09.11.15 • Em Reflexão

Semana passada minha timeline do Facebook ficou inundada de compartilhamentos da notícia de que uma famosa blogueira australiana, chamada Essena O’Neill, publicou um vídeo dizendo que ia sair de todas as redes sociais e parar de usar sua imagem para ganhar dinheiro na internet porque tudo o que mostrava estava bem longe da realidade e ela não queria mais continuar fazendo isso. Além do vídeo, Essena apagou milhares de fotos de seu Instagram (que já foi deletado) e nas que ficaram, editou as legendas, contando a verdade sobre o momento registrado.

Em uma das inúmeras fotos de biquini publicadas, Essena escreveu: “Isso não é a vida real. Tirei outras cem fotos parecidas tentando fazer com que meu abdômen ficasse bom. Provavelmente não tinha comido nada neste dia”.

Em outra foto que mostrava sua barriga, escreveu: “Abdômen sugado, postura estratégica, peitos empinados. Só quero que as meninas mais jovens saibam que isso não é legal nem inspirador. É a perfeição artificial feita para chamar atenção”.

Se você ainda não viu o vídeo, assista (infelizmente não encontrei legendado em português):


Muitos blogueiros já escreveram e deram suas opiniões sobre a polêmica. Alguns admiraram e concordaram com o que ela fez, uns criticaram, outros defenderam e todos expuseram diferentes (e interessantes) pontos de vista. Vi pessoas comentando que acharam a atitude dela incrível e outras falando que ela só fez isso por marketing.

Eu não consigo adivinhar qual a real intenção dela, e não acho interessante usar meu tempo fazendo julgamentos. O que tenho a dizer é que a história mexeu comigo e me instigou a refletir mais profundamente sobre um assunto sobre o qual já venho pensando há algum tempo: como as redes sociais afetam a forma como vivemos, quem acreditamos que somos, o que queremos, como definimos as nossas prioridades e o que entendemos como sucesso e felicidade.

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Eu não vejo nenhum problema em participar de redes sociais, compartilhar fotos de coisas legais que fizemos ou estamos fazendo, gostar de uma selfie e publicá-la… e também não vejo nada de errado em trabalhar como blogueiro e fazer publicidade. Mas sabemos que para algumas pessoas isso é algo que vai muito além do “compartilhar coisas legais porque é interessante, bonito ou divertido” e vem se tornando uma obsessão, uma disputa, uma necessidade diária de aprovação, uma expressão do ego que colocamos acima da verdade, da espontaneidade e da felicidade proporcionada pelo momento presente.

Mostrar que você é de tal forma está se tornando mais importante do que realmente descobrir quem você é. Mostrar um momento está se tornando mais importante do que vivê-lo.

Sem contar todas as vezes em que você está achando o seu dia uma porcaria – mas a sua foto no Instagram diz que você está se divertindo como ninguém – e começa a olhar as fotos de outras pessoas e elas realmente parecem muito felizes! Muito ricas! Muito animadas! Totalmente satisfeitas! E tem certeza de que sua vida é um enorme fiasco e não chega aos pés da vida da pessoa que tem o corpo perfeito e está na praia, ou do casal apaixonado, ou da pessoa que trabalha home-office e está na piscina do prédio segunda-feira à tarde.

Quando você passa muito tempo nas redes sociais comparando a vida maravilhosamente editada de outras pessoas com a sua, a sua satisfação começa a se transformar em insatisfação. O suficiente passa a parecer insuficiente e o simples – que antes te fazia muito feliz – começa a parecer pouco.

Então você começa a querer o que elas têm, ser como elas são, pensar como elas pensam, viver como elas vivem… porque passa a achar que ter o que você tem, ser quem você é e viver como você vive não é tão bom quanto a vida perfeita mostrada nas redes sociais de outra pessoa. Mesmo que sua vida seja lotada de coisas boas, você se sente insatisfeito, diminuído, fracassado… e continua se esforçando para mostrar que é – pelo menos um pouquinho – como elas (ou melhor, como você pensa que é a vida delas).

Mas quão significativo é isso para a nossa felicidade? Usar seu tempo criando falsas provas de que sua vida é perfeita te faz feliz? Faz você se sentir mais forte, mais capaz, mais entusiasmado, inspirado e amado? É tão óbvio que ninguém no mundo tem a vida perfeita, que todo mundo tem problemas e se sente mal de vez em quando, mas mesmo assim acreditamos nessa ilusão. É por isso que eu achei tão maravilhoso que a história da blogueira tenha se espalhado. Ela provou isso para o mundo.

Quero deixar claro que existe uma enorme diferença entre quem faz publicações em redes sociais e quem faz qualquer coisa por um post – inclusive fingir estar feliz – para receber aprovação (ou dinheiro) em troca. E não estou falando apenas de blogueiros, youtubers e famosos da internet. Eu vejo muita gente fazendo isso e eu mesma já me peguei tentando tirar uma “foto pro insta”. A pergunta é: quando foi que isso se tornou mais bonito do que sermos quem somos de verdade?

Talvez nunca tenha acontecido com você, mas sei que acontece com várias pessoas e por isso achei que valia a pena escrever sobre isso. Se você se identifica, recomendo que analise muito bem o quanto a vida virtual dos outros te afeta, o que tudo isso te faz pensar e se tem dado mais importância à mostrar uma vida no virtual do que vivê-la no real. Se você acha que a vida de alguém é perfeita porque ela tem muito dinheiro, tem o corpo malhado, tem carro, tem namorado, tem um iPhone e viaja para fora do país todo mês, sua visão sobre felicidade está realmente muito limitada. E é provável que as redes sociais tenham boa parcela de culpa nisso.

