sexta-feira, fevereiro 27

Durante décadas, a Índia enfrentou uma contradição implacável. Existiam meios cientificamente comprovados para prevenir o câncer cervical, entretanto, as mortes por essa condição continuavam ocorrendo. Agora, com o Projeto de Orçamento da União 2026-27 prometendo um lançamento nacional da vacina contra o papilomavírus humano (HPV) para meninas adolescentes, a Índia sinaliza que prevenir o câncer cervical tornou-se uma prioridade política.

Prapti Sharma, especialista em pesquisa associada, do centro de garantia universal de saúde (CUHA), Indian school of public policy (ISPP), afirma que, após anos de deliberação, endosso técnico e projetos pilotos incrementais, a prevenção evoluiu de um consenso consultivo para uma intenção executiva. Está previsto que o governo da União lançará uma campanha nacional especial de vacinação contra o HPV ainda este mês para meninas de 14 anos com o objetivo de combater o câncer cervical.

O câncer cervical é uma doença de crescimento lento, detectável e, em grande parte, prevenível. O problema nunca foi falta de conhecimento biomédico, mas sim uma falta de execução oportuna. O fracasso em prevenir a doença de forma eficaz resultou em quase 80.000 mortes de mulheres por ano.

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs uma estratégia precisa para tratar essa questão: vacinar 90% das meninas contra o HPV, rastrear 70% das mulheres com testes de alto desempenho e tratar 90% daquelas identificadas com a doença. A meta era reduzir a incidência de câncer cervical para menos de quatro casos por 100.000 mulheres. A Índia apoiou essa ambição. No entanto, o apoio não significa institucionalização. O progresso permaneceu fragmentado.

A vacinação, considerada a intervenção mais poderosa, não foi uniformemente integrada à arquitetura de imunização de rotina da Índia. O acesso à prevenção, portanto, dependia da geografia, vontade administrativa e iniciativas por fases. Com o anúncio de 2026, espera-se que essa situação mude.

A implantação proposta usará a vacina quadrivalente contra o HPV, que protege contra os tipos de HPV 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer cervical em todo o mundo, bem como os tipos 6 e 11, que causam verrugas genitais. Ao mirar meninas adolescentes antes da exposição viral, a intervenção interrompe a infecção em seu estágio mais precoce, prevenindo a transformação celular que precede a mortalidade por câncer.

A estratégia não é apenas para reduzir a incidência, mas evitar que a doença crie raízes. Proteger famílias antes que a doença force a negociação com a mortalidade. Em termos de saúde pública, poucas intervenções oferecem uma eficácia de custo comparável. No entanto, a eliminação só é possível com a arquitetura, não com anúncios.

Se a vacinação contra o HPV for institucionalizada dentro do programa de imunização universal da Índia (UIP) com financiamento garantido, continuidade do fornecimento, monitoramento transparente e fortalecimento paralelo das vias de triagem e tratamento, o país poderia comprimir décadas de mortalidade projetada em uma mudança geracional. Se, no entanto, a implantação permanecer episódica e a campanha operar sem continuidade, a curva epidemiológica dobrará lentamente, se dobrar.

A OMS mostrou que a eliminação é matematicamente viável. Diversos países estão se aproximando do limite de eliminação definido. A Índia possui a capacidade científica, a base de fabricação doméstica e a experiência programática para se juntar a eles. Agora, é necessária coerência e consistência.

A oportunidade de prevenção agora está ao alcance. E a vacina dá um significado mais amplo, indicando que a prevenção precede a crise, que a saúde das mulheres justifica investimentos antecipatórios e que a eliminação não é uma aspiração distante, mas uma responsabilidade nacional mensurável. A ciência já foi elucidada. A vontade política finalmente se moveu.

A decisão pela eliminação não é uma metáfora. É uma escolha, e a história registrará qual escolha foi feita.