A jornalista Hysa Conrado convive há nove anos com dores que não passam. Ela relata que não bebe uma cerveja com amigos há dois anos porque o álcool provoca dor. Evita locais abertos, pois vento e frio intensificam o desconforto. Atividades simples como varrer a casa se tornaram impossíveis. Dormir cinco horas seguidas é algo raro. Os braços queimam ao segurar o celular e ficar 10 minutos em uma fila pode comprometer a semana inteira.
Após realizar diversos exames que não apontavam nenhuma lesão e não obter resultado com analgésicos potentes, Hysa recebeu o diagnóstico de fibromialgia. A condição é definida como dor crônica generalizada, sem cura, causada por uma desregulação do sistema nervoso que amplifica os estímulos de dor. O problema não aparece em exames de imagem, como ultrassonografia, ressonância magnética e radiografia, que a jornalista realizou por diversas vezes.
Dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) indicam que de cada 10 pacientes com fibromialgia, de sete a nove são mulheres. A doença é mais comum na faixa dos 30 aos 60 anos, mas também atinge pessoas mais velhas, crianças e adolescentes. A ciência ainda não sabe explicar a razão dessa diferença entre gêneros, mas especialistas apontam possíveis causas.
A neurologista Estela Cecília Ferreira afirma que as microviolências do cotidiano feminino contribuem para a desregulação nervosa. Segundo ela, o acúmulo de situações estressantes muda o perfil cerebral e a forma como o cérebro percebe os estímulos, gerando hipersensibilidade. A médica destaca que mulheres negras, por sofrerem mais impactos das desigualdades sociais, podem viver em estado de hipervigilância, o que agrava o quadro.
O médico Arthur Ruzzon, especialista em medicina da dor, concorda que fatores externos funcionam como gatilhos para as crises. Ele também explica que hormônios como estrogênio, progesterona e prolactina modulam a percepção da dor, o que pode relacionar as variações hormonais do ciclo feminino aos períodos de piora dos sintomas.
Homens também podem ter fibromialgia, embora com menor frequência. Estudos indicam que pode haver subnotificação dos casos masculinos, pois eles são ensinados a suportar a dor e demoram mais para buscar ajuda. Na prática clínica, Ruzzon observa que mulheres tendem a sentir dor generalizada, enquanto homens relatam dores em locais específicos, de forma mais concentrada.
Hysa conta que demorou a aceitar o diagnóstico, pois sabia que a fibromialgia não tem cura. A situação chegou ao limite quando um movimento simples, como pegar um balde, provocou uma dor na lombar que durou dois meses. Após ouvir do ortopedista que o analgésico não resolveria o problema, ela buscou um especialista.
Atualmente, a jornalista toma três tipos de medicamentos, divididos em cinco doses diárias, e faz suplementação de nutrientes. Ela pratica atividades físicas seis vezes por semana, incluindo pilates, ioga, musculação e caminhadas leves. A rigidez muscular ao acordar é intensa, mas o movimento ajuda a reduzir o cansaço. Além do tratamento médico, Hysa faz terapia e tenta ter paciência nos dias de crise.
