A nutricionista Adhara Fidalgo, de 29 anos, cresceu ouvindo que era “muito rígida” com determinadas situações. Moradora de Niterói, no Rio de Janeiro, ela só viria a entender anos depois que aqueles comportamentos faziam parte do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o TOC — condição que, estima-se, afeta cerca de 4 milhões de brasileiros.
Recentemente, Adhara viralizou nas redes sociais ao compartilhar como é viver com o transtorno. Em conversa com Marie Claire, ela conta que os sintomas começaram ainda na infância. Filha de pai militar, mudava-se com frequência, e cada despedida era vivida com intensidade. “Eu ficava de luto por muito tempo até conseguir me desapegar do outro lugar”, relembra.
A mãe, que é psicóloga, foi uma das primeiras pessoas a notar que havia padrões no comportamento da filha. Um deles aparecia na relação com as roupas. “Eu não conseguia usar nenhuma peça com ranhura. Ela precisava estar totalmente passada e alinhada ao meu corpo. Eu só usava roupas com elastano, porque grudavam na pele, ou ficava segurando o tecido para que ele permanecesse reto. Era uma situação horrorosa”, lembra.
Aos poucos, os sinais foram aparecendo em diferentes situações do cotidiano. Fidalgo só conseguia assistir à televisão se o volume ou o canal estivessem em números pares. Também precisava lavar as mãos de uma forma específica, repetindo o ritual várias vezes. Durante a pandemia de Covid-19, a obsessão que sempre teve por bactérias e outros germes se intensificou.
Embora hoje seja casada com uma pessoa que compreende sua condição, Fidalgo diz que já viveu uma realidade bem diferente. Em um relacionamento anterior, afirma ter enfrentado tentativas de controle por parte do ex-parceiro, o que agravava sua ansiedade e intensificava as obsessões e compulsões. A situação chegou a um ponto crítico quando Fidalgo decidiu morar com o então parceiro. Ao chegar à casa da mãe dele, ficou incomodada com o estado do armário. “Desfiz todo o armário dele na casa da mãe, levei as roupas para uma lavanderia e passei o dia lavando tudo, da manhã até o fim da tarde. As peças só entravam no armário com a minha autorização”, conta.
O diagnóstico veio por meio do psiquiatra da família, que acompanhava Fidalgo desde a infância. Depois de quatro consultas, o especialista identificou o quadro como Transtorno Obsessivo-Compulsivo e iniciou o tratamento com um ansiolítico, que ajudou a reduzir significativamente os episódios. Além da medicação, a nutricionista também faz terapia semanalmente. Segundo ela, o acompanhamento é essencial para reconhecer possíveis gatilhos e evitar que os sintomas se intensifiquem.
Hoje, Fidalgo afirma lidar melhor com o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, mas alguns comportamentos seguem presentes, especialmente quando o assunto é a limpeza da casa. Ninguém entra no imóvel usando o mesmo sapato da rua, por exemplo. A faxina também precisa acontecer em intervalos curtos: se passam mais de três dias, a sujeira começa a lhe causar angústia. As roupas sujas são lavadas diariamente e, em alguns dias, até duas vezes. Outro hábito que mantém é dar descarga sempre com a tampa do vaso abaixada, independentemente do lugar onde esteja, como forma de evitar a proliferação de germes. “Lavo minhas mãos de 15 a 20 vezes por dia. Eu me acalmo com o cheiro do sabão”, detalha. Fidalgo explica que todas essas ações a ajudam a ter controle do seu entorno, o que faz com que ela se acalme ao realizá-las.
Como o próprio nome indica, o TOC é uma condição psiquiátrica marcada por obsessões e compulsões. Segundo a psiquiatra Giovanna Quinet, da Clínica Revitalis, as obsessões são pensamentos, imagens, ideias ou impulsos persistentes e involuntários, que invadem a mente da pessoa e provocam sofrimento. As compulsões, por outro lado, são comportamentos ou rituais repetitivos realizados na tentativa de aliviar a ansiedade causada por essas obsessões ou evitar consequências temidas.
Para Quinet, reduzir o transtorno a uma simples reação de incômodo com a desordem contribui para uma compreensão distorcida da condição. Essa banalização pode invisibilizar o sofrimento real de quem convive com o TOC e reforçar estereótipos sobre suas manifestações. “Falar com mais precisão sobre o transtorno ajuda a diferenciar preferências pessoais de uma condição psiquiátrica potencialmente incapacitante, além de contribuir para a redução do estigma e para a importância do diagnóstico e do tratamento adequado”, reforça a psiquiatra.
