É difícil controlar o que acontece no nosso cérebro quando o assunto são sonhos ou fantasias. Seja quando estamos acordadas ou não, às vezes a mente vai para longe e nos pegamos imaginando cenários que nunca achamos possíveis. Especialmente no que diz respeito à sexualidade.
“Está só na minha cabeça, não quero fazer isso de verdade”
Maryse, de 39 anos, passou por isso e já se perguntou sobre por que tinha esses tipos de fantasias que não a atraem na vida real. “Por exemplo: adoro ver porno gay masculino, embora eu seja uma mulher totalmente heterossexual. O tesão está só na minha cabeça, não é algo que eu queira fazer de verdade”, destaca.
Para a terapeuta sexual Léa Toussaint, é importante lembrar que nem toda fantasia existe para ser realizada: “A fantasia é algo estritamente nosso. É também uma forma de vivenciar [mentalmente] outras coisas sem magoar a parceria e sem correr o risco de testar algo que possamos não gostar”, explica.
A especialista ainda complementa sobre a importância de aprender a diferenciar dois tipos de fantasia. “De um lado existe a visualização erótica de algo que nos dá tesão e, de outro, aquilo que realmente temos vontade de viver.”
“Às vezes tenho vergonha do que me faz ter tesão”
Gina, de 24 anos, tem dificuldade em aceitar algumas das coisas com as quais fantasia: “Às vezes sinto vergonha dos pensamentos que uso para esquentar as coisas. Calma, não tem nada de ilegal! Mas são práticas que entrariam na categoria ‘pesadas’, degradantes e bem antifeministas. O oposto do que eu sou!”, se defende.
Essa culpa é comum, segundo a terapeuta sexual, mas não deveria existir por ser parte do funcionamento natural do cérebro. “Muitas vezes é algo que não podemos controlar — e já se exige tanto controle das mulheres que precisamos nos reapropriar disso e ser um pouco mais gentis conosco”, afirma.
Além disso, ela pontua que é preciso aprender a compreender o que sente em vez de tentar se controlar, por isso vale se perguntar: “Seria uma reação ao fato de a rotina na cama estar estagnada? Será que a vida sexual ficou muito ‘feijão com arroz’ e o cérebro está pedindo algo mais intenso, como o BDSM, por exemplo?”
Às vezes, a fantasia funciona como um vetor, uma porta de entrada para descobrir uma forma diferente de sexualidade — como um recado do inconsciente enviado pelo cérebro.
“Não sei se posso contar ao meu parceiro”
Héloïse, de 31 anos, prefere não entrar em detalhes sobre suas fantasias. Ela decidiu aceitar o fato de fantasiar com coisas “proibidas”, mas ainda tem uma dúvida: “Será que devo falar sobre isso com as pessoas com quem me relaciono? Ou elas vão achar que, só por falar, eu quero automaticamente tentar isso com elas?”
A mesma dúvida passa pela cabeça de Julia: “Não sei se posso contar ao meu parceiro. Acho que existe a chance de ele me julgar, não tenho certeza. E também acho que há coisas que não precisam ser compartilhadas. Se não faz mal a ninguém e fica só na minha cabeça, qual é o problema?”
Léa Toussaint é categórica e diz que não há necessidade de compartilhar tudo com a parceria: “É preciso pensar em si mesma. Se fica na mente e não faz mal a ninguém, é algo que você pode guardar só para você.”
“Se você precisa falar sobre isso para se livrar da culpa, pode falar. Mas não é algo estritamente necessário”, conclui a terapeuta sexual.
Os nomes foram alterados.
O artigo foi originalmente publicado em Marie Claire França, na sessão Plaisir et Orgasme.
* com alterações de Marie Claire Brasil.
