A designer Jeniffer Moreira, de 28 anos, acostumada a uma vida sexual ativa, notou que precisava de mais tempo e estímulos para se sentir satisfeita. “Sentia muita dificuldade para ter um orgasmo e foi aí que comecei a perceber que algo estava diferente em mim”, disse. Ao ler a bula de seus medicamentos para saúde mental, encontrou uma possível explicação: os efeitos colaterais.
Jeniffer convive com depressão e transtorno de ansiedade generalizada (TAG) e faz tratamento medicamentoso há 15 anos. Com o tempo, além da dificuldade com o orgasmo, percebeu uma diminuição na libido. “Tinha menos vontade de transar do que o habitual e isso afetou a frequência do sexo no meu relacionamento”, contou. O parceiro dela também notou a mudança e questionou se estava fazendo algo errado, até que entenderam ser um efeito da medicação.
A disfunção sexual é um dos efeitos colaterais mais comuns dos antidepressivos. Um estudo de 2025 na revista BMC Psychiatry, com 452 pacientes, mostrou que 88,7% das mulheres apresentavam algum grau de disfunção sexual. Entre 27% e 65% das mulheres tratadas com inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (ISRSN) desenvolvem novos problemas sexuais nas primeiras semanas de tratamento.
O psiquiatra Bruno Pascale Cammarota explica que os medicamentos aumentam a disponibilidade de serotonina no cérebro para controlar sintomas de ansiedade e depressão, mas esse mecanismo pode interferir em vias neuroquímicas envolvidas no desejo, excitação e orgasmo. A psicóloga Bárbara, de 26 anos, percebeu a falta de atração antes mesmo do ato sexual. “Antes, eu via uma pessoa bonita na rua e logo me sentia atraída. Depois de começar a tomar a medicação, isso simplesmente deixou de acontecer”, relatou.
A ginecologista e sexóloga Erica Mantendo afirma que o desejo sexual começa no cérebro. “Quando os medicamentos reduzem a atividade dos circuitos de motivação, esses pensamentos deixam de surgir naturalmente. A mulher não está reprimindo o desejo, ele apenas deixa de fazer parte da sua rotina espontânea.”
A esteticista Marcelly, de 27 anos, perdeu a vontade e a lubrificação desde que iniciou o tratamento. “Às vezes o meu marido acha que não sinto mais atração por ele, o que não é verdade”, desabafou. Ela ouviu dos médicos que a reação era normal e passaria, mas o efeito permanece. Segundo Mantendo, a perda da libido é um efeito neuroquímico e não significa falta de amor ou perda da feminilidade.
Os médicos alertam para os riscos de parar o tratamento por conta própria. “Quando você suspende uma medicação por conta própria, pode trazer a síndrome de abstinência, com palpitações, fraqueza e até convulsões”, disse o psiquiatra Pascale. Bárbara chegou a suspender a medicação sozinha e sentiu um efeito rebote, com episódios depressivos e ansiedade mais intensos.
Para recuperar o prazer sexual sem abandonar a saúde mental, os especialistas recomendam procurar o psiquiatra para ajustar a dose ou trocar a medicação. Outra estratégia é estimular o desejo responsivo, que reage a estímulos como toque, lubrificantes e brinquedos eróticos. A conversa com o parceiro e a psicoterapia também são indicadas para trabalhar a culpa e a autoestima.
