A cantora Olivia Rodrigo, de 23 anos, vai realizar o festival Daisy Chain Fields no próximo mês, com um line-up formado apenas por mulheres. O evento está marcado para o dia 29 de agosto, na Califórnia.
O festival contará com artistas como Chappell Roan, Doechii, Mitski, The Breeders, Garbage e Bikini Kill. Também estão confirmadas as participações de Stevie Nicks, Karen O e Sarah McLachlan. O projeto é inspirado no Lilith Fair, festival itinerante dos anos 1990 criado por Sarah McLachlan. Toda a renda líquida do evento será doada para organizações que defendem os direitos de mulheres e meninas.
Segundo Olivia Rodrigo, a motivação para o festival surgiu porque “jovens precisam de referências femininas e de espaços onde mulheres apoiem umas às outras”. A ideia é apoiada por uma análise do Book More Women, compartilhada pelo Amplify Her Voice. O estudo mostra que, em 2026, a presença de mulheres em festivais de música ainda é muito menor que a de homens.
Nos Estados Unidos, os números são baixos. No Minnesota Country Club, mulheres representam apenas 6% das atrações, contra 90% de homens. No Stagecoach Music Festival, elas são 13% do line-up. No Railbird Music Festival, 14,7%. No Bonnaroo, 19,4%. Até no Coachella, um dos maiores eventos do mundo, as mulheres ocupam 26,9% da programação.
No Brasil, a realidade é parecida. Um levantamento do Sesc mostrou que, em 2024, mulheres representaram 35,6% dos atos musicais em festivais brasileiros. Quando a pesquisa considera cada integrante das bandas, a participação feminina cai para 26,7%.
Mesmo com presença feminina mais expressiva em alguns casos, o espaço nem sempre é igual. O João Rock, festival realizado desde 2002 em Ribeirão Preto, tem um palco dedicado às mulheres. Mas desagradou parte do público por não colocar nenhuma artista no palco principal da edição deste ano, marcada para 1 de agosto.
Produtoras ouvidas pela reportagem apontam dificuldades como a resistência de marcas e patrocinadores, a falta de espaço para artistas fora do circuito comercial e a percepção de que um evento só com mulheres é um risco financeiro.
Drielly Bispo, fundadora do festival nacional Arô, que tem line-up dedicado às mulheres, diz que o maior desafio é vender ingressos. “Obviamente um evento precisa gerar lucro, principalmente quando você não tem apoio de grandes patrocinadores. A maioria dos artistas escutados no Spotify Brasil são homens. Se eu for dar palco só para as mulheres, será que terei público?”, questiona. Ela afirma que o cenário é resultado de um mercado que, por anos, deu mais espaço e investimento aos homens.
As produtoras Milene Freire e Duda Pasqualin criaram a festa Ritmo Delas, também com line-up exclusivamente feminino. Para Milene, o entretenimento é a porta de entrada para um movimento político. “Criar espaços culturais pensados por e para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ é um movimento de resistência”, afirma.
A festa também busca bastidores mais inclusivos. “Na maioria dos lugares, quase toda a produção é formada por homens. É importante construir um ambiente no qual elas se sintam à vontade”, diz Duda. A última edição do Ritmo Delas reuniu artistas como Barona, Bia Soull, Duda Spice e Isa Calafatis. O projeto também promove encontros para debater temas da vida de mulheres que trabalham com arte.
