O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) registrou mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes no Disque Direitos Humanos entre janeiro e abril de 2026. O número representa um aumento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano anterior.
“As pessoas estão mais conscientes, por isso cresceram as denúncias. Mas estamos falhando na prevenção”, afirma a advogada especialista em políticas públicas Danièle Akamine.
Entre 2015 e 2021, meninas foram vítimas de 76,8% dos casos de violência sexual na infância denunciados. Para ambos os sexos, a faixa etária de 5 a 9 anos concentra o maior número de notificações, atingindo 53,8% das meninas e 60,1% dos meninos. Em mais de um terço dos casos, a violência foi reincidente. Os dados são do boletim epidemiológico “Notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil, 2015 a 2021”, publicado em 2023 pela Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA).
O relatório destaca que os casos são, em geral, subnotificados. Entre meninos, porém, o silêncio tende a ser ainda maior. “Quando aprendem que ‘homem não chora’ ou ‘homem sempre quer’, eles podem ter muita dificuldade de reconhecer abuso como abuso. Se não existe permissão social para sentir medo, nojo, confusão ou vergonha, muitos acabam dissociando ou silenciando”, explica a neurocientista comportamental Aida Leal.
Entre adolescentes de 10 a 19 anos, meninas representaram 92,7% dos casos notificados de violência sexual no período analisado. Relações sexuais forçadas corresponderam a 66,4% dos casos envolvendo meninas e 59,8% dos registros envolvendo meninos. Tanto na infância quanto na adolescência, a maioria das vítimas era preta ou parda; a maior parte dos agressores era composta por homens; e o estupro apareceu como a violência mais frequente.
“Vivemos em um país machista, e isso gera um mal-estar coletivo. Estávamos avançando lentamente, mas, ao meu ver, com o crescimento da ‘machosfera’ nas redes sociais, os meninos estão novamente aprendendo e naturalizando comportamentos violentos”, reforça Akamine.
Embora as meninas sejam a maioria das vítimas, a orientação dada a elas precisa ser cuidadosa. Ensiná-las a reconhecer riscos e impor limites é importante, porém, fazê-la acreditar que está sempre em perigo pode produzir medo, ansiedade e desconfiança permanentes. É nesse limite que está o alerta da psicóloga clínica Maria Stephanie Cartaxo. “Percepção, cuidado e limites são necessários e importantes. Já a ideia de que existe sempre um perigo iminente pode ativar gatilhos de desconfiança e ansiedade”, afirma.
Historicamente, as lutas foram tratadas como esportes masculinos. Segundo o Comitê Olímpico do Brasil, o boxe fazia parte dos Jogos Olímpicos da Antiguidade desde 668 a.C. A modalidade feminina só passou a integrar os Jogos Olímpicos modernos em 2012. Hoje, o incentivo à prática de esportes de combate por meninas é frequentemente atravessado pela ideia de sobrevivência. Na visão de Leal, cursos de autodefesa podem ser importantes a partir de determinada idade, mas têm limites. “Eles não devem colocar sobre a criança a responsabilidade de impedir a violência. A proteção principal é sempre dos adultos, das instituições e da sociedade”, afirma.
“Quando a luta é apresentada como esporte, ela ensina que a menina é forte e capaz. Isso é diferente de estabelecer a menina como alvo constante”, afirma Cartaxo.
Uma das orientações de segurança mais difundidas entre mulheres é: “Se alguém te agarrar, grite ‘fogo’. Se gritar ‘socorro’, as pessoas não ajudam”. Na visão das especialistas, a frase também funciona como tradução prática do que significa existir como mulher no Brasil. “Meninas são socializadas como corpos que precisam ser protegidos e controlados; meninos, como corpos que devem ser fortes, disponíveis e pouco vulneráveis. Essas ideias ajudam a organizar os papéis sociais de vítima e agressor”, afirma Leal.
Nesse sentido, a educação desempenha um papel importante na construção da autoconfiança infantil. “A alfabetização corporal e emocional precisa ser a mesma. Meninos e meninas devem aprender que qualquer pessoa pode sofrer violência, que qualquer pessoa pode ultrapassar limites, e que afeto, parentesco, autoridade ou intimidade nunca anulam consentimento”, completa a neurocientista.
Ensinar crianças a reconhecer e nomear sentimentos relacionados ao desconforto e ao medo pode ser desafiador. Por isso, Leal sugere três eixos centrais para orientar essas conversas: corpo, sinal interno e adulto seguro. Entre as dicas, ela orienta ensinar os nomes corretos das partes do corpo, mostrar que a criança pode dizer não a toques, brincadeiras e segredos desconfortáveis e reforçar que ela nunca será punida por contar algo.
