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Playlist de sexo funciona? Especialistas e relatos provam que sim

Reprodução/Unsplash

Para criar um clima propício para o sexo, há quem invista em lingeries fora do convencional, velas perfumadas, luz baixa e um perfume sedutor. Mas há também quem considere outro elemento indispensável nesse ritual: a música. Para essas pessoas, uma playlist cuidadosamente escolhida pode trazer mais confiança e dar um up na excitação.

É o que pensa Nathália Ramiro, funcionária pública de 28 anos, que criou a sua primeira playlist de sexo durante um antigo relacionamento. “Era uma boa forma de ajudar a construir aquele ambiente de intimidade e termos um momento só nosso”, conta. A seleção de músicas sobreviveu ao término, ganhou novas adições ao longo dos anos e continua sendo sua trilha sonora dos momentos hot. “Se a música tem aquela vibe ‘striptease’, automaticamente já entra na playlist. Tem que ter uma energia de sedução, que te faz ficar com vontade de beijar na boca, sentir pele na pele”, explica.

Já para a atriz Gabriella, de 33 anos, a música tem um papel mais focado na construção do seu próprio prazer do que para compartilhar com a parceria. “Gosto de pensar a playlist com músicas que me preparem para o sexo. Quando estou com vontade de transar com alguém e ainda não rolou, gosto de ouvir uma playlist sexy e ficar pensando no momento”, afirma. Para ela, o ritual se estende ao longo do dia do encontro e, se possível, até durante o date, mas tem critérios rígidos. “Não ouço minha playlist sexy com qualquer pessoa. Tenho que ter um nível de intimidade grande para dividir meu gosto musical com ela”, pontua.

Mais do que criar um clima, Nathália diz que a playlist também muda a forma com que ela se entrega ao momento. “Dependendo da música, ela pode trazer aquele ar de confiança e despertar o meu lado protagonista, fazendo eu aproveitar mais a transa”, conta ela, que diz sentir um pico de adrenalina e poder quando toca o refrão de I See Red, de Everybody Love an Outlaw. Embora usem as playlists de sexo de formas diferentes, ambas enxergam a música como uma ferramenta para aprimorar a experiência sexual e até antecipar o desejo.

Segundo a sexóloga Mari Williams, a libido é multifatorial, o que indica que vários fatores precisam se alinhar para que ela esteja alta — como estar feliz em um relacionamento, no trabalho, com o corpo e com o descanso em dia. “A música é uma ferramenta para a gente se sentir melhor, se sentir acolhida, entre outras coisas. Por que não levar para a cama?”, questiona. A especialista reforça que a música não deve ser entendida como um gatilho direto milagroso de desejo, mas como um dos fatores que pode favorecer a excitação. “Colocar uma playlist sexy até antes de começar o sexo já ajuda a ir despertando um desejo para que quando o sexo comece, ele não precise vir do nada.”

A resposta para o fenômeno que faz o corpo responder tão bem ao estímulo sonoro está na neurociência. Um estudo publicado na revista Nature Neuroscience e conduzido pelo The Neuro e pelo Centro de Pesquisa Interdisciplinar em Música, Mídia e Tecnologia (CIRMMT) revelou que ouvir uma música considerada prazerosa libera dopamina, o neurotransmissor ligado ao sistema de recompensa do cérebro e associado ao prazer da comida, drogas e sexo. Os pesquisadores ainda observaram que essa liberação de dopamina começa antes mesmo do ápice da música ou durante a expectativa pelo início da canção, o que mostra que o cérebro responde não apenas ao prazer em si, mas também à antecipação dele.

Segundo o estudo, os arrepios causados pela música — conhecidos como “frisson musical” — estavam associados a uma maior liberação de dopamina e a alterações fisiológicas, como mudanças na frequência cardíaca, respiração e temperatura corporal. Quanto mais prazer os participantes do estudo sentiram ao ouvir a música, maior foi a atividade do sistema de recompensa do cérebro. Pense na música como quem prepara o palco antes do espetáculo começar. Ela não cria o desejo sexual sozinha, mas deixa o cérebro mais envolvido com a experiência, desperta emoções e aumenta a expectativa pelo que está por vir. Colocar uma playlist de sexo é como dar play em uma trilha sonora de um filme: basta ouvir os primeiros acordes para perceber se vem uma perseguição, um susto ou um beijo quente. O cérebro usa essas pistas para antecipar as emoções. Na vida real, a playlist de sexo pode fazer algo parecido e sinalizar que aquele é um momento de relaxar, se conectar e se entregar ao prazer.

