saem sorrindo porque a troca foi gostosa. Não importa quem foi ativa ou passiva depois que todo mundo goza”, finaliza Natália.