Duas pilotas brasileiras ganharam destaque nas redes sociais ao mostrar o dia a dia da profissão. Roberta Chastinet e Helena Lacerda têm trajetórias diferentes até chegar à cabine de comando, mas compartilham a experiência de enfrentar um ambiente majoritariamente masculino.
Roberta descobriu a aviação aos 16 anos, depois de uma conversa com o primo de uma amiga. Helena decidiu mudar de área após se formar em teatro e publicidade. As duas começaram a formação sem muitas informações sobre o setor e sem referências femininas próximas.
Dados divulgados em 2026 pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) mostram que as mulheres são cerca de 4% dos pilotos no mundo. A desigualdade aparece tanto no acesso à carreira quanto na pressão diária dentro do trabalho.
“Eu não tenho ninguém que foi um mentor para mim na minha carreira, sabe? Nem sabia que isso era uma carreira possível”, conta Helena.
Roberta se formou em 2013 em uma turma com 50 homens e apenas duas mulheres. Ela afirma que ainda precisa provar sua capacidade mais do que os colegas. “Sinto que, até hoje, preciso me provar duas vezes mais do que eles”, diz. Comentários como “mulher não dirige carro, vai dirigir avião?” também fizeram parte da rotina.
A falta de informação levou as duas a criar conteúdo na internet. Helena abriu um canal no YouTube em 2020, durante a pandemia, para compartilhar orientações que gostaria de ter recebido. Hoje, tem mais de 100 mil seguidores no Instagram. Roberta reúne mais de 200 mil seguidores no TikTok, onde fala sobre a experiência como pilota.
Formação e custos
No Brasil, a formação de pilotos é regulamentada pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). O primeiro passo é a licença de Piloto Privado (PP), que exige ensino médio completo, exame teórico e prática em escola autorizada. Para aviões, são necessárias pelo menos 40 horas de voo, ou 35 em curso aprovado pela agência. Essa licença não permite trabalho remunerado.
Para atuar como profissional, é preciso a licença de Piloto Comercial (PC), que exige novo exame teórico, Certificado Médico Aeronáutico de 1ª classe, treinamento prático e no mínimo 200 horas de voo, ou 150 em curso integralmente aprovado pela ANAC. Dependendo da área, também são necessárias habilitações específicas, como a de voo por instrumentos (IFR).
O custo total da formação varia entre R$ 150 mil e R$ 250 mil, conforme a escola, a região e a aeronave. Helena gastou cerca de R$ 110 mil. Roberta estima ter investido R$ 150 mil, depois de cursar uma faculdade antes de iniciar a formação como pilota.
Helena lembra que o valor pode ser parcelado ao longo do processo. “É preciso se planejar financeiramente, mas muitas pessoas olham para o custo total sem considerar que, assim como em uma faculdade, ele pode ser diluído ao longo dos anos”, explica.
Rotina de trabalho
As duas pilotas têm rotinas diferentes. Roberta atua na aviação executiva e recebe a programação no fim do mês anterior. Ela tem oito dias de folga e pode escolher quatro, incluindo um fim de semana. Nos outros dias, fica de sobreaviso.
“Nesse modelo, consigo me programar um pouco e manter uma vida social com mais facilidade”, diz. Ela ressalta que passar datas como Natal e Ano-Novo longe da família faz parte da profissão.
Helena trabalha na aviação comercial nos Estados Unidos. Como mudou de companhia há cerca de um ano e meio, voltou ao fim da fila de senioridade e ocupa uma posição de reserva. “Só sei em quais dias estou disponível para eles e em quais estou de folga”, conta. Quando é escalada, pode ser enviada para cidades como Dublin, Roma, Londres ou Los Angeles.
Apesar dos desafios, as duas veem a aviação como fonte de realização. Helena destaca o lado humano do trabalho. “Existe uma beleza quando pensamos na aviação como missão e propósito de vida. Você está transportando famílias, pessoas e histórias, das mais tristes às mais felizes e bonitas”, afirma.
