Tatuagens de borboleta passaram a ser alvo de discursos misóginos disseminados por influenciadores ligados ao universo red pill. O desenho, historicamente associado à transformação, liberdade e recomeços, começou a ser tratado como um suposto “marcador moral” sobre mulheres.
Sem saber, a influenciadora Cecília Araújo entrou na mira quando decidiu participar de uma trend ao lado do marido. No vídeo publicado por ela, sua tattoo apareceu, o que deu início a uma onda de comentários machistas. A publicação já ultrapassou oito milhões de visualizações.
“Milhares de comentários com emoji de borboleta, dizendo que eu era red flag, problemática, doida. Inclusive, meu marido recebeu uma direct de um perfil fake dizendo: ‘O cara casou com uma com tattoo de borboleta, puta que pariu'”, relata.
Araújo afirma que desconhecia completamente a associação criada nas redes. “Nem eu, nem ninguém que eu conheço tinha ouvido falar nisso. Cheguei a receber comentários [pejorativos] até no vídeo da entrada do meu casamento, ao lado da minha mãe”, diz.
A narrativa ganhou força em vídeos curtos publicados por criadores da chamada “machosfera” e reproduz ideias difundidas por nomes conhecidos desse meio, como Thiago Schutz, o “Calvo do Campari”. No e-book “O Livro das Red Flags”, o influenciador lista 30 características que seriam sinais de alerta em mulheres para relacionamentos. Entre elas, está o fato dela “ter inúmeros tattoos e piercings”. Além dele, o influenciador Raiam Santos também já declarou que a tatuagem de borboleta é um sinal de “mulher rebelde e emocionalmente instável”.
A socióloga Bruna Camilo, doutora pela PUC Minas e pesquisadora de gênero, misoginia e extrema-direita, afirma que a escolha da borboleta como alvo não é aleatória. Segundo ela, o símbolo reúne características historicamente associadas ao feminino, como delicadeza, beleza, sensualidade e expressão emocional, além de carregar ideias de autonomia e reinvenção pessoal.
“Isso provoca reação justamente porque os discursos misóginos tendem a rejeitar mulheres que performam autonomia estética e emocional, retirando o controle do masculino”, afirma a especialista em entrevista à Marie Claire.
Tatuadora há quatro anos, Munique Shih, 30, afirma que as críticas a esse tipo de tatuagem também estão ligadas a uma questão estrutural dentro do universo da tattoo, historicamente associado à masculinidade. Para ela, existe também uma diferença na forma como corpos tatuados são percebidos socialmente dependendo do gênero.
“Homens tatuados costumam ser associados à força, resistência e estilo. Já mulheres tatuadas são frequentemente vistas como vulgares, problemáticas ou menos profissionais”, diz.
Segundo Camilo, esses discursos operam por meio da categorização e da vigilância comportamental feminina, sem qualquer base objetiva. “Eles funcionam porque criam a ilusão de que os homens podem ‘decifrar’ as mulheres visualmente. Isso produz uma sensação de controle e reforça a lógica de suspeita constante sobre o corpo feminino. A estética, portanto, vira uma ferramenta de policiamento moral”, explica.
As redes sociais favorecem a circulação desse tipo de conteúdo porque transformam símbolos visuais simples em atalhos para estereótipos. “Como as plataformas digitais favorecem leituras rápidas, caricatas e virais, essa tatuagem específica vira meme e vira piada, simplificando mulheres reais”, afirma Camilo.
A tatuadora Munique Shih observa ainda que existe uma contradição nas cobranças direcionadas às mulheres tatuadas. “Se a tatuagem é pequena, dizem que falta personalidade; se é grande ou marcante, pode ser vista como exagerada ou vulgar. Já nos homens, essas mesmas escolhas tendem a ser interpretadas apenas como expressão de estilo.”
A professora de português Ludmilla Costa, de 29 anos, relata ter presenciado a reprodução desses discursos dentro da sala de aula. Ela conta que um aluno do Ensino Fundamental associou tatuagens de borboleta à promiscuidade feminina durante uma discussão sobre símbolos e significados sociais.
“Estava explicando como determinados símbolos adquirem sentidos socialmente compartilhados e usei como exemplo a pomba branca, tradicionalmente associada à paz. Foi aí que o aluno me interrompeu para dizer: ‘E a tatuagem de borboleta significa que a mulher já ficou com muitos homens. Mulher que tem tatuagem de borboleta, eu tô fora’.”
Outro estudante afirmou que aquilo era uma “teoria”, mas que seria verdadeira porque “bastava olhar as mulheres vulgares do TikTok”, já que “todas tinham tatuagem de borboleta”. “Vários dos meninos pareciam concordar, entre deboches e risadas”, relembra.
Bruna Camilo avalia que o julgamento em torno da tatuagem revela como a sociedade ainda trata a autonomia estética feminina como algo disponível à avaliação pública. “Quando uma mulher escolhe modificar o próprio corpo, essa decisão frequentemente deixa de ser entendida como expressão individual e passa a ser lida como uma declaração sobre sua sexualidade, inteligência e valor social”, observa.
A própria professora tem uma tatuagem de borboleta, feita após sair de um quadro de depressão e passar por um processo de reconstrução da autoestima e da relação consigo mesma. Para Costa, o episódio evidenciou um problema maior: adolescentes reproduzindo discursos misóginos “como se fossem apenas opiniões inocentes ou verdades absolutas”. Ela alerta que esses conteúdos ultrapassam o campo das “piadas da internet”. “Eles moldam percepções sobre mulheres, relações afetivas e convivência social”, aponta.
A ridicularização das tatuagens de borboleta faz parte de um padrão histórico mais amplo de desvalorização de práticas associadas ao universo feminino. Segundo a pesquisadora, roupas, maquiagem, astrologia, música pop, romances, procedimentos estéticos e até hobbies consumidos majoritariamente por mulheres costumam ser tratados socialmente como algo “fútil”, “irracional” ou superficial.
Camilo afirma que julgamentos sobre escolhas estéticas funcionam como uma forma de controle simbólico do corpo feminino. “Historicamente, o controle sobre as mulheres nunca aconteceu apenas por leis ou violência explícita. Ele também ocorre por meio da vergonha, da humilhação, da ridicularização e da vigilância social”, diz.
Na prática, quando tatuagens, roupas ou maquiagens passam a ser associadas a determinados “tipos de mulheres” consideradas menos dignas de respeito, cria-se um mecanismo disciplinador que leva muitas delas a administrar a própria aparência tentando evitar ataques e descredibilização, segundo explica a socióloga.
Ela alerta que esse tipo de discurso também ajuda a normalizar a ideia de que mulheres podem ser avaliadas publicamente a partir do corpo e da estética. “À primeira vista, pode parecer algo banal ou apenas uma piada da internet, mas isso contribui para um ambiente cultural que legitima controle, desumanização e diferentes formas de violência contra as mulheres”, conclui.
