segunda-feira, abril 13

A ligação parecia comum quando foi atendida. Caroline Januário, psicóloga e sexóloga com quatro anos de experiência, atendeu pensando ser um conhecido. Em pouco tempo, percebeu que não era. Do outro lado, um homem seguia um roteiro que ela já conhecia: descrevia um sofrimento intenso e depois partia para detalhes sexuais explícitos, inadequados para uma primeira abordagem.

O homem falava sobre seus “problemas sexuais” com a voz ofegante, enquanto claramente se masturbava durante a chamada. “Esses caras ligam com um padrão muito específico. Dizem que estão numa situação difícil e precisam muito de ajuda. Tentam criar um campo de empatia para que a gente se sinta na obrigação de atendê-los”, disse Januário à Marie Claire.

Não foi a primeira vez. Logo após se formar, em 2022, ela passou por algo parecido, mas na época não identificou como assédio. “Só depois, com ajuda da minha supervisora, fui entendendo o que significava”, contou.

A terapeuta descreve um padrão reconhecido por outras colegas. O contato geralmente começa por telefone, com insistência em vídeo chamada. O tom é de sofrimento e urgência. À medida que a conversa segue, aparecem os detalhes sexuais. “Pacientes com queixas reais têm dificuldade para falar do assunto. Nos casos de assédio, essa inibição não existe”, explicou.

Com a psicanalista Andrea Calheiro, o primeiro contato chegou pelo site do consultório. Desconfiada, ela enviou o formulário de anamnese. “Ali ficou claro: conteúdo totalmente explícito, descrição de ato sexual, do próprio corpo… Não era um pedido de ajuda. É assustadora a ousadia. Bloqueei na hora”, relatou.

O problema vai além do atendimento. Andrea, que dirige um instituto de psicanálise nos Estados Unidos, teve aulas invadidas duas vezes por homens que exibiram pornografia e mencionaram abuso de crianças. “Tive que mudar toda a estrutura das aulas. Nem sempre quem procura atendimento quer ajuda. É alguém testando limites, tentando repetir violência de outra forma”, lamentou.

A psicóloga Carolina Botelho também enfrentou um episódio no início da carreira. Um homem pediu uma sessão de emergência online e, durante o atendimento, ela notou que ele se masturbava diante da câmera. Ele justificou dizendo não conseguir se controlar em público.

Carolina encerrou a sessão imediatamente. “Fui direta e disse que não haveria possibilidade de psicoterapia ali”. A sensação que ficou foi de impotência. “É horrível. A gente pensa: ‘o que eu fiz para merecer isso?'”.

A violência também ocorre fora das sessões. A psicanalista Silvana conta que, ao impulsionar um conteúdo nas redes sociais, passou a receber ligações de vídeo na madrugada e fotos de genitálias. “Aprendi a direcionar a publicação, mas não dá para ignorar esse comportamento masculino em massa”, observou.

Percebi que é muito mais amplo

A migração do atendimento para o online, normalizada na pandemia, criou condições mais favoráveis para essas abordagens, segundo as profissionais. “Esses homens entram em grupos que compartilham contatos de psicólogas. Eles têm acesso mais fácil a quem atende online”, disse Caroline.

Após publicar seu relato no Instagram, ela se surpreendeu com o volume de comentários de psicólogas de várias especialidades, além de professoras, esteticistas e outras, que viveram situações parecidas. “Achava que o assédio era maior pelo meu nicho. Depois do post, percebi que é muito mais amplo”.

Para ela, o problema é mais profundo que o comportamento individual. “É estrutural. Existe uma dinâmica de dominação. Os homens se sentem à vontade para interferir no espaço das mulheres”.

Ela afirma que a psicologia, profissão predominantemente feminina e de cuidado, oferece uma abertura que pode ser explorada de forma predatória. “Estamos abertas ao acolhimento, o que pode passar a impressão errada de disponibilidade constante para qualquer demanda. Isso pode gerar a falsa sensação de que seremos vítimas fáceis”.

No caso das sexólogas, há a sexualização da própria função. “Não tem a ver com a roupa ou a postura nas redes. Tem a ver com não ser naturalizado uma mulher falar sobre sexo”.

Respostas práticas e coletivas

Após os episódios, Caroline mudou sua forma de trabalhar. Não atende números desconhecidos e pede identificação antes de agendar. Quando percebe um padrão suspeito, encaminha para colegas homens.

No campo legal, a Delegacia da Mulher é apontada como o caminho para denúncias. Ela também defende que o CRP (Conselho Federal de Psicologia) crie mecanismos de proteção específicos.

“Pensamos muito na proteção dos pacientes. Mas quando esse espaço é invadido, precisamos de limites e de órgãos que nos protejam também. A terapia precisa ser um espaço seguro para todos, não só para os pacientes”.

A Marie Claire entrou em contato com o Conselho Federal de Psicologia do Paraná, estado onde Caroline atua, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.

O sobrenome da fonte foi ocultado.