Tainá Supe não acreditou quando sua mãe, Fabiana, decidiu vender tudo o que tinha para se mudar de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, para a Itália. Sem nenhuma oportunidade de trabalho garantida, ela foi a primeira de sua geração a acreditar que, indo para o exterior, poderia proporcionar um estilo de vida melhor para os filhos.
“Minha mãe é mãe solo, criava eu e meus dois irmãos. Morávamos em um bairro normal na minha cidade, não éramos ricos. Para nós, fazer intercâmbio era uma outra realidade. Mas, do nada, ela decidiu ir embora. Meus irmãos foram morar com o meu pai, porque eram menores de idade e eu, como já tinha 21, fui morar sozinha”, relembra, em entrevista a Marie Claire.
Na Itália, a mãe se virava como podia. Começou trabalhando como recepcionista em um escritório, ganhando o salário mínimo local, o que foi permitindo que ela enviasse dinheiro para os filhos. Aos poucos, a situação foi melhorando. “Me senti abandonada quando ela foi, fiquei muito mal. Mas a escolha dela mudou vidas de gerações. Não somente a minha, mas agora, quando eu tiver filhos, eles terão acesso a coisas que eu nunca tive”, afirma.
A jornada de Tainá
Enquanto isso, no Brasil, Tainá começou a cursar Arquitetura e se mudou para Belo Horizonte, em Minas Gerais, onde também trabalhava. Nesse tempo, sua mãe se casou com um italiano e teve uma nova filha, Alice. Foi quando a estudante decidiu juntar dinheiro para visitar a família, o que só aconteceu em 2019. Foi sua primeira experiência internacional sozinha.
Além de visitar o país onde sua mãe mora e a nova integrante da família, aproveitou a viagem para conhecer Paris, na França. Passou um dia inteiro lá e entendeu que, a partir dali, algo havia mudado radicalmente. “Foi como se tivesse aberto um portal para mim e eu nunca mais voltaria a ser a mesma”, conta. “Conheci um mundo que nunca tinha tido acesso, com facilidade para viajar, poder de compra até para as classes mais baixas… chorei na viagem, porque só via aquilo em filmes.”
Após a pandemia, ela decidiu que queria se mudar. “Fiquei pesquisando muitos lugares que poderia ir. Entrei em contato com uma agência de intercâmbio e contei que queria ir para Londres, na Inglaterra. Mas, não havia programas para lá. Então, me ofereceram a Irlanda. Não conhecia nada, mas era um dos únicos países que ainda estava com as fronteiras abertas durante a pandemia”, relembra.
Após a decisão ser tomada e com as passagens compradas, um susto: a três dias do embarque, o governo irlandês fechou as fronteiras. Ela ficou meses acreditando que seu sonho tinha acabado. Só três meses depois, surgiu uma nova oportunidade. A agência lhe deu um ultimato: era agora ou nunca. “Vim no susto e sem conhecer ninguém. A agência [que contratei] era muito grande e não me deu muito suporte na época, me senti um pouco largada. Não conseguia arranjar emprego, não sabia falar a língua e meu curso, que seria presencial, foi online. Minha mãe me alertou que não tinha tanto dinheiro para ajudar a mim e aos meus irmãos, então eu precisava achar uma forma de me bancar.”
Assim como já havia acontecido com sua mãe no passado, ela foi para a labuta. Conquistou trabalhos como faxineira e camareira de um hotel. Evoluiu rápido no inglês e garantiu a renovação do visto para se manter no país. Ainda na pandemia, começou a produzir conteúdo para as redes sociais, mostrando sua rotina no intercâmbio. Deu certo: ela começou a monetizar sua experiência e começou a dar consultoria para quem também queria deixar o Brasil.
