Você já olhou para um casal e sentiu algo mais, como se alguma coisa muito interessante existisse ali? Pode ser aquele casal de uma série que você acompanha, casais famosos da vida real ou até mesmo duplas formadas por pessoas próximas – tipo aqueles que você tem vontade de comentar “meu casal” ou “me adotem” nas redes sociais.
Em geral, isso pode ser só carinho ou empolgação ao ver as duas pessoas felizes juntas. Também pode significar uma projeção, quando você sente vontade de viver algo parecido. Mas, em alguns casos, um casal também pode despertar curiosidade sexual, fantasia ou desejo. Não necessariamente porque você quer “roubar” um dos dois ou participar da relação, mas porque existe algo naquela conexão que parece atraente por si só. Esse tipo de atração se chama simbiosexualidade e descreve pessoas que se atraem por casais.
O termo simbiosexualidade foi criado para definir uma orientação sexual baseada na atração sexual ou romântica por duas pessoas que estejam dentro de uma relação, ou seja, um casal. O termo foi usado pela primeira vez pela pesquisadora Sally W. Johnston em uma conferência de estudos da sexualidade em 2021 e, depois, aprofundado em seus trabalhos. A palavra simbiosexualidade vem de simbiose, termo da biologia que descreve uma relação de troca entre organismos. Não se trata de achar cada uma das pessoas atraente separadamente: aqui a atração tem a ver com quem eles são como um casal.
Em um estudo publicado em 2024 na Archives of Sexual Behavior, Johnston descreve a simbiosexualidade como uma atração pela “energia, multidimensionalidade e poder” compartilhados entre pessoas que estão em uma relação. O que desperta o interesse é o casal como dinâmica: a química, a cumplicidade, a intimidade, a tensão sexual e a forma como aquelas pessoas se conectam. Para investigar essa experiência, a pesquisadora analisou as respostas de 373 participantes: 38,9% relataram já ter sentido atração por casais. Entre eles, 70% disseram que tiveram experiências sexuais com casais, enquanto 59,4% já viveram experiências românticas ou de namoro com pessoas dentro de uma relação.
Segundo a sexóloga Michelle Sampaio, integrante da Diretoria Executiva da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), a atração está ligada ao que a relação comunica para quem observa de fora. “É quase como se a pessoa dissesse: ‘eu me atraí pela reação que aquelas pessoas têm'”, aponta. Ainda assim, sentir atração por um casal não significa, automaticamente, querer transar com os dois ou formar um trisal. Em alguns casos, a atração pode estar ligada à fantasia de vivenciar aquela dinâmica. Em outros, pode revelar uma identificação com o tipo de conexão que aquelas pessoas construíram.
Sampaio reforça que fantasia, desejo e comportamento são coisas diferentes e que nem sempre coexistem. “São três coisas que não se sobrepõem e têm significados diferentes. Às vezes, a fantasia é mais prazerosa enquanto está na imaginação”, diz. Para entender se você realmente se sente atraída pelo casal ou só tem o desejo de viver algo parecido, a especialista sugere uma reflexão prática: “Se aquelas pessoas deixassem de estar juntas, o interesse continuaria? Se o casal terminar e isso romper o interesse, é muito provável que a pessoa esteja atraída pela dinâmica e não pelos indivíduos”, explica.
A principal diferença é que enquanto a simbiosexualidade fala sobre uma forma de atração, o poliamor e a não-monogamia são formatos de relação. Já o voyeurismo e o ménage estão mais ligados à práticas sexuais e entram na lista de fetiches. A não-monogamia consensual é um termo amplo usado para relações em que todas as pessoas envolvidas sabem e concordam que podem existir vínculos sexuais e afetivos com outras pessoas. O poliamor faz parte desse contexto e envolve a possibilidade de um relacionamento com mais de duas pessoas ou vários relacionamentos ao mesmo tempo com o conhecimento de todos os envolvidos.
Na simbiosexualidade, o ponto central não é necessariamente ter uma relação com mais de uma pessoa, mas sentir atração pela energia afetiva ou sexual de um casal. Por isso, uma pessoa pode ser simbiosexual e também poliamorosa e não-monogamica, mas uma coisa não depende da outra. O mesmo vale para o ménage e para o voyeurismo. “Ter vontade de ter uma experiência sexual a três, ou sentir prazer em observar duas ou mais pessoas transando, não significa ter uma atração pelo vínculo do casal”, afirma Sampaio. Quando a atração deixa de estar no campo da fantasia e passa a envolver a relação com pessoas reais, a palavra-chave para tudo funcionar é a comunicação. “O principal é entender quais os limites e desejos do casal e dessa terceira pessoa. São três pessoas envolvidas, e desejos, consentimento e limites precisam ser muito bem conversados”, completa Sampaio.
