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Cafés do choro no Japão acolhem mães exaustas de madrugada

Getty Images

No mangá Yonakigoya, que ganhou repercussão na internet, o artista Kanemoto imaginou um refúgio noturno para mães de bebês que parecem não parar de chorar: um lugar onde elas pudessem se encontrar, desabafar e atravessar juntas as horas mais difíceis da madrugada. Em português, o título da obra pode ser traduzido como A Casa do Choro Noturno.

Recentemente, a ideia saiu do papel. Em Hokkaido e Niigata, no Japão, os chamados “cafés do choro”, que recebem mães exaustas e seus bebês durante a noite, já são uma realidade. Ali, elas encontram apoio, descanso e alguém com quem dividir as horas mais difíceis, especialmente quando os recém-nascidos não conseguem dormir.

“Vir aqui me dá a chance de conversar com alguém e relaxar”, contou uma mulher de 34 anos que frequenta um desses cafés ao jornal japonês Kyodo News. “Não tenho muitas pessoas com quem conversar sobre maternidade, então um lugar assim é realmente muito importante”, disse outra mãe ao jornal Chunichi Shimbun.

Madoka Nozawa é proprietária do Oyako no Koya, um café em Hokkaido que, desde outubro passado, abre gratuitamente todos os domingos, das 21h às 6h da manhã seguinte. Ao lado de sua equipe, ela recebe mães e seus filhos, junto com o choro, o cansaço e as preocupações que chegam com eles.

“Quero que este seja um refúgio, um lugar onde as pessoas sintam que não estão sozinhas ao enfrentar suas dificuldades”, disse ela à Kyodo News. Um espaço parecido também existe em Niigata. Criado por um grupo de mulheres em julho do ano passado, ele recebe mães e crianças uma noite por semana.

“Eu achava que seria difícil tirar esse projeto do papel. É muito encorajador saber que há pessoas realmente engajadas nisso”, afirmou Kanemoto recentemente. O artista também recebeu diversos pedidos de autorização para o uso do nome “Yonakigoya” em cafés noturnos, mas precisou recusá-los para evitar confusões entre suas obras, sua própria imagem e os estabelecimentos.

“Cada espaço de acolhimento noturno para crianças que existe no país nasceu da paixão, da filosofia e da iniciativa de quem o criou. Eu apenas desenhei o mangá. Tenho enorme respeito por todas as pessoas que estão envolvidas nisso. Se houver um lugar assim perto de você, eu ficaria muito grato se você o apoiasse”, escreveu ele em seu site.

Como observa Erika Ota, especialista em saúde materno-infantil e professora da Escola de Enfermagem da Universidade Internacional St. Luke, em Tóquio, esses cafés existem, por enquanto, apenas em regiões onde as pessoas se deslocam principalmente de carro.

“Em uma cidade como Tóquio, onde o transporte público é essencial para os deslocamentos noturnos, pode ser muito mais difícil para uma mãe sair de casa no meio da madrugada com um recém-nascido chorando. Levar esse conceito para o contexto urbano exigiria uma abordagem diferente”, explica.

Segundo a especialista, a criação desses espaços está ligada a uma série de problemas concretos, principalmente ao isolamento enfrentado por muitas mães após o nascimento dos filhos. Entre os fatores citados por Ota, há, antes de tudo, uma questão prática: “Os serviços formais de assistência raramente funcionam à noite ou nos fins de semana, o que deixa as mães sem apoio justamente nos momentos mais difíceis.”

Também há questões sociais. “O Japão tem uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo e, com a redução no número de nascimentos, as mães acabam cada vez mais isoladas.” Além disso, “a família nuclear se tornou o padrão, e as redes naturais de apoio que antes existiam nas famílias maiores e nas vizinhanças praticamente desapareceram”.

Com o aumento da idade média das mães, a situação pode se tornar ainda mais complexa: “Muitas vezes, os avós já estão idosos demais para oferecer ajuda prática, e um número crescente de mulheres enfrenta a dupla responsabilidade de cuidar, ao mesmo tempo, de filhos pequenos e de pais idosos.” A isso se somam as pressões culturais. “A expectativa profundamente enraizada de que as mães devem cuidar dos filhos sozinhas faz com que muitas mulheres tenham dificuldade para pedir ajuda, mesmo quando estão enfrentando problemas.”

A dificuldade de conciliar trabalho e vida familiar, a distribuição desigual das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos, além dos salários mais baixos recebidos pelas mulheres, aumentam ainda mais a pressão sobre as mães.

A professora Ota ressalta que, embora a assistência à maternidade no Japão tenha pontos fortes importantes — como sistemas bem estruturados de acompanhamento perinatal e clínicas obstétricas de alta qualidade —, a saúde mental no pós-parto continua sendo uma questão séria e pouco enfrentada. A triagem e o tratamento da depressão perinatal, segundo ela, ainda são insuficientes.

Por isso, conclui a especialista, os cafés do choro para mães “representam uma resposta espontânea e comunitária a falhas estruturais que merecem atenção. Mas também deveriam nos fazer questionar por que o apoio profissional, financiado pelo poder público, não chega às mães justamente nos momentos em que elas estão mais vulneráveis”.