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Passport Bros: quem busca ‘mulheres tradicionais’ em outros países?

Unsplash

Enquanto passava férias com a mãe em uma praia do Rio de Janeiro, a paulistana Lilian Ramos, de 24 anos, foi abordada por um norte-americano. As perguntas se tornaram específicas demais e despertaram sua desconfiança. “Ele me perguntava onde eu morava, minha profissão, quanto eu ganhava por ano… Coisas que normalmente você não pergunta para uma pessoa que nunca viu”, relembra ela, em entrevista à Marie Claire.

A jovem afirma que o tom da conversa mudou quando ele percebeu que ela falava inglês fluentemente. “Quando viu que eu conseguia me comunicar bem e explicava as coisas com facilidade, mudou totalmente a postura”, diz. Depois do episódio, Lilian passou a relacionar a abordagem ao discurso dos chamados passport bros, homens que viajam para outros países em busca de mulheres vistas por eles como mais “tradicionais” ou vulneráveis. “Entendi que aquela abordagem, na verdade, era de alguém que estava buscando um perfil específico de mulher”, diz.

O termo passport bros surgiu em 2011, no documentário Frustrated, do diretor norte-americano Al Greeze. A produção acompanha homens dos Estados Unidos que viajam ao Brasil em busca de relacionamentos. A partir de 2019, o movimento ganhou força com a viralização da hashtag #passportbros no TikTok. Em um dos fóruns dedicados ao tema, o conteúdo atrai cerca de 95 mil visitantes por semana.

Para a cientista social Bruna Camilo, doutora pela PUC Minas, os passport bros constroem uma narrativa política e ideológica sobre as relações de gênero. “Muitos de seus influenciadores afirmam que o feminismo teria ‘estragado’ as mulheres ocidentais”, explica. Segundo a pesquisadora, parte desses homens interpreta a maior igualdade nas relações como uma perda de privilégios masculinos.

No fórum r/ThePassportBros, usuários compartilham relatos e classificam países de acordo com a suposta “facilidade” de encontrar mulheres “tradicionais”. Para Bruna Camilo, esse discurso reforça estereótipos e reduz mulheres a características atribuídas às suas nacionalidades. “Trata-se de uma forma de objetificação cultural”, afirma.

O norte-americano Austin Abeyta, de 32 anos, é um dos principais rostos do movimento. Nômade digital, ele reúne mais de 500 mil seguidores no TikTok. Na avaliação da pesquisadora, o problema não está nos relacionamentos internacionais, mas na lógica que sustenta o discurso do movimento. “Existe uma assimetria de poder. Homens de países ricos possuem maior poder econômico, acesso a vistos e melhores condições materiais”, diz. Ela avalia que o debate sobre os passport bros trata, no fundo, de uma discussão sobre poder.