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Primeira brasileira no K-pop: ‘Éramos produtos para vender

Reprodução/ Instagram

A paranaense Larissa Ayumi tinha 13 anos quando deixou o Brasil sozinha rumo à Coreia do Sul para tentar realizar um sonho improvável: tornar-se idol de k-pop. Aos 19, entrou para a história como a primeira brasileira a integrar um grupo do gênero, o Blackswan. O caminho até a estreia, porém, esteve longe de ser simples. “Eu gostava da pressão, só que também era muito estressante”, conta em entrevista à Marie Claire.

Natural de Curitiba (PR), Larissa sonhava em cantar desde a infância. Filha de pai descendente de japoneses, cresceu assistindo a animes e consumindo produções asiáticas. Foi nesse universo que, ainda adolescente, descobriu o k-pop por acaso, durante uma pesquisa no YouTube. “Eu achei aquilo muito estranho, porque era muito colorido, muito diferente. Mas alguma coisa me chamou tanta atenção que eu não conseguia parar de assistir”, relembra.

Ao conhecer o sistema de formação de artistas na Coreia do Sul, passou a enxergar uma possibilidade concreta para a carreira. Diferentemente de concursos ou programas de televisão, grandes empresas recrutam jovens para treiná-los durante anos antes de decidir quem vai estrear em um grupo. “Eu vi que existia um caminho. Você entrava para a empresa, treinava e, se fosse boa o suficiente, podia debutar. Então comecei a apostar nisso.”

A oportunidade apareceu em 2014, quando uma empresa sul-coreana promoveu audições em Curitiba. Mesmo sem acreditar que seria aprovada, Larissa participou da seleção e foi a única candidata escolhida para viajar à Coreia do Sul, com todas as despesas pagas. A primeira viagem aconteceu aos 13 anos. Sem os pais e acompanhada apenas por uma tradutora, desembarcou em um país cuja língua ainda não dominava.

“No outro dia eu já comecei o treino. Era muito pesado. A parte mais difícil era o alongamento. A professora pisava na gente ou sentava nas nossas costas para forçar os movimentos. Os professores gritavam, xingavam. Foi um dos maiores choques”, revela. Sem falar coreano ou inglês e ainda menor de idade, a paranaense dividia os dias entre os dormitórios e as salas de ensaio. “Treinávamos de segunda a sábado. Domingo era o único dia livre, mas eu não podia sair sozinha nem conhecia ninguém que pudesse me levar para algum lugar. Eu me sentia muito largada.”

Larissa passou cerca de seis anos como trainee — termo usado para artistas em formação nas empresas de entretenimento sul-coreanas. Nesse período, alternava a rotina entre Brasil e Coreia do Sul: estudava em escolas brasileiras enquanto esperava novas convocações para retornar ao país asiático e seguir treinando. Muitas vezes, a confirmação da viagem chegava apenas uma semana antes do embarque. “Até uma semana antes de viajar, eu não sabia se iria. Era muita loucura. Eles falavam que eu iria, mas tinha vezes que isso acabava não acontecendo também”, diz.

Mesmo à distância, precisava enviar vídeos semanais de canto, dança e exercícios técnicos para serem avaliados por empresários e professores. Eram pelo menos três gravações por semana, usadas para acompanhar sua evolução. Apesar da pressão constante, ela afirma que gostava do desafio. “Era muito estressante, mas eu sempre gostei de superar desafios.”

O desgaste mais intenso, porém, vinha das cobranças em torno do corpo. Segundo a brasileira, as trainees eram pesadas com frequência e recebiam críticas caso ganhassem peso — uma pressão que recaía especialmente sobre as garotas. “Você chega na sala de ensaio e eles te pesam para saber se emagreceu ou engordou. Se engordou, leva bronca. Existe uma pressão enorme para ter o corpo que eles consideram ideal.”

Larissa lembra que passou a questionar a própria imagem depois que uma manager sugeriu que precisava emagrecer para preservar a estética do grupo. “Ela falou que as roupas ficavam bonitas em todas as integrantes, menos em mim. Depois disso comecei a me sentir muito mal com o meu corpo.” Ela lembra que até mesmo as refeições eram fiscalizadas, e alimentos mais gordurosos eram malvistos.

Depois dos anos de preparação, Larissa estreou oficialmente no Blackswan, em 2020, e se tornou a primeira brasileira a integrar um grupo de k-pop. O processo foi gradual: antes do debut, ela já havia subido aos palcos com o Rania. Para ela, a sensação de realizar o sonho só aparecia nos grandes programas musicais da televisão sul-coreana. “Era quando eu subia no palco do M Countdown ou do The Show que pensava: ‘Caraca, eu estou aqui mesmo’.”

Nos bastidores, contudo, a realidade estava distante da imagem glamourosa associada ao universo dos idols. “As pessoas acham que é luxo, glamour, que a gente é rica. Mas muitas vezes eu tinha acabado de levar um esporro por causa do meu peso e precisava gravar um vídeo sorrindo, como se estivesse tudo bem”, declara. A convivência com outras integrantes também era, em alguns momentos, difícil. Primeira artista estrangeira escolhida para o grupo, Larissa afirma ter enfrentado resistência de algumas trainees coreanas. “Algumas perguntavam: ‘Por que você quer ser cantora aqui? Por que você não quer ser cantora no Brasil?’”, relembra.

Além disso, a paranaense diz que a própria gestão, em vez de mediar conflitos, estimulava a “rivalidade feminina” entre as artistas. “A empresa dizia: ‘Olha como ela é melhor que você’. Isso criava competição o tempo todo.” Com o passar dos anos, os conflitos internos passaram a comprometer sua saúde mental. Larissa afirma que pediu para deixar o grupo, mas teve os pedidos negados. Após insistir, entrou em hiato no fim de 2021 e deixou definitivamente o Blackswan em 2022.

A jovem relata que deixou a empresa com medo de sofrer represálias, pois chegou a ouvir do presidente da companhia que teria sua carreira destruída na Coreia caso insistisse em sair do grupo. “Depois que saí, eu tinha medo até de andar na rua. Quando via uma van, achava que era alguém da empresa, mesmo que nem fizesse sentido. Fiquei traumatizada”, admite. Outro episódio que a marcou foi a falta de remuneração. Apesar de ter estreado oficialmente, Larissa afirma que nunca recebeu salário como idol. “Eu recebia cerca de 100 dólares por mês, mas era como uma mesada para alimentação. Nunca tive acesso às contas da empresa, mesmo pedindo várias vezes”, comenta.

Hoje, longe da indústria musical, Larissa afirma não ter interesse em voltar ao k-pop. “Uma das coisas que ouvi da empresa é que nós éramos produtos. E, para vender um produto, ele precisa ser perfeito. Então você não pode beber, não pode namorar, não pode fazer praticamente nada que goste. Eu era privada disso. Todas nós éramos. E é uma coisa que eu não quero viver de novo”, afirma. Mesmo tendo deixado o grupo há alguns anos, o contrato de Larissa só foi rescindido no fim de 2025.

Atualmente, Larissa ainda vive na Coreia do Sul, onde trabalha como modelo e criadora de conteúdo. A reconstrução da carreira não foi imediata. Ainda vinculada à empresa, não podia exercer atividades relacionadas ao entretenimento e precisou encontrar outras formas de se manter no país. Para manter o visto de permanência, passou a estudar coreano e trabalhou em uma oficina mecânica. Agora, pretende investir na carreira de modelo e, mais adiante, empreender com uma loja de produtos coreanos voltada ao público brasileiro.