No Dia dos Namorados, é comum ver declarações de amor por todos os lados e expectativas prontas: jantar especial, presentes, clima romântico, declaração nas redes sociais e, provavelmente, uma noite de sexo para fechar a comemoração. Na vida real, nem todo casal consegue chegar no dia 12 de junho com toda a paixão que tinham no começo da relação. Com o tempo, a rotina também entra no quarto: trabalho, contas, tarefas domésticas e filhos podem mudar o ritmo do desejo e impactar a frequência sexual do casal.
Com a chegada da data romântica, surgem perguntas como: estamos transando menos do que antes? Se a resposta for sim, isso significa que o desejo acabou? Como retomar isso?
Segundo a psicóloga Alessandra Petraglia, especialista em relacionamentos, a diminuição da frequência do sexo é comum em relações longas e pode fazer parte da transição entre a fase da paixão e uma etapa mais marcada pela parceria e companheirismo. “Essa estabilidade da relação tende a naturalmente diminuir aquela urgência sexual do começo de tudo”, explica. Ela lembra que a rotina do dia a dia pode consumir uma energia necessária para o desejo sexual. “Mudanças hormonais, níveis elevados de estresse e fadiga física do dia a dia podem impactar diretamente a libido.”
É o que aconteceu com Anne, 32 anos, com dois filhos e 15 anos de relacionamento. Ela conta que é um desafio conciliar o sexo com outras responsabilidades. “A gente não tem mais tempo. Tentamos encaixar esse momento de prazer na agenda, só que é bem complicado por causa das crianças”, conta. Antes, o sexo acontecia todos os dias. Hoje, varia entre uma vez por semana ou uma vez por mês. “Não me faz falta a quantidade se a qualidade for boa. A gente sempre conversa. Dá para fazer tal dia? Tem alguma coisa que podemos fazer para melhorar? Isso faz a gente conduzir bem, sem brigas.”
Para Dani, 29 anos, que está há oito anos em um relacionamento, a diminuição dos momentos de prazer a dois ficou mais evidente depois que o casal passou a morar junto, há três anos. “Tem o trabalho, as tarefas de casa, a ‘filha canina’ nos causa muito cansaço e as nossas prioridades foram ficando diferentes”, conta. Para ela, a distância ajudava o desejo a crescer. “Sentir saudade era um fato que influenciava, com certeza.” Hoje, a frequência menor faz falta, mas não da mesma forma para os dois. “Ainda acho importante, mas prefiro fazer menos se for para ser mais intenso e melhor”, relata.
Dani conta que o parceiro costuma puxar mais as conversas sobre o assunto, por sentir mais falta. Nessas trocas, ela tenta explicar que o desejo não aparece sozinho em meio ao cansaço da rotina. “Eu deixo claro que a mulher precisa ser mais estimulada, que precisa de mais atenção. O cansaço do dia a dia não gera vontade de transar naturalmente, pelo menos não para mim.”
Para Petraglia, o Dia dos Namorados pode ajudar na reconexão, desde que o casal não transforme a data em uma obrigação de desempenho romântico ou sexual. “A data pode criar um espaço para a relação, longe dos problemas da rotina. Ela pode auxiliar o casal a sair um pouco do automático e proporcionar um tempo de qualidade.” Reacender o tesão não significa reproduzir a mesma intensidade do começo da relação, mas sim ativar o desejo que vocês sentem hoje um pelo outro. Petraglia indica atitudes simples. “Um carinho, andar de mãos dadas, se dispor a ouvir o outro, sem que isso precise levar ao ato sexual, pode diminuir a ansiedade e a pressão pela performance.”
Mesmo no Dia dos Namorados, a rotina familiar pode pesar. No caso de Anne, a comemoração não costuma mudar a rotina do casal. “Para nós, infelizmente, é um dia comum. Fazemos um jantarzinho em casa mesmo, mas por causa das crianças não é como se fosse rolar uma saída para um restaurante sozinhos.” Já Dani, que não tem filhos, vê a data como uma chance de explorar coisas novas. “Esse ano alugamos uma cabana na serra, com hidromassagem e comidas gostosas, justamente para ter um momento só nosso. Essa mudança na rotina já influencia na vontade de fazer coisas diferentes no sexo.”
Petraglia alerta para a expectativa de transformar a noite em um roteiro perfeito. “O sucesso da data não deve ser medido por ter feito isso ou aquilo, mas pela qualidade da troca emocional e pelo prazer da companhia.”
A expectativa de sexo no Dia dos Namorados pode fazer com que muitos casais interpretem uma noite menos quente como sinal de problema. Segundo Petraglia, a diminuição da frequência sexual não deve ser lida automaticamente como crise. “Só é um sinal de alerta quando a falta de sexo vira ressentimento, manipulação, ou quando o toque físico passa a ser evitado para não gerar falsas expectativas. Nesse caso, é um nível de desconexão que precisa de atenção.”
Uma armadilha ao falar em frequência sexual é imaginar que existe uma regra de quantas transas por semana são necessárias para provar que a relação vai bem. Para Petraglia, essa conta não existe. “Uma transa saudável é aquela que gera satisfação mútua e não causa sofrimento. O natural é definido pelo casal, pelo desejo e nível de intimidade estabelecido.” A especialista diz que a comparação entre o que o casal era no início da relação e o que é hoje é um sintoma de uma sociedade que romantiza a fase da paixão. “Admitir que se transa menos, em alguns casos, é interpretado como fracasso, quando pode ser apenas o curso natural da maturação do vínculo afetivo.” Para ela, o caminho é trocar a cobrança pela conexão. “Em vez de dizer ‘você nunca quer’, é melhor falar sobre o próprio sentimento: ‘eu sinto falta dos nossos momentos íntimos’ ou ‘eu gostaria de entender como podemos nos reconectar’.”