O sonho de uma agência própria
Em 2024, um novo passo. Durante uma viagem a Paris para as Olimpíadas, ela decidiu fundar uma agência de intercâmbio própria. Convidou duas amigas para ajudá-la e abriu o novo empreendimento no mesmo ano. Desde o início, a agora empresária sabia que precisava ter cuidado com cada detalhe. “É preciso ter confiança em uma agência de intercâmbio, porque tem muito dinheiro envolvido. Sua reputação vale mais do que seus números ou quantidade de seguidores. Como a marca era de uma influenciadora e tinha acabado de ser lançada, ninguém confiava”, diz ela, que relata ter enfrentado grandes dificuldades financeiras nos primeiros meses. “Sofri muito, porque ninguém queria fechar com a gente.”
Em maio do ano passado, suas sócias escolheram desistir. Não estava entrando dinheiro algum. Mas, como não tinha funcionários e o preço de manter a agência aberta não era alto, Tainá decidiu seguir sozinha. “Não tinha nada a perder”, avalia. Ao longo desse período, seus irmãos brasileiros também conseguiram realizar intercâmbios para a Irlanda e, de lá, foram construindo carreira na Europa. Hoje, Daniel continua morando no país e Cíntia vive em Malta, também na Europa.
Refletindo sobre o que ela e sua família conseguiram ao superarem as expectativas comumente associadas àqueles que vêm de uma origem humilde, ela publicou um vídeo, nas suas redes sociais, compartilhando a história de sua “Família Preta Milionária”. Em pouco tempo, o conteúdo viralizou, atraindo muitos clientes. “Em uma semana, a agência subiu de mil seguidores para 10 mil. Depois, 20, 30 mil, e seguiu crescendo”, celebra. “A gente não tinha nada e, em um dia, tinha 300 pessoas no nosso WhatsApp.”
Ao repostar o conteúdo novamente, mais um boom. Celebridades como o cantor Péricles chegaram a compartilhar o vídeo, atraindo um número maior de clientes para a empresa. “Muita gente que fecha conosco é levada por conta da minha história. A maioria dos clientes são pessoas negras, que dizem confiar em mim sem me conhecer, mas querem que elas e suas famílias possam tentar algo parecido com o que fizemos”, revela. “É uma responsabilidade enorme.”
Ela se emociona ao contar as histórias de meninas negras que a procuram para sair do país pela primeira vez. Ela entende que a questão racial ocupa lugar de protagonismo no negócio. “Muita gente fechou conosco falando que não acreditava que era possível e que intercâmbio não fazia parte de suas realidades, porque não tem pessoas negras nesse mercado. Você abre os perfis das agências nas redes sociais e só tem gente branca – e rica. Quando abre o da minha empresa, só tem gente preta.”
Com o intuito de ajudar a tornar a experiência do intercâmbio um pouco mais acessível, Tainá permite um grande número de parcelamentos em sua agência e oferece um acompanhamento individualizado para cada processo. “As pessoas que fecham com a gente são pessoas normais, não são pessoas ricas. São pessoas que parcelam, que nem sabem como tirar o passaporte e que estão vivendo isso pela primeira vez”, relata.
“A gente tem que acabar com essa mentalidade de que esse lugar não é pra gente. Sempre me perguntam se sofri racismo quando viajei para outros destinos, como Canadá e Malta, porque existe essa crença de que a gente não deveria estar ali e que, se estivermos ali, vamos sofrer. Mas na realidade não aconteceu nada comigo. E quando você vê uma pessoa vivendo isso e sendo feliz, você consegue olhar para além da sua realidade. Existe uma luz no fim do túnel.”
Por um lado, Tainá diz que sente saudades da comida brasileira, do calor humano, dos parentes e amigos e adoraria a possibilidade de voltar para casa. Por outro, entende que morar no exterior lhe garante mais qualidade de vida. “Acho nossa história improvável, porque nunca tive a oportunidade de sonhar com isso. Os sonhos que tinha eram de trabalhar como CLT e ter uma vida comum, não tinha espaço para ambições grandiosas. O sentimento que tenho é que estou vivendo e sonhando. E hoje, sou muito feliz pela minha mãe ter tomado essa decisão que, na época, eu não conseguia entender. Acredito que encontrei o meu propósito: segurar na mão daqueles que precisam e mostrar que há possibilidades deles mudarem de vida.”
