No início dos anos 2000, a norte-americana Bri Fancy se mudou com os pais e quatro irmãos para São Paulo. Nascida em Grapevine, Texas, uma cidade com pouco mais de 40 mil habitantes, ela tinha apenas oito anos e achou a metrópole paulistana assustadora.
Seu pai, que trabalhava com comércio internacional, tinha uma paixão pelo Brasil, mas para Bri, o que ela ouvia sobre o país nos EUA era muito diferente da realidade. “Na escola americana, as pessoas diziam que o Brasil era só a Amazônia e que eu iria viver entre os bichos”, conta ela.
A cultura, o ritmo e o idioma pareciam muito estranhos. Na escola, por muito tempo, ela só conversava com a professora de inglês, tornando-se uma aluna tímida. “Era um colégio de crianças brasileiras, não havia outros estudantes ‘gringos'”, lembra.
Com o tempo, Bri passou a entender o país melhor, criou laços mais fortes com colegas e aumentou sua fluência em português. “Chegou um momento em que eu entendi que não era uma vítima das risadas”, diz ela, destacando que pegou a “zoeira” brasileira.
Hoje, com quase 3 milhões de seguidores, seu português é fluente e ela sempre fala sobre sua relação com o Brasil, citando a hospitalidade e o afeto que encontrou por aqui.
O que só o Brasil tem
Um ano depois de chegar, a família viveu uma perda: a morte de sua irmã mais velha, Clare, e duas amigas, em um acidente de carro. Eles não puderam voltar aos EUA por causa do trabalho do pai.
Bri imaginou que estariam desamparados, longe de parentes, mas se enganou. “Várias pessoas que nem conheciam minha família traziam comida, me buscavam na escola”, relata. “Foi ali que aprendi sobre um amor que só o brasileiro é capaz de dar”.
Meses depois, em uma cerimônia fúnebre nos Estados Unidos, ela não sentiu o mesmo acolhimento. “Talvez tenha sido neste ponto em que entendi o amor do meu pai pelo Brasil”, afirma.
“Fui de uma patricinha de São Paulo para uma garçonete”
Aos 16 anos, uma nova tragédia atingiu a família: a morte repentina do pai. Além do luto, vieram incertezas. Por questões de trabalho e visto, a mãe decidiu que voltariam aos Estados Unidos.
“Era uma coisa que eu não queria, porque eu já me sentia em casa no Brasil”, diz Bri. De volta ao Texas, um atraso no inventário do pai levou a família a uma crise financeira.
“Eu fui de uma patricinha de São Paulo para uma garçonete que precisava trabalhar para estudar”, conta. Ela chegou a cursar Engenharia Aeroespacial, mas interrompeu os estudos pelo alto custo.
Para se estabilizar, trabalhou como babá, florista e vendedora. Foi nessa época que se mudou para Chicago, onde se reconectou com o Brasil ao fazer amizades com brasileiros.
O retorno ao Brasil
Em Chicago, Bri retomou os estudos e fez amizades brasileiras. Em uma festa de aniversário, conheceu Pedro, um brasileiro que também sonhava em voltar para casa. A amizade, movida por afinidades culturais, virou um namoro.
Enquanto isso, Bri começou a fazer vídeos ensinando inglês para brasileiros nas redes sociais, o que viralizou. “Muitas pessoas do Brasil achavam que eu era uma brasileira forçando sotaque”, relembra.
O plano de retorno foi marcado para o fim de 2024, após Pedro conseguir uma transferência da empresa para o Brasil. Porém, a transferência foi cancelada depois que já tinham vendido tudo nos EUA.
Mesmo assim, decidiram vir. “Viemos com muito medo e teríamos que morar com os pais do Pedro”, afirma Bri. Para sua surpresa, no Brasil ela já era uma estrela digital e, em seus primeiros dias, fechou sua primeira publicidade.
Hoje, graças ao sucesso nas redes, ela tem uma vida tranquila no país. Sua mãe e irmãos, que ficaram nos EUA, se estabilizaram lá, mas sonham em visitar o Brasil novamente.
Bri diz que voltar ao Brasil é como estar em casa. “Fico chocada com os rumos que minha história tomou. Acho que nunca serei capaz de retribuir tudo o que sinto pelas pessoas do Brasil”, finaliza.
A trajetória de Bri Fancy ilustra uma relação profunda com o Brasil, marcada por desafios de adaptação, perdas familiares e superação. Sua história de idas e vindas entre os dois países mostra como laços culturais e afetivos podem se tornar o principal fundamento para construir uma vida. O acolhimento que recebeu em momentos difíceis foi decisivo para sua identificação com o país, transformando-o em seu lar definitivo. A narrativa também reflete o poder das redes sociais em redefinir carreiras e conectar pessoas através de histórias pessoais autênticas.

