Quando Bruna Ianhez cruzou a linha de chegada da Québec Mega Trail, no início de julho, sua primeira reação foi ajoelhar. Depois de cerca de 35 horas percorrendo 139 quilômetros por trilhas nas montanhas canadenses, ela havia acabado de se tornar a primeira brasileira na história a completar a prova.
“Eu só agradeci a Deus. Na hora, nem consegui dimensionar o que tinha acontecido. Você passa tanto tempo focada em seguir em frente que o objetivo vira simplesmente terminar. A ficha cai depois”, conta, em entrevista à Marie Claire.
A Québec Mega Trail não foi a primeira experiência de Bruna em uma prova de longa distância. No ano anterior, ela havia percorrido 108 quilômetros em uma ultramaratona em Paraty, no Rio de Janeiro. O percurso canadense, porém, apresentou um desafio diferente. “Apesar dos cerca de 30 quilômetros a mais, o que mais dificultou foi o terreno. Havia muitas pedras e raízes, então você não conseguia desenvolver a corrida”, explica.
Depois de sete meses de preparação, Bruna chegou ao Canadá. Ela afirma que uma prova desse tipo é decidida mais pela mente do que pelo físico. “Se eu tivesse que colocar em porcentagem, diria que 80% da prova é mental.”
A corredora relata que o humor oscilava constantemente ao longo das 35 horas de competição. Minutos antes da largada, quando estava tensa, o que a acalmou foi ver um arco-íris sobre a cidade canadense. Horas depois, durante a madrugada, uma atleta americana pediu que ela apagasse a lanterna. Ao tirar uma foto, Bruna percebeu que estava diante de uma aurora boreal. “Era justamente o trecho mais difícil da noite. Quando vi o céu verde, fiquei tão feliz que parecia ter recuperado a energia”, diz.
No quilômetro 80, já exausta, Bruna encontrou o marido em um posto de controle. “Ele disse: ‘Você vai conseguir’. Eu desabei e comecei a chorar porque ainda faltavam quase 60 quilômetros e eu já não tinha mais força.” Para lidar com o desgaste, a atleta adotou como estratégia não pensar na distância total. “Meu objetivo era apenas chegar ao próximo posto de abastecimento.”
O momento mais difícil veio na segunda noite. Com mais de 100 quilômetros percorridos e frio intenso, Bruna começou a ter alucinações. “Eu via rostos e coisas que não existiam. Nunca tinha passado por isso. Ainda faltavam 39 quilômetros e o trecho mais duro da prova, uma subida de quatro quilômetros.”
Como era a única brasileira inscrita na categoria, Bruna correu com uma bandeira do Brasil presa às costas. Na reta final, foi aplaudida por outros atletas que gritavam “Brasil”. A recuperação começou logo após a chegada. Ela usou uma bota de compressão e realizou sessões alternadas de água quente e fria. “Meu corpo estava dolorido de um jeito que eu nunca tinha sentido. Parecia que um trator tinha passado por cima de mim várias vezes”, relata.
Bruna estima ter perdido cerca de quatro quilos e gastado aproximadamente 18 mil calorias durante a ultramaratona.
Hoje, Bruna compartilha sua rotina de treinos com mais de três milhões de seguidores nas redes sociais. Formada em Engenharia de Produção, ela trabalhou em uma multinacional antes de assumir a empresa da família. Foi nesse período que começou a publicar vídeos dos treinos. “Nunca pensei em viver disso, meu foco era fazer a empresa crescer”, lembra.
As primeiras parcerias com marcas surgiram aos poucos. Em 2023, após conversa com o pai, passou a trabalhar meio período na empresa. No fim daquele ano, Bruna passou a se dedicar integralmente ao esporte e à produção de conteúdo. Em 2024, seu perfil no Instagram saltou de cerca de 180 mil para mais de um milhão de seguidores.
Bruna afirma que a sensação de precisar provar sua capacidade a acompanha desde o início. Na faculdade de Engenharia, havia apenas quatro mulheres em sua turma. Nas ultramaratonas, as mulheres representam cerca de 20% dos inscritos. “Você chega à largada e quase só vê homens. E eu ainda apareço com GoPro, celular e patrocinadores. Isso incomoda algumas pessoas”, diz.
Ela conta que já recebeu críticas por demonstrar emoção depois de completar provas. “Eu choro porque a conquista é minha. Não vejo motivo para esconder isso.” Depois de entrar para a história, a influenciadora já pensa nos próximos passos: “Eu vou correr agora a maratona de Berlim.”
