Sete em cada dez mulheres têm sentimentos negativos em relação ao trabalho, como ansiedade, desmotivação ou angústia frequente. É o que mostra a terceira edição do estudo O Check-up de Bem-estar 2025 (2026), realizado pela plataforma Vitalink com 11.600 funcionários de 250 grandes empresas brasileiras. Entre os homens, o índice é de 51%.
A pesquisa, divulgada com exclusividade pela Marie Claire, aponta que as mulheres também são as que mais buscam suporte: 16% fazem terapia e 18% usam medicamentos. Já a maioria dos homens — 39% da geração Z — disse que “não faz nada” para cuidar da saúde mental.
Entre as mulheres negras, a insatisfação é maior: 33%, contra 25% das brancas. Elas também sentem mais o acúmulo de dupla jornada. No total, 38% das mulheres se queixam de serem as principais responsáveis por tarefas domésticas e de cuidado, ante 24% dos homens. Na geração Z, 26% das mulheres negras relatam esse acúmulo, contra 19% dos homens negros da mesma faixa etária.
O CEO da Vidalink, Luis Gonzalez, afirma que o problema é estrutural, não individual. “O fato de a maioria das mulheres chegar ao trabalho carregando ansiedade não demonstra resiliência pessoal. É um problema estrutural. As empresas precisam entender que o bem-estar feminino não é pauta de diversidade, mas de resultado”, diz.
Jaqueline Gomes de Jesus, psicóloga e professora do IFRJ, relaciona a infelicidade ao esgotamento mental. “Há uma superexploração das mulheres, tanto no trabalho fora de casa quanto no doméstico. O avanço é muito pouco.” Elas enfrentam jornadas duplas e triplas, dificuldades para ascender no mercado e maior vulnerabilidade a condutas ofensivas. Dois anos após a Lei da Igualdade Salarial, a diferença salarial entre homens e mulheres é de 21%. Dados do Ministério da Saúde mostram que 70% dos atendimentos por burnout no SUS são de mulheres, que também lideram diagnósticos de ansiedade e depressão.
Maíra Liguori, diretora das organizações Think Olga e Think Eva, acrescenta que o esgotamento impede as mulheres de buscar direitos e oportunidades. “A sobrecarga não é só de cuidado, mas psíquica. A conciliação entre trabalho doméstico e remunerado reduz a disponibilidade para refletir sobre desigualdades, atrapalhando avanços políticos.”
No dia 26 de maio, entra em vigor em todo o país a atualização da NR-1, norma do Ministério do Trabalho e Emprego. Ela obriga as empresas a fazerem o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e criarem o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A novidade é a inclusão de riscos psicossociais — como estresse, assédio e sobrecarga — na gestão de saúde mental. As adequações devem ser concluídas até maio de 2026.
Jesus considera a medida estratégica. “Ela permite dar suporte à urgência de pensar o trabalho a partir da saúde mental, com ações de cuidado, valorização da diversidade e respeito aos direitos humanos. Passa por viabilizar condições mais equilibradas e reconhecer que a vida não se resume ao trabalho.”

