A pesquisadora argentina Paula Sibilia lançou o livro Eu mereço! (Ubu), no qual analisa como a ideia de merecimento mudou de sentido na sociedade atual. Segundo ela, o conceito deixou de ser uma consequência de uma ação para se tornar um direito adquirido. A obra aborda como essa transformação se reflete no consumo, na frustração, na vida digital e no cinismo contemporâneo.
O primeiro ponto destacado pela autora é que o merecimento deixou de ser uma recompensa. Antes, merecer algo dependia de uma ação: a pessoa fazia algo e colhia os resultados. Agora, o merecimento se tornou um ponto de partida. A pergunta não é mais “o que eu fiz para merecer isso?”, mas “por que eu não teria direito a isso?”. Sibilia afirma que, pelo simples fato de ser quem é, a pessoa supõe que merece tudo, mesmo sem ter feito nada.
Em segundo lugar, a linguagem do merecimento foi capturada pela lógica de mercado. A publicidade usa a frase “você merece” para vender produtos, como sabonetes, chocolates ou pacotes turísticos. A sensação de satisfazer um desejo é vendida como um ato de justiça consigo mesmo.
Outro ponto abordado é a dificuldade crescente das pessoas em lidar com limites. A cultura atual estimula o consumo infinito e a livre escolha individual. Como resultado, faltam recursos para tolerar frustrações, restrições e até para conviver com os outros. Sibilia observa que as pessoas têm dificuldades para estabelecer diálogos, negociar diferenças e articular acordos.
A verdade também se tornou uma questão de conveniência. Quando o “eu” vira a medida de todas as coisas, a verdade passa a ser algo que se escolhe. Se a pessoa acredita, gosta ou se convém, aquilo é considerado verdade. A autora cita que a concordância de amigos e da bolha social é o que define o que é real.
Por fim, Sibilia aponta que o cinismo é confundido com sinceridade. Antes, certas violências precisavam ser disfarçadas. Hoje, elas aparecem como sinal de coragem para falar o que se pensa. O cínico não sente necessidade de fingir que não é racista, homofóbico ou misógino. Ele não se envergonha e pode até se gabar da própria crueldade, recebendo admiração por isso.
O livro convida à reflexão sobre o que acontece com uma sociedade em que o desejo vira direito, o limite vira ofensa e o cinismo passa por autenticidade.
