Prestes a completar 35 anos, a atriz e escritora Maria Bopp se pegou dizendo a um adolescente: “Na minha época, a internet era muito melhor”. Ela afirma que essa frase marca oficialmente a chegada à meia-idade. Segundo ela, sua geração foi a última a ter uma infância totalmente off-line. A internet só chegou na adolescência, com a conexão discada, quando ainda era possível “entrar e sair” da rede.
Em 2015, a internet já mostrava efeitos nocivos com a popularização dos smartphones. Na época, Bopp trabalhava como atriz e não pensava em engajamento ou criação de conteúdo. Seu tempo online era dedicado a textos de autoras como Eliane Brum, Djamila Ribeiro e Daniela Lima, que contribuíram para sua formação política.
A autora lembra da força de movimentos como #MeuPrimeiroAssedio e #MeuAmigoSecreto. O que ela mais sente falta, porém, são dos grupos privados feministas no Facebook. Ela participou de vários, alguns com milhares de mulheres. Em um deles, era moderadora. Mulheres que tinham vergonha de publicar suas histórias enviavam relatos para elas, que postavam anonimamente para abrir discussão.
Bopp tinha 23 anos e mediava relatos pesados de violência doméstica, perseguição e crises de ansiedade. Às vezes, recebia mensagens de madrugada e o grupo tentava se organizar para ajudar. Ela descreve a experiência como uma “central improvisada de acolhimento” psicológico, jurídico, afetivo e político, um “SUS feminista pirata” hospedado nos servidores de Zuckerberg.
A autora afirma que não vê paralelo para isso nas redes de hoje. Ela acredita que sua geração está exausta de correr atrás do algoritmo e de performar produtividade. Ela lamenta que, enquanto progressistas abandonam esses espaços, outros grupos, como os fóruns masculinistas e os discursos redpill, entendem o poder da internet como ferramenta de pertencimento.
Bopp conclui que aceita seu destino de “senhora saudosista”. Ela diz que vai romantizar o passado, afirmando que “no meu tempo, as redes não eram essa bagunça”. Para ela, havia espaço para leveza, mas sem abrir mão da profundidade e do senso de comunidade.
