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Cabaré Traviarcado: Renata Carvalho homenageia travestis históricas

Reprodução/Instagram/@brunu.photo

A diretora, atriz e transpóloga Renata Carvalho decidiu contar uma história que foge da narrativa de dor comumente associada a corpos trans. Em seu novo espetáculo, Cabaré Traviarcado, ela propõe uma homenagem às travestis históricas do Brasil, resgatando memórias de sucesso, afeto e resistência.

Convidada pelo idealizador Rafael Raposo para dirigir, escrever e estrelar o musical, Carvalho resgata figuras como Luma Brown, Rogéria, Divina Valéria e Eloína dos Leopardos. No palco, seis atrizes travestis do Rio de Janeiro – Azula, Ella, Guiga Camarate, Havanna, Wescla e Yara Cavalcante – dão vida a essas personagens. A peça, inspirada no Teatro de Revista e nas vedetes, percorre um período que vai do início da Ditadura Militar até os dias atuais.

Em entrevista à Marie Claire, Carvalho explicou sua abordagem: “Não falo sobre dor e nem rivalidade. Como dramaturga, quero propor outra coisa. Elas são muito amigas em cena, ajudam uma a outra. Não quero contribuir para esse imaginário. Falo sobre violência em todos os meus trabalhos. No Cabaré, falo com humor”.

O fio condutor da trama acompanha Divina Valéria, Rogéria e Eloína dos Leopardos, travestis que marcaram a cena cultural carioca durante a ditadura. A partir delas, a peça reconstrói momentos como a diáspora de pessoas trans para a Europa, o exílio e a presença clandestina na televisão.

A sátira utiliza o absurdo para refletir situações reais. Em uma cena, a artista convida alguém da plateia para passar por uma “máquina transexualizadora”, que transforma uma pessoa cis em trans. Em outro momento, interpreta uma pastora que combate a “ideologia de gênero”. Carvalho afirma que, mesmo reconhecendo o sofrimento, prefere narrar a dor de outra forma.

Como transpóloga – termo que criou para sua pesquisa social, artística e histórica –, a cientista social decidiu não reproduzir as narrativas de dor e morte comuns à comunidade. “A narrativa que proponho é a do sonho. Quero falar sobre sucesso, afeto, amor e bons exemplos. Quero que as travestis assistam ao meu espetáculo e pensem que não vão morrer aos 35 anos, porque eu, por exemplo, já cheguei aos 45”, disse.

Para criar o texto, Carvalho revisitou dores pessoais. “Eu sou travesti. Também fui expulsa de casa, caí na prisão compulsória, sou atriz há 30 anos e trabalhei como produtora, diretora, escritora e maquiadora, porque uma coisa só não dá conta”, pontuou. Ela vê a peça como um documento histórico que busca construir memória sobre as travestis. “A gente tem história, mas não tem memória, porque ela foi apagada (cis)sistematicamente pela Santa Inquisição, pelo nazismo, pela ditadura militar, pelos governos de extrema direita.”

Carvalho faz um balanço positivo das conquistas desde os anos 1960. Ela cita a possibilidade de retificação de nome e gênero em cartório, a criação de ambulatórios trans e a presença de pessoas trans na universidade como avanços. “É daqui para frente. Nós já temos duas deputadas federais eleitas, pela primeira vez na história; 28 políticos trans ocupando cargos no legislativo no país inteiro”, afirmou.

A artista se diz otimista em relação ao futuro. “Quero mudar o mundo e estou mudando, nos lugares em que alcanço. Hoje, com minhas peças, consigo falar de representatividade trans na China, França, Itália, Espanha, Uruguai, Argentina e Estados Unidos.” Ela acredita que a arte pode transformar e promete: “Vão tentar nos censurar, nos prender e nos matar. Mas não tem mais como nos segurar”.

Pouco antes do fim do espetáculo, a artista evoca a frase: “Ser travesti também pode ser uma festa”. Para ela, é preciso celebrar as conquistas. “Nós somos o sonho de muitas gerações, a gente precisa aproveitar isso.” Carvalho recorda um episódio com a amiga Indianarae Siqueira, que questionou jovens travestis sobre suas lutas atuais. “A liberdade é uma luta constante”, conclui, citando Angela Davis.