A certeza de que morreria virgem parecia uma escolha própria para Paula até os 21 anos. Foi na terapia que ela descobriu que a aparente decisão pessoal era, na verdade, um reflexo do seu medo de reviver o abuso sexual que sofreu na infância. Por ter sido vítima ainda criança, a paulistana afirma que cresceu sem confiar em ninguém. O trauma gerou dificuldades de se abrir emocionalmente e bloqueios na sua vida depois de adulta.
“Sempre achei que meu corpo era feio, cheio de defeitos. Tinha vergonha de coisas básicas que, depois de anos, descobri que eram normais, como o corrimento pré-menstrual”, conta em entrevista à Marie Claire. Seu processo de reconexão com o próprio corpo e com a sexualidade aconteceu gradualmente, com o auxílio da terapia e de uma rede de apoio próxima.
“Eu fiz uma sessão de hipnose com regressão que me ajudou muito a entender, a me acolher e a me desculpar por achar que eu era a culpada”, lembra. “Quando entendi que podia me permitir viver algo sem lembrar daquilo, fui de cabeça. Sem pensar.” Hoje, aos 30 anos, Paula diz não sentir mais vergonha de falar sobre sexo ou seus desejos. “Entendi que o abuso não me define e que o prazer faz parte da minha saúde.”
Recentemente, a série Off Campus trouxe a discussão à tona na história da protagonista Hannah Wells. Na primeira temporada, a personagem interpretada por Ella Bright enfrenta as consequências emocionais e sexuais de um estupro sofrido durante a adolescência. Na trama, Hannah consegue sentir prazer sozinha, mas encontra obstáculos quando tenta dividir essa experiência com outra pessoa por se sentir insegura consigo mesma.
Aos 26 anos, Gabriela ainda percebe em diferentes aspectos da vida os reflexos do abuso sexual que sofreu aos 16. Ela conta que sua relação com a sexualidade passou por fases distintas ao longo da última década. “Nos primeiros anos, eu banalizei muito as relações [sexuais]. Depois, principalmente no meu primeiro relacionamento, vieram o receio, o pudor e a insegurança”, relata.
A psicóloga Laís Melquiades, especialista em sexualidade e relacionamentos, diz que respostas como a de Gabriela são comuns. Enquanto algumas pessoas passam a evitar completamente o sexo, outras podem desenvolver uma relação compulsiva com a sexualidade. “Nem sempre essa busca acontece por prazer. Muitas vezes, é uma tentativa de lidar com a dor emocional. Evitar o sexo ou buscá-lo de forma compulsiva podem ser dois lados da mesma moeda. Ambos são respostas ao trauma”, explica.
No caso de Gabriela, os impactos da violência não se limitaram à vida sexual. A dificuldade de confiar em outras pessoas passou a atravessar também suas relações afetivas e situações cotidianas. “É uma elaboração complexa. Envolve conseguir dormir ao lado de um homem em quem eu não confio totalmente, por exemplo. São coisas que vão muito além do sexo”, afirma.
A culpa foi um dos sentimentos que ela precisou enfrentar para reconstruir sua relação com a sexualidade, já que, durante anos, associou o prazer a algo inadequado. “Hoje, tenho uma relação muito mais de aceitação e me permito entender que não é algo errado nem sujo. Estou nesse processo de transformação, e ele tem sido muito importante para mim.”
A psicóloga Laís Melquiades observa que os efeitos da violência sexual não terminam quando o episódio acaba. Para muitas mulheres, eles reaparecem meses, anos, às vezes décadas depois. “Reaparecem na cama, nos relacionamentos, no modo como se olham no espelho, no medo de confiar, na dificuldade de relaxar, no desconforto com o próprio corpo ou até na culpa ao sentir prazer”, explica.
Isso acontece porque a violência sexual não se limita ao momento da agressão. A especialista ressalta que o trauma pode alterar a maneira como o sistema nervoso processa experiências ligadas à intimidade, à segurança e ao prazer, influenciando a forma como a vítima se relaciona consigo mesma, com os outros e com o mundo ao seu redor.
