Antes de se tornar uma das principais vozes do jornalismo esportivo brasileiro, Ana Thaís Matos precisou aprender cedo sobre responsabilidade e sobrevivência. Filha de dona Francisca, faxineira que criou seis filhos sozinha após a separação, Ana cresceu entre a Baixada do Glicério, no centro de São Paulo, e a periferia de Itanhaém, no litoral paulista.
Quando a família se mudou para o litoral, no início dos anos 1990, a mãe trabalhava na capital e só voltava para casa aos fins de semana. Aos 9 anos, Ana já cozinhava, cuidava da casa e levava uma das irmãs mais novas para a escola. Foi nesse contexto que o futebol entrou em sua vida. Impactada pelo tetracampeonato brasileiro de 1994, ela brigou para jogar com os meninos e pressionou a escola a criar times femininos. Mais tarde, jogaria futsal por mais de uma década.
Aos 17 anos, voltou sozinha para São Paulo. Trabalhou em escritório de motoboy e exerceu funções administrativas. Aluna de escola pública, cursou Jornalismo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo com bolsa do ProUni, tornando-se a única entre os irmãos a concluir o ensino superior.
Décadas depois, Ana foi a primeira mulher a comentar partidas do Campeonato Brasileiro masculino na TV aberta e integrou a cobertura da Copa do Mundo do Catar. “Foi muito solitário”, admite. A solidão aparece em diferentes momentos da entrevista. Ela fala sobre o impacto da ascensão profissional nas relações pessoais, sobre a decisão de não ser mãe e sobre os ataques que recebe nas redes sociais.
Nesta Copa, a equipe da Globo conta também com a ex-jogadora Cris Rozeira como comentarista e Renata Silveira na narração. Para Ana, isso é mudança histórica. “A história do futebol nunca mais será contada sem uma de nós”, afirma.
Ela diz que a Copa do Catar foi solitária, pois era a única mulher no núcleo da seleção brasileira. “Quando a Copa terminou, lembro de gravar um vídeo para mim mesma dizendo: ‘Se eu pudesse desejar alguma coisa, gostaria de voltar para uma Copa do Mundo com mais mulheres’.”
Sobre os ataques na internet, Ana afirma que a chegada aos 40 anos lhe trouxe mais paz. Ela cita um levantamento da ONU Mulheres mostrando que jornalistas mulheres são as que mais se autocensuram para evitar violência digital. “Precisamos nos encorajar. Percebi o quanto perdi espaço e deixei de ganhar dinheiro por causa disso.”
Em relação à decisão de não ser mãe, ela diz que nunca quis. “Todas as minhas irmãs têm filhos e sofreram muito. Precisava viver a minha vida e ser a minha prioridade. Foi uma decisão baseada nas minhas conquistas, mas muito solitária.” Ela conta que, mesmo casada, se sente sozinha nas decisões e nas conquistas, mas valoriza as amizades.
Sobre a seleção brasileira, Ana aposta nos jovens Rayan e Endrick. “Acho que eles podem trazer um elemento de surpresa. A Copa do Mundo tem uma magia própria.” Para a Copa do Mundo Feminina no Brasil, ela diz que o país tem know-how, mas ainda falta mobilização para criar identificação com a seleção feminina. “O futebol feminino precisa de um grande chacoalhão de visibilidade.”
