Pular para o conteúdo
Notícias

Mãe encontra doador de órgão para filho pela internet

Arquivo pessoal

Camila Fantini, moradora de Belo Horizonte (MG), conta como encontrou um doador de órgãos para o filho, Ravi, pela internet. A criança, hoje com cerca de 10 anos, foi diagnosticada com atresia de vias biliares, uma doença rara que impede o fluxo da bile do fígado para o intestino. Após o nascimento, Ravi apresentava coloração amarelada intensa e fezes esbranquiçadas, o que levou a uma cirurgia de emergência. O procedimento não funcionou, e o menino precisou de um transplante de fígado.

Nem Camila nem o ex-marido, pai de Ravi, eram compatíveis para doar parte do fígado. A criança entrou na fila de transplante. A equipe médica disse a Camila que seria impossível encontrar um doador por conta própria. Ela decidiu tentar. O ex-marido fez uma campanha no Facebook explicando o problema de saúde e que o fígado se regenera. Um amigo dele, em Londres, compartilhou a publicação. A postagem chegou a Luiz Fernando, morador de São João Del Rei (MG), que não conhecia a família.

Luiz Fernando se prontificou a doar. O transplante precisava ser feito em São Paulo, com mais estrutura. Ele arcou com as próprias despesas. Camila, desempregada, iniciou outra campanha para arrecadar fundos. Ela pediu para ficar na casa do irmão, em São Paulo, mas ele negou. Um amigo da família liberou o apartamento, que ficava próximo ao hospital. Na primeira viagem, Camila conheceu Luiz pessoalmente. Eles tiveram três dias para juntar exames de compatibilidade e saúde do doador, o que conseguiram em dois dias. No terceiro, Luiz passou por uma reunião judicial para ser informado dos riscos. A mãe dele também foi a São Paulo para saber dos procedimentos.

O transplante não ocorreu imediatamente. Ravi seguia na fila, pois a prioridade era receber um órgão inteiro. A família precisava retornar periodicamente ao hospital para exames. Camila passou por momentos difíceis, com estadias em casas de apoio e hotéis ruins. Ela lidou sozinha com a situação, já que o ex-marido ficou em Belo Horizonte e não a ajudava. Em uma viagem de avião, Camila conheceu Simonetta, que se comoveu com a história e a hospedou em sua casa. Simonetta preparou um quarto com berço, fraldas, roupas e brinquedos para Ravi.

Após novos exames, a equipe médica informou que Ravi não poderia sair de São Paulo e que Luiz Fernando deveria voltar para o transplante. O estado de saúde do menino piorava. Simonetta convidou todos para ficar em sua casa. Com 11 meses, Ravi foi transplantado. No mesmo dia, outra menina em estado mais grave recebeu um órgão de uma pessoa falecida. A cirurgia durou 20 horas. Luiz Fernando passou dias na UTI. Ravi foi induzido ao coma por causa do trauma. A ex-namorada de Luiz, Laura, ajudou Camila. O ex-marido só apareceu quando a situação estava mais tranquila.

Ravi voltou do coma e teve alta. Hoje, ele tem uma vida normal em Belo Horizonte, vai à escola e joga futebol. Precisa de acompanhamento médico e usa imunossupressores. Camila e Luiz Fernando mantêm amizade há dez anos. Ravi conversa com ele diariamente. Luiz viaja para Belo Horizonte para vê-los, e a família também fica na casa dele em Ubatuba (SP). Camila diz que muitas pessoas sugeriram um envolvimento amoroso, mas ela o considera um irmão. Luiz está em outro relacionamento, e ela é amiga da namorada dele.

Inspirada pela bondade de Luiz e de Simonetta, Camila criou a Rede de Acolhimento e Vida Integrada (RAVI). A proposta é tornar os espaços do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte mais coloridos e preparados para receber mães e crianças. Com ajuda de dois deputados de Minas Gerais, ela conseguiu uma emenda parlamentar de R$ 100 mil para a reforma. Cada andar do hospital agora tem um tema lúdico diferente e brinquedos para as crianças.