Viajar sozinha é um dos movimentos mais expressivos do turismo atual. Segundo levantamento divulgado neste ano pelo Ministério do Turismo, 4 em cada 10 brasileiras já embarcaram em uma experiência solo. Mas, para muitas mulheres, transformar esse desejo em uma viagem concreta ainda envolve uma série de inseguranças — especialmente quando o roteiro passa por destinos mais distantes, como Tunísia, Butão, Antártica, Tanzânia, Nepal ou Vietnã.
Por mais fascinantes que sejam, esses lugares costumam exigir planejamento cuidadoso, atenção a burocracias, adaptação a diferenças culturais e, sobretudo, uma avaliação constante sobre segurança. Foi a partir da tensão entre a vontade de explorar o mundo e o receio de fazer isso completamente sozinha que nasceu a Fuga Experiências, plataforma criada para mulheres que querem viajar “sozinhas, mas em grupo”.
Criada em 2018 pela jornalista Amanda Noventa e pela agente de turismo Micheli Rogalski, a Fuga nasceu de uma demanda que Amanda já observava de perto. Acostumada a viajar a trabalho, a jornalista construiu, ao longo de sua trajetória profissional, uma comunidade online formada por mulheres com interesses semelhantes. Muitas acompanhavam seus roteiros e tinham vontade de viver experiências parecidas, mas ainda esbarravam em inseguranças na hora de planejar uma viagem por conta própria. Desde então, mais de 3.000 mulheres já viajaram com a plataforma – muitas mais de uma vez.
Os destinos são escolhidos pelas sócias e divulgados nas redes sociais da agência. A partir daí, as interessadas podem se inscrever individualmente e de forma remota. Na maioria dos roteiros, os grupos são formados por 16 mulheres, acompanhadas por uma tour leader brasileira. Em 2026, os destinos mais procurados têm sido Egito, Tailândia e Peru.
Os pacotes incluem hospedagem, guias turísticos, passeios previstos no roteiro e traslados entre aeroporto e hotel. Antes do embarque, as viajantes participam de uma reunião online pré-viagem, na qual recebem orientações e informações importantes sobre o destino. As integrantes também participam de um grupo exclusivo de WhatsApp, criado para cada roteiro, onde podem trocar informações, tirar dúvidas e receber todo o suporte necessário antes e durante a viagem.
O pacote mais acessível é para Alter do Chão, no Pará, com cinco dias de duração e valor de R$ 5.980. Já o de maior valor é para a Islândia, com oito dias de viagem e custo de R$ 25.900. Todas as experiências podem ser parceladas em até 12 vezes sem juros no cartão. A operação da Fuga também vem crescendo. Em 2025, foram realizados cerca de 40 grupos. Em 2026, a previsão é chegar a quase 50. Para 2027, estão previstos mais de 80 grupos de viagem.
Levando em consideração o propósito da plataforma e as questões de segurança, apenas mulheres com mais de 21 anos podem participar. Os roteiros são conduzidos pela equipe e por parceiros locais. Amanda explica que a definição da programação considera o perfil do público e busca criar experiências alinhadas aos interesses e expectativas das viajantes. Para equilibrar a liberdade individual com a dinâmica em grupo, a programação sempre deixa um dia livre. “O que a gente sempre diz é que não dá para você viajar sozinha estando em grupo”, diz Amanda.
“A gente entende que o mapa-múndi é diferente para homens e mulheres”, observa Amanda. O dado ajuda a explicar essa percepção: segundo pesquisa do Ministério do Turismo, 62% das mulheres entrevistadas já deixaram de viajar sozinhas por questões de segurança. Por isso, alguns destinos exigem um planejamento ainda mais cuidadoso. Na Fuga, os principais desafios operacionais em roteiros para lugares como Butão, Jordânia ou Antártica costumam estar ligados a fatores externos, como conflitos geopolíticos, condições climáticas ou pandemias.
Em alguns destinos, como o Egito, a agência contrata um segurança para acompanhar o grupo durante a viagem, além do guia local. A equipe também avalia previamente possíveis situações de risco e orienta as participantes sobre os cuidados mais adequados, inclusive nos momentos de tempo livre. “Eu acho que o maior desafio é o fato de você ter 16 mulheres sob sua responsabilidade. Claro que elas são responsáveis por si mesmas, mas temos que garantir que todos os nossos serviços sejam entregues”, indica Amanda. Entre todos os destinos oferecidos, Amanda recomenda começar pela Tanzânia.
