A mulher contemporânea está cansada. E talvez não seja um cansaço comum, desses que se resolvem com um fim de semana off. É um esgotamento mais profundo, produzido pela tentativa incessante de sustentar uma vida em alta performance.
É preciso ser excelente em tudo: excelente profissional, excelente mãe, excelente parceira. Bela, interessante, culta, saudável, produtiva, desejável. Fazer cursos, viajar, cuidar do corpo, manter a pele jovem, dar conta da casa, dos filhos, das relações, da carreira. Só de enumerar as demandas já surge uma sensação de exaustão.
A lógica da alta performance é a lógica da alta rotação: fazer mais, melhor, mais rápido. Como se a vida pudesse ser reduzida a metas, protocolos e planilhas. Como se existisse um manual invisível determinando o corpo correto, o cabelo correto, a maternidade correta, o erotismo correto, a carreira correta.
Por que obedecemos tanto a esses ideais? Talvez porque vivamos cercadas de espelhos — sociais, digitais, simbólicos. O tempo todo nos olhando, avaliando, comparando. Seguimos correndo de uma tarefa para outra, tentando alcançar uma imagem ideal que nunca se estabiliza.
O problema é que essa fragmentação produz uma cisão. A vida vira uma sucessão de caixinhas desconectadas: trabalho, corpo, maternidade, relacionamento, produtividade. Corre-se de um lado para outro sem conseguir integrar a experiência numa narrativa com sentido. E, aos poucos, a mulher deixa de se perguntar algo essencial: o que, de fato, me move?
Porque desejo não nasce da planilha. Desejo nasce da história. Nasce das marcas, das feridas, das experiências que nos constituíram. O propósito — essa palavra tão usada hoje em dia — não aparece apenas porque o mercado aponta tendências ou porque determinada carreira promete dinheiro e reconhecimento. Ele se conecta ao que nos atravessou profundamente.
Há algo de muito humano nisso. Muitas vezes, aquilo que criamos no mundo surge justamente da tentativa de elaborar uma dor. A arte, os projetos, os vínculos, até certas escolhas profissionais podem nascer de uma vulnerabilidade antiga. É por isso que assumir fragilidades não enfraquece. Ao contrário, pode ser o começo de uma vida mais integrada.
Talvez o verdadeiro esgotamento venha justamente da desconexão entre aquilo que fazemos e aquilo que somos. Quando a performance ocupa todo o espaço, sobra pouco contato com o próprio desejo. E então o cansaço deixa de ser apenas físico: ele se torna existencial.
Talvez a saída não esteja em performar melhor, mas em sustentar uma pergunta mais difícil: que vida faz sentido para mim? Não como imagem ideal, mas como experiência viva, ligada à própria história, às próprias feridas, ao próprio desejo. Porque uma vida com sentido não nasce da perfeição. Nasce da possibilidade de transformar fissura em criação.
