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Colágeno para o cabelo funciona? Médicos esclarecem

Colágeno para o cabelo funciona? — Foto: Reprodução/Instagram @gabrielleshamon

O colágeno se tornou um dos suplementos mais populares quando o assunto é beleza. Frequentemente associado ao fortalecimento dos fios, ao crescimento do cabelo e à prevenção da queda, ele desperta dúvidas entre consumidores e profissionais de saúde. Afinal, a suplementação realmente funciona para a saúde capilar?

Embora o colágeno seja a proteína estrutural mais abundante do corpo humano, responsável por cerca de 30% de todas as proteínas do organismo, seu papel na saúde dos cabelos é considerado indireto. As evidências científicas disponíveis até o momento ainda não são suficientes para recomendá-lo como tratamento para a queda ou fortalecimento dos fios.

Para entender o que já se sabe sobre o tema, a dermatologista Caroline Romanelli, secretária da diretoria da Sociedade Brasileira de Dermatologia Regional São Paulo (SBD-RESP), e a nutróloga Mariana Comério foram consultadas. Segundo Mariana Comério, a queratina representa entre 80% e 90% da estrutura do cabelo e é responsável por conferir resistência e elasticidade aos fios.

“As proteínas são a base da qualidade e da estrutura do fio. A queratina compõe, em média, de 80% a 90% da estrutura do cabelo, dá elasticidade e funciona como um esqueleto. Os aminoácidos que consumimos na alimentação preenchem as lacunas desse esqueleto. É por isso que o cabelo fica com mais resistência e com mais força”, explica a nutróloga.

A especialista destaca que a deficiência de proteínas pode comprometer diretamente a saúde capilar. “Quando a pessoa está desnutrida, com pouca proteína, o cabelo fica quebradiço. O esqueleto fica frágil. Nesse sentido, a proteína funciona como um cimento ali dentro, é ela que segura o cabelo e dá proteção e brilho aos fios.”

Ela acrescenta que o organismo prioriza funções essenciais em situações de deficiência nutricional. “O cabelo não é essencial para a sobrevivência. Em situações de deficiência ou restrição, o organismo entra em sinal de alerta. Nesse cenário, o cabelo não é prioridade e, por isso, ele é o primeiro a deixar de receber os nutrientes.”

Apesar da fama dos suplementos, as duas especialistas afirmam que ainda não há comprovação científica suficiente para indicar o colágeno como tratamento para queda de cabelo ou degeneração capilar. “As evidências científicas ainda não comprovam o benefício da suplementação de colágeno para a saúde capilar. Existe uma suspeita de que possa melhorar, mas o que está comprovado é que os precursores do colágeno são mais adequados para a suplementação e o tratamento do cabelo quando o paciente está em deficiência”, afirma Mariana Comério.

Caroline Romanelli reforça que os estudos disponíveis apresentam resultados limitados. “Não há consenso definitivo, a maioria das evidências ainda não é conclusiva para recomendar o colágeno como tratamento de primeira linha para queda ou degeneração capilar. Alguns estudos indicaram pequenas melhorias em densidade ou espessura dos fios em determinadas populações após seis a 12 meses de suplementação com peptídeos de colágeno, mas muitos fatores, como nutrição global, genética e saúde hormonal, também influenciam os resultados.”

Segundo a dermatologista, a divulgação comercial costuma ir além do que a ciência consegue comprovar atualmente. “Há base biológica para o papel do colágeno na pele e no suporte tecidual, mas muitas promessas sobre resultados dramáticos no cabelo não são robustamente suportadas por evidência clínica sólida. O benefício observado tende a ser modesto e dependente de fatores individuais.”

Isso não significa que a suplementação nunca seja necessária. Em alguns casos, ela pode fazer parte do tratamento, desde que haja indicação médica. Mariana Comério cita situações como deficiência nutricional, estresse, infecções, anemia, pós-operatório e até quadros de constipação intestinal. “Há um caso interessante que as pessoas não percebem: a constipação intestinal. Um intestino muito preso pode levar à queda de cabelo, porque a pessoa não tem a devida absorção.”

Para Caroline Romanelli, idosos e mulheres na pós-menopausa também podem apresentar benefícios relacionados à saúde dos tecidos. “Grupos com deficiência nutricional ou envelhecimento que acompanha diminuição da matriz dérmica podem ter algum benefício tecidual geral com a suplementação.”

As especialistas destacam que a saúde dos fios depende de um conjunto de fatores, e não apenas da suplementação. “Os fatores que causam impacto na saúde capilar atuam em conjunto. Genética e hormônios determinam a estrutura e o ciclo capilar, enquanto doenças e a alimentação afetam o crescimento e a qualidade da haste”, explica Caroline Romanelli.

Ela acrescenta que alimentação adequada, estado hormonal, condições do couro cabeludo, infecções, uso de químicos agressivos, deficiência de ferro e doenças autoimunes também podem favorecer a queda de cabelo. A recomendação é uma abordagem integrada: dieta equilibrada com proteína suficiente, tratamento de deficiências nutricionais identificadas, manejo de condições do couro cabeludo e avaliação hormonal se houver sinais de desequilíbrio.

Embora seja facilmente encontrado em farmácias e lojas de suplementos, o colágeno não deve ser consumido indiscriminadamente. “Sim. Nada em falta é adequado e nada em excesso também. Quando se suplementa sem necessidade, cria-se uma sobrecarga, que pode ser no fígado ou no rim. Por isso, é preciso fazer exames e ter uma orientação médica adequada para suplementar. Isso é individualizado e personalizado, porque cada corpo tem uma demanda”, alerta Mariana Comério.