A pesquisadora Talita Motta, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), virou alvo de críticas nas redes sociais após criar uma vaquinha on-line para custear despesas de um doutorado sanduíche na Austrália. A meta de R$ 8 mil foi atingida depois da repercussão do caso.
Mesmo com o apoio de instituições australianas, Talita afirma que não conseguiria arcar com todos os custos da viagem. Somente a taxa do visto de permanência no país já ultrapassava seu orçamento. A pesquisadora, que recebia cerca de R$ 3,5 mil mensais da Fapesc, terá a bolsa suspensa durante o período no exterior. Agora, ela contará com o auxílio da Capes, que paga pouco mais de R$ 3 mil para doutorandos.
Em entrevista à Marie Claire, Talita rebateu as críticas recebidas. “Meu doutorado foi resumido a um intercâmbio, por isso 90% das críticas vieram de pessoas que não sabiam sobre a pesquisa e que depois até voltaram atrás”, disse.
A bióloga explica que a realidade de muitos cientistas no Brasil é marcada pela falta de recursos e pela necessidade de abrir mão de trabalhos extras para se dedicar às pesquisas. “Hoje, a Capes autoriza que os alunos acumulem outro tipo de renda. Mas, cada programa de pós-graduação tem sua própria resolução. No meu, por exemplo, eles deixam você trabalhar, mas as bolsas são preferencialmente oferecidas a quem não tem outra renda”, afirmou.
Talita também atribui as críticas a um “efeito manada” digital. “Houve também quem me mandasse trabalhar, sendo que o tempo de trabalho na pesquisa é algo do que não posso abrir mão para não perder minha bolsa”, completou.
Pesquisa e trajetória
O doutorado sanduíche tem esse nome porque a pesquisadora irá integrar uma pesquisa já existente. O objetivo do estudo é analisar a importância de grupos tróficos de peixes para o ecossistema, com uso de câmeras em recifes de corais entre a costa leste da África e o oeste da Austrália. “Isso é importante para compreender como o recife está estruturado em cada lugar do planeta e qual a importância da função de cada peixe naquele ecossistema. Com isso, é possível definir medidas de conservação”, explicou. A atuação deve começar entre setembro e outubro.
A trajetória de Talita na ciência começou na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Em 2013, ela participou do programa Ciências Sem Fronteiras e estudou na James Cook University, na Austrália. Apesar da oportunidade, a pesquisadora afirma que o conhecimento adquirido não foi aproveitado no Brasil. “No meu caso, nada foi aproveitado infelizmente. Ao contrário, minha vida acadêmica foi dificultada porque tive que pegar disciplinas que eu perdi e remanejar meu horário”, contou.
Em 2017, Talita ganhou uma bolsa de mestrado da Capes para estudar na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde pesquisou hidrocorais e os impactos da “pesca-fantasma”. Durante esse período, ela presenciou os cortes de verba para a ciência nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. “Não queria fazer doutorado no Brasil sem nenhum centavo de apoio, porque é extremamente difícil: você não faz o que é melhor, você faz o que dá”, desabafou.
Fuga de cérebros e custos no Brasil
Para Talita, a falta de apoio à pesquisa faz com que muitos profissionais deixem o país, um movimento conhecido como “fuga de cérebros”. “É super compreensível que os pesquisadores que querem seguir essa carreira, além do financiamento das próprias pesquisas, queiram ter uma segurança de vida com carga horária, férias e direitos trabalhistas. Porém, isso colabora com a perda de patentes e de descobertas importantíssimas para o nosso país”, avaliou.
Ainda que a vaquinha tenha atingido a meta, a pesquisadora afirma que os custos financeiros no Brasil continuam. Casada, ela divide as despesas com o marido e planeja vender camisetas estampadas para complementar a renda. “Precisamos apertar as contas e começamos a fazer camisetas estampadas, que vamos vender para ajudar com os custos do aluguel por um período”, disse.
Talita admite que a preocupação com a instabilidade no Brasil supera a ansiedade para o início do doutorado. “Estou mais segura e feliz de que meu doutorado vai acontecer, porque quando abri a vaquinha não pensei que daria certo. Em vez de me deslumbrar com o que vai ser na Austrália, estou mais preocupada com a burocracia e com os custos da vida e ainda estou bem amarrada com essa questão dos custos financeiros que vão permanecer aqui no Brasil”, concluiu.