Falando em filmes, é de lá que a maioria das pessoas tira a conexão com as músicas mais safadinhas. Não à toa, a estética sensual do cinema e da cultura pop moldou o gosto de uma geração. Para a gestora cultural Nath, de 30 anos, o gatilho para criar a sua primeira playlist de sexo veio em 2017, depois de assistir ao filme Cinquenta Tons de Cinza. “Percebo que meu corpo fica mais desinibido e a vergonha some. Me pego pensando em fazer coisas que normalmente eu não faria”, conta Nath, que aposta em músicas fortes e marcantes como Play with Fire, de Sam Tinnesz, e Watch me Burn, de Michele Morrone. A estudante Luísa, de 22 anos, também cita a trilha sonora da franquia como uma das suas favoritas para esses momentos. Para ela, a versão de Crazy in Love, de Beyoncé, gravada especialmente para o filme, desperta uma sensação de autoconfiança. “Eu me sinto linda, desejada, uma deusa. Parece que a música me ajuda a acessar esse lado mais sensual”.

Segundo Williams, essa associação faz bastante sentido. Para a sexóloga, muitas músicas carregam uma “energia de sexo” não porque tenham um efeito afrodisíaco, mas porque foram culturalmente apresentadas dessa forma. “A trilha de Cinquenta Tons de Cinza, por exemplo, entrou para as playlists de muita gente justamente porque o cérebro passou a relacionar aquelas canções com imagens de desejo e erotismo”. É por isso que, para muitas pessoas, montar uma playlist acaba sendo um processo bastante pessoal. “Tem músicas em inglês que nem têm uma letra sexy, mas o instrumental é tão envolvente que acabam entrando na lista”, aponta Gabriella. Na sua playlist, ela destaca músicas do álbum Coisas Naturais da brasileira Marina Sena, como Lua Cheia e Desmistificar.

Essa percepção aparece também na vivência de Luísa. Embora goste de prestar atenção nas letras, ela admite que, quando o assunto é playlist de sexo, a melodia costuma falar mais alto. “Tem um tipo de batida, de voz e de ritmo que desperta esse mistério, esse desejo.” Batidas mais marcadas e ritmos contínuos tendem a fazer o corpo acompanhar o compasso quase sem perceber. Na neurociência, esse fenômeno é conhecido como entrainment, o mesmo mecanismo que faz alguém bater o pé durante a música, balançar a cabeça no ritmo ou sentir vontade de dançar. No sexo, esse efeito pode contribuir para que o casal encontre um ritmo comum, deixe os movimentos mais fluidos e a experiência mais imersiva.

O efeito da música não acaba junto com o último acorde. Assim como a nossa memória muscular e olfativa pode nos transportar para uma lembrança vívida, a música também é capaz de resgatar emoções do passado. É exatamente isso que acontece com Luísa. De vez em quando, uma música da sua playlist aparece no modo aleatório enquanto ela está trabalhando, ou fazendo qualquer outra atividade do dia. “É muito curioso como o meu cérebro viaja. Parece que meu corpo é transportado para aquele momento em que vivi uma experiência de prazer. A música desperta essa memória corporal”, relata. Segundo Williams, a memória sexual também funciona por associação. Quando uma música acompanha uma experiência prazerosa, o cérebro cria uma conexão entre aquele som e as emoções vividas naquele momento. “Uma música pode se tornar sexual para você porque esteve presente em uma experiência marcante, mesmo que não tenha nada de sensual para outra pessoa. Quando ela toca novamente, o cérebro facilita esse caminho para o prazer”, explica Williams.

Se para muitos a música funciona quase como um terceiro integrante na cama, para outros, o estímulo pode ter o efeito inverso. Segundo Williams, isso se deve à capacidade individual de divisão de atenção. “Algumas pessoas gostam de prestar atenção na música e deixam ela em primeiro plano, isso acaba desviando o foco do que está acontecendo ali na cama”, explica. “Já outras pessoas conseguem estar numa atividade enquanto a música fica como plano de fundo.” Quando a curadoria falha ou o aleatório toma rumos duvidosos, o banho de água fria pode ser certeiro. Gabriella lembra, aos risos, de uma situação desconfortável: “Estava fazendo um boquete em um cara e ele tinha colocado uns traps estranhos. Numa hora a letra fez uma analogia à varinha do Harry Potter e falou em ‘Avada Kedavra’. Tive que ter muito autocontrole para não rir na hora”. Nath diz que o maior perigo é o aleatório do aplicativo tocar algo muito óbvio. “Se tocasse Careless Whisper [de George Michael] do nada na hora H eu ia morrer de rir”. Para evitar esses riscos, criar suas próprias playlists personalizadas parece ser o melhor caminho. A funcionária pública Bárbara Leão, de 50 anos, que criou a sua há cinco anos, afirma que é criteriosa. “De jeito nenhum que qualquer playlist pronta funcionaria. Para mim, tem que ser algo bem pessoal, que envolva letra, batida e melodia”, diz Bárbara, que considera que a parceira, e não a música isolada, seja a verdadeira dona do clima. No fim das contas, talvez esse seja o maior segredo das playlists de sexo: elas não funcionam como uma fórmula universal. Para algumas pessoas ajudam a construir um ritual, despertam memórias e aumentam a sensação de confiança. Para outras são só um detalhe ou até motivo de risada. O importante é que a trilha sonora não faça ninguém sair do personagem.