Benedita Casé falou publicamente sobre sua surdez pela primeira vez há sete anos, quando estava perto dos 30 anos, era mãe e já tinha uma carreira estabelecida. Ela usou as redes sociais, um espaço onde o debate costuma ser dividido entre hostilidade e acolhimento. A atriz conta que, ao enfrentar o medo, sua “saída do armário” abriu uma janela.
“Cada um tem o seu processo de descoberta. A primeira vez que falei, fiquei morrendo de medo de ser rejeitada. Só que eu fui acolhida, e por milhares de pessoas, que começaram a se sentir mais próximas de mim”, relembra em entrevista à Marie Claire por telefone.
A repercussão positiva fez com que ela se tornasse uma porta-voz. Hoje, Benedita entende que seu papel é mostrar caminhos para a inclusão. “Quando fui entendendo que alcançava muita gente, que tinha uma visibilidade grande, me senti quase na obrigação. Decidi que tinha que aproveitar e usar dessa minha força, meu acesso e visibilidade, para trazer esses assuntos”.
Carreira e teatro
Aos 37 anos, Benedita Casé vive uma transformação na carreira. Filha da atriz Regina Casé com o artista plástico Luiz Zerbini, ela colhe o sucesso do espetáculo ‘SURDA’, que agora começa a viajar pelo Brasil. No primeiro contato com o texto, ela conta que hesitou. A artista tinha acabado de viver sua primeira experiência como atriz no longa ’90 Decibéis’ (Globo Filmes) e teve medo de não conseguir dar conta. O texto, de autoria da escritora Júlia Spadaccini, acabou conquistando-a.
“Tive medo, porque o teatro é outra coisa.” Após duas temporadas no Rio de Janeiro, a peça vai para Belo Horizonte como parte do Acessa BH, maior evento dedicado à cultura DEF no país. Em novembro, ela também estreia em São Paulo. “Quando a gente vai descobrindo o que consegue fazer, é uma delícia, porque você vai ganhando autoconfiança. Fui tomando muita intimidade com o texto, me surpreendendo com o processo. É uma construção.”
Benedita é surda desde a primeira infância, quando perdeu a audição após usar medicamentos ototóxicos para tratar uma pneumonia severa. Mesmo vindo de uma família com acesso a recursos e informação, entender sua condição foi uma jornada longa. A estreia como atriz também funcionou como uma autoterapia, levando-a a questionar o passado e os caminhos que a impediram de desenvolver outras habilidades.
“Só fui dando conta disso aos poucos. Por que eu nunca fiz teatro vindo da família de onde venho? Por que isso nunca foi uma possibilidade para mim?”, questiona. As dúvidas viraram um diálogo franco com a mãe, Regina Casé. Juntas, elas repensaram o caminho que as trouxe até aqui, sem mágoa ou ressentimento, para reinventar a relação e dividir essa experiência com o público.
“A gente sabe que o capacitismo muitas vezes começa em casa. Nós fomos passando por isso juntas. O teatro não era uma opção porque eu tinha muitas questões com a fala. No início, minha mãe inclusive achou que o problema não era a minha audição, e sim a fala. Só com o tempo fomos entendendo. Por isso, eu fugia de atividades ligadas à comunicação, então o teatro não se apresentava como uma possibilidade.”
A superproteção também marcou sua vida, como acontece com muitas pessoas com deficiência. O ambiente familiar era acolhedor, pronto para atender às necessidades básicas. “Educar uma pessoa com deficiência passa sempre por uma linha muito tênue entre você proteger e querer pertinho, e você deixar que enfrente os desafios”, avalia.
Formada em Design Gráfico, Benedita já foi diretora, roteirista, podcaster e, agora, atriz. Em uma das sessões de SURDA, foi questionada por Claudia Abreu: “Tem certeza de que você nunca fez isso?”, relembra, animada. A descoberta de um novo talento aos 37 anos a torna uma referência para outras pessoas com deficiência e para mulheres que querem se reinventar. “No meu caso, ser uma referência não tem nada a ver com vaidade ou ego. É você acreditar que dividir as suas histórias faz os outros pensarem.”
Benedita também quer ganhar mais autonomia. Desde que começou a usar um aparelho auditivo mais moderno, via Bluetooth e com 32 canais de áudio, conseguiu ouvir mais sons e escutar pela primeira vez o canto das cigarras. “É uma diferença absurda, foi muito impactante, mas ainda identifico um monte de distorções que eu demoro para entender o que é”, conta. Ela não descarta realizar um implante coclear no futuro, possibilidade que avalia com sua equipe médica. “Eu ainda não coloquei, estou fazendo um estudo. É uma possibilidade para mim agora porque não era há um tempo atrás”, diz.
Benedita quer que outras mulheres saibam que é possível conquistar novos espaços com as habilidades que têm. “Temos muitos sentimentos em comum, as pessoas que têm e as que não têm deficiência. Os medos, as angústias. Acredito em um espaço em que todo mundo se encontra.”
O Festival Acessa BH 2025 acontece entre os dias 4 e 27 de setembro de 2026. A abertura será no dia 4, às 20h, na Funarte MG, com o espetáculo SER(Tão), do grupo Movidos Dança (RN). A entrada é majoritariamente gratuita e a programação completa está disponível no site do evento.
