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Cientista alerta: autodiagnóstico de autismo cresce nas redes

Reprodução/Instagram

No ano passado, o IBGE divulgou o primeiro levantamento sobre o número de pessoas com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) no país. Foram identificados 2,4 milhões de brasileiros, sendo 1 milhão de mulheres. Nas escolas, as matrículas de alunos com TEA cresceram 44% de 2023 para 2024, segundo o Censo Escolar do Ministério da Educação.

Os dados perceptíveis suscitam debates não somente entre especialistas, mas na sociedade em geral. Para Francesca Happé, professora de neurociência cognitiva do King’s College de Londres, as três hipóteses para o aumento acontecem ao mesmo tempo: a prevalência aumentou, os sintomas estão sendo reconhecidos e existem diagnósticos errados.

Happé é uma das cientistas que contribuiu para tirar o autismo do armário, em especial o feminino. Estudiosa do tema há três décadas, ela é fellow da Academy of Medical Sciences e recebeu uma CBE, condecoração do governo britânico. A acadêmica veio ao Brasil para o Brain Congress 2026, em Porto Alegre (RS), onde conversou com a Marie Claire.

Se por um lado ela celebra o fato de o espectro estar sendo desvendado, por outro mostra preocupação. “É bom que estamos desestigmatizando o autismo. Mas o perigo é que qualquer pessoa com dificuldades sociais pode achar que tem o espectro. Qualquer um que lê sobre os sintomas se reconhece em algo”, diz. “Há muitas maneiras de ser diferente, e nem todas são autismo.”

Para ela, as redes sociais incitam o autodiagnóstico. Alguém assiste a um vídeo sobre hipersensibilidade sensorial, se identifica com um incômodo, vê mais alguns conteúdos e conclui ter o transtorno. Além disso, pode haver demora para uma avaliação profissional. Enquanto a pessoa aguarda por um diagnóstico, às vezes anos, ela mergulha no tema e chega à consulta já convicta. Quando a confirmação não vem, a frustração é grande.

A saída, para a professora, é ampliar os serviços. “Precisamos de espaços onde alguém possa dizer: entendo por que você está pensando em autismo, mas talvez seja TDAH com trauma no passado”, explica.

Se por um lado pode haver excesso de diagnósticos, por outro ainda há subdiagnóstico em meninas. Por décadas, o autismo foi descrito a partir de uma referência masculina. Uma das razões é a chamada camuflagem: meninas tendem mais a imitar comportamentos sociais e a se esforçar para parecer neurotípicas, chegando à vida adulta sem diagnóstico.

O outro mecanismo é a sombra diagnóstica. Quando uma garota com dificuldade de socialização chega ao consultório, o primeiro suspeito costuma ser ansiedade social. Em outro cenário, meninas tratadas para anorexia muitas vezes não recebem diagnóstico do espectro. “Cerca de 20% delas também preenchem critérios para autismo”, diz a professora.

Chegar à vida adulta sem diagnóstico tem consequências. Happé aponta o burnout como um desdobramento frequente. Há também vulnerabilidade a situações de abuso. Mulheres do espectro muitas vezes não sabem o que é aceitável em um relacionamento. “Se você não tem amigas com quem fofocar, e o primeiro namorado diz ‘todas as garotas me deixam fazer isso’, você pode pensar: é só mais uma coisa da vida neurotípica que eu não entendo”, diz a britânica.

A consequência aparece nas estatísticas: a violência física e sexual contra autistas é maior do que contra mulheres sem a condição. A cientista afirma que muitas delas abandonam a escola, vivem em situação de rua ou permanecem em relacionamentos abusivos.

A negligência histórica deixou lacunas. A gravidez e a menopausa são áreas de pesquisa recentes nesse campo. Pessoas autistas costumam ter dificuldade com a interocepção, a percepção do próprio corpo. “E nós não pensamos em adaptar lugares como maternidades para serem amigáveis para autistas”, diz Happé.