Um estudo de 2021 conduzido por pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP) identificou que 22% das mulheres com disfunção sexual feminina relataram ter sofrido violência sexual na infância ou na vida adulta. De acordo com Melquiades, as consequências do trauma podem se manifestar de diversas maneiras: diminuição ou ausência de desejo sexual, dificuldade de excitação, dor durante as relações, dificuldade para atingir o orgasmo ou até a sensação de que o sexo é algo que precisa ser suportado, e não vivido com prazer e autonomia.
A especialista destaca ainda que os estudos sobre trauma mostram que o corpo mantém respostas automáticas de defesa mesmo muito tempo após a violência. Assim, estímulos associados ao abuso podem continuar ativando sensações de ameaça, ainda que o ambiente atual seja seguro. “O problema não é apenas a memória do que aconteceu. É o sistema nervoso continuar reagindo como se o perigo ainda existisse. O medo vivido durante a violência era uma resposta necessária. O desafio é quando ele nunca se desliga completamente.”
A psicóloga afirma que, por isso, muitas sobreviventes desenvolvem um estado constante de hipervigilância durante situações de intimidade. “Há uma atenção excessiva ao comportamento do parceiro, dificuldade para relaxar, necessidade de controlar tudo e sensação permanente de estar pronta para o pior. Nesse estado, o sistema nervoso está ocupado demais tentando sobreviver para conseguir experimentar prazer”, explica.
Maria ainda está reconstruindo sua relação com a sexualidade aos 27 anos, após ter sofrido uma violência sexual aos 18. Para ela, o processo passou por redescobrir o próprio corpo e entender que prazer e liberdade caminham juntos. “Percebi que sexo e intimidade estão muito relacionados ao conforto e à liberdade sexual. Então comecei a experimentar coisas novas comigo mesma primeiro, como usar lingerie e tirar fotos apenas para mim”, conta.
Outro desafio foi aprender a expressar os próprios desejos, pois sentia que suas vontades não tinham espaço dentro das relações sexuais que mantinha. “Eu tinha a sensação de que não importava o que eu queria ou o que eu falava no sexo. Demorou bastante até que eu conseguisse ser mais aberta sobre as posições que eu gostava e sobre como gostaria que aquele momento acontecesse”, relata.
Neste sentido, a psicóloga afirma que recuperar a sensação de autonomia é uma etapa fundamental para muitas sobreviventes de violência sexual. Uma das formas de fazer isso é estabelecer espaços de diálogo e previsibilidade antes da intimidade. “Uma das estratégias mais simples e, ao mesmo tempo, mais subestimadas é conversar sobre limites, gatilhos e sinais de desconforto antes da intimidade. Isso reduz significativamente a ansiedade porque o corpo percebe que, dessa vez, existe espaço para parar, escolher, desacelerar ou mudar de ideia”, explica.
A especialista diz que combinar palavras ou gestos para sinalizar uma pausa também pode ajudar a restabelecer a sensação de controle dentro das relações sexuais. “Muitas vezes, a pessoa nem precisa usar esse recurso. O simples fato de saber que existe uma saída possível e que ela será respeitada já produz uma sensação maior de segurança”, observa.
Outro passo importante é reconstruir a intimidade para além do sexo. “Presença, toque, carinho, conversa e conexão emocional permitem que o corpo reaprenda, experiência após experiência, que proximidade não significa necessariamente perigo”, orienta a especialista.
Ela destaca ainda que o consentimento não deve ser encarado como uma única pergunta feita antes da relação sexual. Para muitas sobreviventes, ele precisa ser contínuo e perceptível durante toda a experiência. “Não porque exista desconfiança constante do parceiro, mas porque o corpo ainda necessita de confirmações repetidas de segurança. É uma forma concreta de reorganizar experiências traumáticas anteriores”, explica.
Quando há um relacionamento em andamento, a terapia de casal com foco em trauma pode ser uma aliada nesse processo. Já para mulheres que estão retomando a vida afetiva sem um parceiro fixo, o trabalho costuma envolver o reconhecimento de gatilhos, além do fortalecimento da conexão com o próprio desejo.
Acima de tudo, a psicóloga ressalta que não existe um “prazo universal para retomar a vida sexual ou afetiva após uma violência.” “Algumas mulheres vão desejar isso rapidamente. Outras vão levar anos. Outras ainda vão redefinir completamente o que intimidade significa para elas. Nenhum desses caminhos é errado”, conclui.
Nomes foram alterados a pedido das entrevistadas.
