Enquanto caminhava para assistir a uma partida da Copa do Mundo, nos Estados Unidos, a influenciadora Jojoca foi chamada de “puta” por um homem desconhecido. O episódio, relatado nas redes sociais, aconteceu enquanto ela usava a camisa da Seleção Brasileira e, para ela, evidencia como muitas mulheres ainda enfrentam violência e assédio em ambientes ligados ao futebol.
“Os caras se sentem à vontade para fazer qualquer coisa, falar qualquer absurdo. Eu estava indo feliz para o jogo quando um homem começou a gritar as poucas palavras que sabia em português e achou que cabia me chamar de ‘puta’”, disse.
Em entrevista à Marie Claire, Jojoca afirma que o episódio a fez refletir sobre a permanência do machismo no esporte. “Fiquei uns 40 minutos pensando: ‘É sério que, aos 36 anos, trabalhando há mais de dez anos na internet e tentando contribuir para que a próxima geração viva uma realidade melhor, um homem ainda se sente no direito de me chamar de puta só porque estou com a camisa do Brasil?’”
Apesar da frustração, ela diz acreditar que mudanças vêm acontecendo. “Às vezes, penso que as coisas não melhoraram tanto quanto eu gostaria, mas, se eu desistir, eles vencem. Continuo acreditando que as meninas que estão nascendo hoje vão enfrentar menos situações como essa.”
O relato da influenciadora não é isolado. A dermatologista Fabíola Bordin também lembra um episódio vivido durante a Copa do Mundo de 2014, no Rio de Janeiro. Depois da partida entre Uruguai e Colômbia, ela voltava de metrô usando uma camisa do Internacional quando foi cercada por um grupo de torcedores uruguaios.
“Eu era a única mulher no vagão e um deles começou a me provocar, xingando o Brasil e o meu time. Os outros homens ficaram incomodados e mandaram que ele parasse, mas foi uma situação muito estranha.”
Ela diz que não entendeu por que o homem escolheu justamente a atacar entre tantas pessoas. “Eu adoro futebol e fui a todos os jogos da Copa no Rio, mas é um esporte muito machista. Você vê e passa por coisas que não acontecem, por exemplo, em uma Olimpíada”, relata.
Os relatos dialogam com um cenário apontado por uma pesquisa da Hibou Pesquisas e Insights, realizada com 1.120 brasileiros para a plataforma “Red é de Sangue”, da Fresh PR. O levantamento mostra que 30% dos homens acreditam que mulheres não entendem tanto de futebol quanto eles.
Ao mesmo tempo, 79% dos entrevistados reconhecem que o conhecimento feminino sobre o esporte é questionado com mais frequência, enquanto 58% concordam que mulheres ainda precisam “provar” que entendem de futebol para serem levadas a sério como torcedoras.
O machismo também aparece em outros espaços do esporte. Segundo a pesquisa, 90% dos brasileiros reconhecem que árbitras sofrem mais pressão e desrespeito do que árbitros homens, embora esse reconhecimento seja menor entre os entrevistados do sexo masculino: apenas 22% concordam totalmente com essa afirmação.
Já 70% afirmam que narradoras esportivas ainda enfrentam resistência do público por machismo, e um em cada quatro homens admite confiar mais em análises esportivas feitas por homens do que por mulheres.
Para Jojoca, esses números refletem uma cultura que ainda trata o futebol como um território masculino. Ela afirma que a diferença está na ideia de que “futebol é um ambiente de homem” e que, muitas vezes, mulheres que acompanham o esporte desde cedo precisam provar que entendem do assunto, enquanto homens com menos conhecimento são aceitos com mais facilidade.
A influenciadora reconhece avanços, como o aumento da presença de narradoras, comentaristas e criadoras de conteúdo na cobertura esportiva, mas avalia que a credibilidade feminina ainda é constantemente colocada em xeque. “Com a mulher, a sensação é sempre de que estão esperando ela cometer um erro para dizer que aquele não é o lugar dela.”
Um exemplo foi visto nesta edição da Copa do Mundo. A partida entre República Tcheca e África do Sul, pela fase de grupos, foi comandada por uma equipe de arbitragem formada exclusivamente por mulheres: a árbitra Tori Penso e as assistentes Brooke Mayo e Kathryn Nesbitt. Foi apenas a segunda vez que um trio feminino apitou uma partida da Copa do Mundo masculina. A presença de mulheres na arbitragem do torneio, por sua vez, só passou a acontecer na edição de 2022.
“Hoje vemos mais mulheres cobrindo uma Copa do Mundo do que vimos no Catar, mas ainda existem campanhas feitas só com homens. Isso é um erro, porque as mulheres também consomem futebol e movimentam esse mercado.”
Os dados da Hibou indicam que o machismo continua presente para além das quatro linhas. O levantamento mostra que apenas 19% dos brasileiros disseram ter ficado surpresos ao saber que estudos apontam aumento da violência contra a mulher em dias de jogos de futebol. Os outros 81% afirmaram que já conheciam essa realidade ou que ela não lhes causou espanto, um indicativo da normalização desse tipo de violência.
“Os números retratam um preconceito que se reorganizou para sobreviver. Enquanto o machismo for socialmente reprovável, mas individualmente tolerado, a mulher vai seguir tendo que provar o óbvio dentro de um esporte que também é dela”, afirma Lígia Mello, CSO da Hibou.
Jojoca, que também cobre a Copa feminina, chama atenção para a diferença entre a atmosfera entre os campeonatos. Ela conta que nas duas edições do Mundial Feminino que cobriu — França e Austrália — nunca sofreu qualquer episódio de assédio.
“O ambiente é muito mais acolhedor, com mais famílias, crianças e mulheres. Nunca ouvi comentários como os que ouvi agora ou na Copa do Catar. Acho que os homens que acompanham o futebol feminino já deram alguns passos em relação ao machismo.”
Para Jojoca, essa diferença também interfere nos cuidados que mulheres sentem que precisam adotar ao assistir a uma partida. “Nunca fui sozinha a um jogo de futebol masculino. Se estivesse muito calor, provavelmente pensaria na roupa que usaria. É triste, mas existe esse receio de ser tratada como um pedaço de carne. Em um jogo feminino, isso não passaria pela minha cabeça.”
Apesar dos episódios de assédio, Jojoca incentiva outras mulheres a realizarem o sonho de acompanhar uma Copa do Mundo de perto. Para ela, o medo não deve impedir essa experiência, mas alguns cuidados podem ajudar a tornar o momento mais seguro.
“Não deixem de viver essa experiência por medo. Na Copa masculina, vá acompanhada e, de preferência, com outros brasileiros. Existe uma sensação maior de proteção. Se puder escolher, aproveite a Copa do Mundo Feminina do ano que vem, no Brasil. Vai ser uma experiência emocionante e muito diferente”, garante.
