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Fotojornalistas denunciam machismo na profissão: ‘Homem com menos trabalho tem mais espaço

Divulgação

Quatro fotojornalistas brasileiras premiadas pela World Press Photo, o principal prêmio de fotojornalismo do mundo, relataram que o machismo ainda atravessa suas carreiras. Em entrevista à revista Marie Claire, Renata Brito, Gabriela Biló, Amanda Perobelli e Priscila Ribeiro disseram precisar provar constantemente sua capacidade técnica e enfrentar violência nas redes sociais.

“O tempo todo eu preciso provar a minha capacidade no fotojornalismo. O tempo todo”, afirmou Amanda Perobelli, fotógrafa da Reuters, premiada pela cobertura das enchentes no Rio Grande do Sul em 2024. Para ela, o fotojornalismo “ainda é um meio muito machista”.

Segundo a organização Women Photograph, em 2023 apenas 21% das imagens publicadas por grandes veículos internacionais foram feitas por mulheres ou pessoas não binárias. Na World Press Photo, a disparidade permanece: na edição de 2024, 77% dos inscritos eram homens e 22% mulheres.

Gabriela Biló, que recebeu Menção Honrosa pelo trabalho sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023, afirmou que a sensação de precisar provar seu valor nunca desapareceu. “Um homem que fez um terço do que eu fiz consegue esse mesmo espaço com muito mais facilidade”, disse. Ela acrescentou que o sucesso feminino é frequentemente deslegitimado com justificativas como “sorte” ou “ajuda de alguém”.

Renata Brito, radicada em Barcelona e especializada em coberturas sobre imigração para a Associated Press, entrou na agência aos 21 anos, quando mulheres eram raras entre cinegrafistas. “Havia pouquíssimas mulheres nessas funções. Existe aquela postura de não esperarem muito de você”, relatou. Mesmo com melhorias no cenário, ela diz que a cobrança continua, especialmente agora que é mãe e está grávida novamente.

Priscila Ribeiro, vencedora da edição de 2026 com a fotografia “Um Território de Esperança”, contou que essa sensação apareceu no início da carreira, ao fotografar em um lixão em Cuiabá. Com o tempo, percebeu que seu diferencial estava em sua forma de conversar e ouvir as pessoas.

Gabriela Biló destacou que, durante a cobertura do 8 de janeiro, passava despercebida por não corresponder ao estereótipo de fotojornalista de conflito. No entanto, após a repercussão de suas fotos, sofreu ataques misóginos e ameaças de morte. “A misoginia e o ódio às mulheres na internet são muito mais fortes”, afirmou.

Renata Brito observou que homens não enxergam mulheres como ameaça em algumas coberturas, o que pode facilitar o trabalho. “Como eles não te valorizam tanto inicialmente, acabam baixando a guarda”, disse.

As profissionais rebateram a ideia de uma suposta “sensibilidade natural” feminina para fotografar vulnerabilidade. Para Amanda Perobelli, a sensibilidade independe do gênero. “O que muda é a experiência de vida”, afirmou. Gabriela Biló propôs o termo “olhar feminista” em vez de “olhar feminino”. Já Renata Brito disse que ser mulher lhe dá mais acesso a histórias em sociedades patriarcais.

As quatro concordam que uma boa fotografia nasce da relação com o fotografado. Priscila Ribeiro passou cerca de um mês em uma comunidade no Paraná para fazer a imagem premiada. Renata Brito, em seu projeto “À Deriva”, precisou dar a notícia de mortes a famílias de imigrantes. Amanda Perobelli, durante as enchentes no Rio Grande do Sul, percorreu estradas bloqueadas e encontrou pessoas que queriam mostrar sua situação.

Sobre a saúde mental, Amanda e Gabriela afirmaram fazer terapia. Amanda destacou a importância de tratar as pessoas com dignidade para processar o trabalho. Gabriela disse que fotografar a ajuda a contribuir para uma sociedade melhor. Renata Brito lembrou que tem o privilégio de voltar para casa após as coberturas, enquanto as pessoas fotografadas vivem aquela realidade. Priscila Ribeiro afirmou que nunca sai igual de um projeto e que aprende muito com as pessoas que acompanha.