Uma clínica de estética publicou no TikTok a foto de uma mulher jovem franzindo a testa com a legenda: “Sou muito jovem, preciso fazer botox?”. Nos comentários, seguidores perguntam a idade mínima para o procedimento. A resposta da clínica é que, a partir dos 18 anos, assim que uma ruga aparecer, já é hora de tratar.
O chamado “botox preventivo” ganhou espaço nas redes sociais e é vendido, principalmente para mulheres jovens, como uma forma de evitar o envelhecimento antes mesmo que ele apareça. Apesar da popularidade, ainda existem poucas evidências científicas sobre os efeitos de começar as aplicações de toxina botulínica tão cedo.
A dermatologista Débora Cardial, especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, afirma que a prevenção não deve ser baseada na idade, mas em uma avaliação médica criteriosa. Essa avaliação considera o padrão de movimentação facial, genética, exposição solar, hábitos de vida e a expectativa do paciente.
Na maioria dos casos, o uso de protetor solar, retinoides e uma rotina consistente de cuidados com a pele têm um papel preventivo mais importante do que as aplicações de botox. A especialista ressalta que não existe uma idade mínima universal para fins estéticos e que a indicação deve ser individualizada.
“Pacientes jovens podem ter indicação legítima em situações específicas, como hiperidrose, bruxismo, enxaqueca crônica, assimetrias musculares ou algumas condições neurológicas”, explica. “Mas é importante deixar claro que isso não significa que todo jovem precise começar aplicações aos 20 anos.”
De acordo com o último levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps), o botox foi aplicado em 9,2 milhões de procedimentos no mundo em 2022. No Brasil, foram mais de 433 mil aplicações, o que representa 44,6% do total de tratamentos estéticos não cirúrgicos.
Tecnologia e autoestima
A hiperexposição causada pela câmera frontal dos celulares, redes sociais e filtros embelezadores faz com que as pessoas percebam constantemente “defeitos” que antes passariam despercebidos. Para os jovens, que ainda estão formando a identidade, esses impactos são mais agressivos e geram uma insatisfação crônica, segundo a pesquisadora Vanessa Rozan, doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP.
“A adolescência é uma fase comparativa, porque é a partir do outro que você se forma”, afirma Rozan. “Na fase do jovem adulto, isso ainda tem um resquício, porque você ainda não tem vivência para entender que seu valor não está só na imagem.”
Padrões de beleza sempre existiram, mas antes circulavam em revistas e na televisão, em um ritmo mais lento. Hoje, as redes sociais amplificam essa pressão. “Falou-se sobre autenticidade e autoestima em algum período, pré-pandemia principalmente, mas agora ninguém está falando sobre isso”, avalia Rozan.
A dermatologista Débora Cardial percebe essa mudança no consultório. Ela destaca que a literatura médica já discute a relação entre redes sociais, dismorfia corporal e o aumento da procura por procedimentos estéticos por pacientes cada vez mais jovens. “Hoje recebemos pacientes jovens comparando o próprio rosto com imagens filtradas e altamente editadas”, diz.
Riscos do uso precoce
Os principais riscos do uso precoce e sem critério do botox incluem perda de naturalidade da expressão facial, enfraquecimento muscular excessivo e uma relação pouco saudável com a própria imagem. “Além disso, existe preocupação teórica sobre atrofia muscular e possível formação de anticorpos com uso excessivamente frequente”, afirma a dermatologista.
Para a especialista, o papel do dermatologista não é apenas realizar procedimentos, mas também orientar e saber dizer “não” quando o procedimento não for benéfico. É preciso avaliar o contexto emocional da demanda e observar sinais de distorção de imagem, pressão social excessiva ou dependência de procedimentos para a autoestima.
