Após mais de duas décadas no mundo corporativo, liderando áreas financeiras e de tecnologia em empresas como Johnson & Johnson, Banco Safra, Vivo e Prevent Senior, a executiva Suzana Araújo enfrentou um desafio inédito. Ela foi desligada em um corte logo após a pandemia de Covid-19 e, pressionada pela falta de reserva financeira, decidiu empreender.
“Eu estava com quase 50 anos. Levaria um tempo até voltar ao mercado e, depois de uns cinco anos, já iriam querer me substituir. Mas não me vejo sem trabalhar. E aí comecei a repensar sobre o que fazer”, conta.
A ideia de falar sobre tecnologia nas redes sociais partiu do filho. Com a visibilidade, ela passou a ser convidada para treinamentos. Assim surgiu a TechTalksa, que oferece consultoria a empresas, da criação de sistemas a serviços de inteligência artificial. “Nunca tive vontade de empreender, mas a vida me levou para isso”, diz.
Histórias como a de Suzana são cada vez mais comuns. A especialista em RH Jacqueline Resch, que atua há mais de 40 anos, explica que a carreira deixou de ser vista como uma linha reta. “Hoje as pessoas vivem mais e a carreira passou a ser desenhada pela própria pessoa.”
Uma pesquisa de 2024 mostrou que 70% das mulheres entre 43 e 82 anos já fizeram ou consideram fazer uma transição profissional, contra 65,3% dos homens. Entre elas, 55,2% querem atuar como consultoras ou freelancers e 38,2% pretendem abrir um negócio próprio. Os dados são da NOZ Inteligência com a Maturi.
A mudança é motivada pelo etarismo, agravado por barreiras como o “teto de vidro” e o “degrau quebrado”. Jacqueline ressalta que, enquanto o homem tem em média quatro promoções na carreira, a mulher tem duas.
Foi o que ocorreu com Eveline de Castro Correia, desligada aos 58 anos de uma rede de ensino. “Fica a sensação de que você foi descartada”, afirma. Ela levou um ano e meio para se reerguer e abrir uma consultoria. Hoje, conduz processos de compliance e proteção de dados. “As empresas me chamam pela confiança na minha senioridade”, diz.
A jornalista Marcela Lima também mudou de área. Após cobrir casos policiais no Rio de Janeiro, tentou ser influenciadora digital de surfe. Por causa da renda instável, aceitou um convite para trabalhar com marketing em uma organização de transição energética. Ela precisou superar a síndrome da impostora e hoje tem remuneração melhor do que na época de jornalista.
Suzana, por sua vez, reconstruiu a vida pessoal. “Não tinha amigos, era sedentária”, lembra. Agora corre três vezes por semana, faz pilates e dá aulas em cinco faculdades. Eveline passou a orientar outras mulheres em suas carreiras. “A gente não pode partir do pressuposto de que, depois dos 50, a pessoa está defasada. O grande valor é o das gerações convivendo juntas”, conclui Jacqueline.
