sexta-feira, maio 8

A juíza Mariana Francisco Ferreira morreu na quarta-feira (6) após passar por um procedimento de coleta de óvulos em Mogi das Cruzes (SP). Ela tinha 34 anos, e o caso é investigado pela Polícia Civil. Não foi a primeira paciente. Em fevereiro, a terapeuta Gabriele Martins, de 31 anos, faleceu em circunstâncias semelhantes, em São Paulo. As notícias viralizaram e colocam uma dúvida para as mulheres que passam por essa experiência: o que pode dar errado?

O congelamento de óvulos surgiu como aliado de mulheres que desejam preservar a fertilidade antes de tratamentos como a quimioterapia. Com o tempo, o método passou a ser adotado também por quem quer adiar a maternidade sem abrir mão da qualidade genética dos próprios óvulos, e é uma etapa necessária para a realização da fertilização in vitro.

O processo começa antes mesmo da cirurgia. Por cerca de dez dias, a mulher aplica injeções diárias de hormônios para estimular a produção de mais óvulos do que o ciclo natural. A cada três dias, ela retorna à clínica para fazer um ultrassom de acompanhamento.

Quando os folículos, que são a estrutura que abriga cada óvulo, atingem a maturidade, vem a etapa cirúrgica: a punção ovariana transvaginal. Por fim, há a chamada vitrificação, na qual os óvulos são congelados em nitrogênio líquido a temperaturas extremamente baixas. Para as mulheres, os riscos estão nas duas primeiras fases.

Síndrome da hiperestimulação hormonal

No início do processo, a principal complicação é a síndrome de hiperestimulação ovariana (SHO). Ela ocorre quando os ovários respondem de forma exagerada aos hormônios, com aumento de tamanho e acúmulo de líquido no abdômen, podendo comprometer os rins e a coagulação sanguínea.

A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva classifica a SHO como uma complicação incomum, mas séria. Os protocolos mais recentes tornaram o cenário mais seguro. Quando o ultrassom identifica uma resposta ovariana exagerada, acima de 15 a 20 folículos, entra em cena uma medicação que age em 12 a 36 horas, reduzindo o risco de hiperestímulo. “Os casos graves são raros de acontecer por conta da melhoria dos medicamentos”, afirma Eduardo Motta, fundador do Grupo Huntington.

Torção do ovário

Outra complicação possível também ocorre na fase de estimulação. “O ovário normalmente tem o tamanho de um morango. De repente, em dez dias, ele fica do tamanho de uma manga”, descreve Geraldo Caldeira, ginecologista membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

O órgão é sustentado por ligamentos que o prendem ao útero, à trompa e à pelve. Com esse peso extra, ele pode girar sobre o próprio eixo, interrompendo o fluxo de sangue e causando isquemia. O quadro é cirúrgico e exige laparoscopia de urgência para reposicionar o órgão. Na maioria dos casos, o ovário pode ser preservado se o diagnóstico for rápido.

Sangramento

Na etapa cirúrgica, o risco mais grave é o sangramento. A pelve é uma região muito vascularizada e, durante o procedimento, a agulha pode atingir um vaso de pequeno calibre dentro do ovário. “É possível ter um pequeno sangramento no pós-operatório. Até diria que isso é comum de acontecer. Mas em 99,99% das vezes isso não traduz nenhum tipo de preocupação maior”, afirma Motta.

O problema ocorre quando o sangue se acumula dentro de um folículo já esvaziado e forma um cisto hemorrágico que, horas depois, se rompe dentro de um órgão já muito vascularizado por causa do estímulo. O resultado é o hemoperitônio, acúmulo de sangue na cavidade abdominal, que pode exigir laparoscopia para cauterizar o ponto de sangramento.

Probabilidade baixa na estatística

A SBRA lista ainda que entre os riscos inerentes ao procedimento estão o tromboembolismo, infecções e complicações anestésicas, incluindo reações alérgicas ao sedativo usado no procedimento.

Após a morte de Gabriele Martins, cinco entidades médicas brasileiras, incluindo a SBRA e a Febrasgo, publicaram nota conjunta afirmando que a mortalidade associada aos tratamentos de FIV são estimadas em menos de 1 caso por 100.000 ciclos.

“A evolução dos protocolos de estimulação ovariana reduziu significativamente o risco de hiperestimulação ovariana grave, atualmente considerada incomum em centros especializados. Medidas preventivas são adotadas especialmente em pacientes identificadas como de maior risco. Complicações anestésicas e intercorrências relacionadas à punção ovariana, quando diagnosticadas precocemente, podem ser tratadas e, geralmente, apresentam boa resolução”, diz o texto.

Os médicos reconhecem que as notícias podem assustar, mas pedem cautela. “É um procedimento de baixa complexidade”, diz Motta. Caldeira concorda: “Acontecendo dois casos seguidos, isso gera um alarme muito grande, mas o risco mínimo”.