Foto nenhuma faz a sua vida ser mais interessante, mais emocionante, mais significativa. Sabe o que faz isso? Algo muito mais simples: estar presente por inteiro em cada momento. Substitua o vício de mostrar sua pose mais bonita pelo vício de aproveitar as coisas boas ao máximo. Se der para tirar uma foto boa na hora, bem. Se não der, amém. Priorize o que realmente te faz feliz.

A solução é deletar todos os meus perfis em redes sociais? Talvez dê certo para algumas pessoas, mas não acho que seja a única nem a melhor forma de melhorarmos nossa relação com o virtual. Acredito que o ideal é decidirmos quanto de importância damos para a vida real e quanto para a vida virtual. E para isso é essencial que tenhamos consciência de que o virtual não é a vida real. A sua vida virtual apenas mostra uma pequena parte de quem você é, o que faz, o que sente e o que gosta, e é assim com todo mundo.

Eu confesso que às vezes me comparo sim com os outros, comparo a minha vida com a vida alheia e sei que isso não me faz bem. A história da blogueira australiana me pegou na hora certa, em uma hora em que eu já estava percebendo isso em mim e querendo mudar essa atitude. Refleti muito sobre isso e cheguei à conclusão de que eu quero inspirar as pessoas, quero compartilhar o que deu certo para mim, quero falar das minhas experiências, e a internet é o meio que escolhi para isso, mas quero fazer não por vício ou por necessidade de elogios, likes e comentários. Eu quero que isso seja divertido e/ou significativo para mim. Não para provar nada para ninguém.

Ter minha vida aprovada pelos outros não é o que eu preciso para ser feliz. Já escrever sobre o que eu penso, conhecer a opinião de outras pessoas, falar sobre minhas experiências, ouvir (ou ler) sobre as experiências de outras pessoas, compartilhar coisas que achei divertidas, dar indicações de coisas que gostei, mostrar coisas que me fizeram sorrir, sim. Isso sim me faz bem e tem significado para mim.

Escrevi esse texto enorme não para convencer quem lê-lo de que as redes sociais são o “mal do século”, mas porque quero espalhar essa mensagem para que as pessoas tenham consciência de ninguém coloca na internet tudo o que acontece em suas vidas. Que redes sociais não mostram o que a vida realmente é. E que parem de se iludir, parem de ser achar menores, parem de querer provar a todo custo que suas vidas são perfeitas, e parem de colocar o mostrar acima do viver.

Minhas redes sociais não mostram quando eu sofro de saudades da minha mãe. Não mostram minhas crises de ansiedade e o quanto eu sofro por ser hipocondríaca. Não mostram os dias em que tudo o que eu quero é deitar na cama e não fazer nada. Não mostram minhas celulites. Não mostram o metrô lotado que eu pego todo dia. No entanto, eu sou e vivo tudo isso, assim como também vou a festas, me divirto, faço yoga, tenho um cachorro fofo, viajo e faço coisas legais. Tudo isso sou eu, mas boa parte de tudo o que eu sou não está lá. E mesmo não tendo uma “vida de Instagram” eu amo a minha vida e agradeço por ela todos os dias. Por isso, continuo acreditando que a vida real, tão imperfeita e às vezes tão confusa, ainda vale muito mais do que a perfeita e invejada vida virtual.

Quero compartilhar com vocês os posts mais interessantes que li com reflexões sobre a história da blogueira Essena O’Neill:

Estamos prestes a mudar a nossa relação com a internet e com as redes sociais – no GWS

Mudando o Jogo – no Small Fashion Diary

Sobre redes sociais, vida real e felicidade – no Fêliz com a Vida

Sobre esse assunto em especial, gostaria muito de saber o que vocês pensam, porque sei que existem inúmeras outras visões e experiências em relação a isso, e me interessa muito conhecer opiniões diferentes. Vamos conversar nos comentários?!



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Postado por Stephanie Gomes

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15 Comentaram para “Viver é melhor que mostrar”


G
1. Luciana Marques
09/11/2015 às 10:18

Ótima reflexão Stephanie!! Seus textos são sempre excelentes, adoro passar aqui no seu blog.
Eu exclui meus perfis nas redes sociais já faz uns dois anos. Para mim, foi melhor assim. Achava tudo muito fútil e irreal. Sinto falta do contato com algumas pessoas, mas no meu caso, foi uma decisão positiva.
Acho que passei a canalizar o tempo e energia que estava gastando ali, em coisas melhores para mim.
Mas enfim, isso é muito pessoal, e acho que há pessoas que conseguem utilizá-las de maneira saudável.


G
2. Stephanie
14/11/2015 às 15:04

Obrigada, Luciana!

Que bom que você encontrou a melhor forma para você e deu certo! Exatamente o que você disse, existem várias formas de utilizar as redes sociais de forma saudável e positiva. Vale parar um pouquinho para refletir sobre isso e descobrir o que é melhor para você. Por isso gostei da história da blogueira e quis escrever sobre ela, independentemente da intenção dela, acho que a reflexão que ela ajudou a gerar sobre esse assunto foi muito positiva.

Beijis!


G
3. André
09/11/2015 às 23:04

Salvo engano, acho que o Desassossegada já citou algumas vezes o assunto ‘rede sociais’, só que especificamente nesse texto, querida Stephanie, você foi mais a fundo; achei muito oportuno. Pois há umas três semanas, mais uma vez desativei (temporariamente) meu perfil no Facebook, principal rede social que eu utilizava além do Whatsapp. Na verdade, tenho um caso de amor e ódio com essas novas mídias de comunicação na internet: de fato, acredito que elas podem ser muito úteis (e são), pelos inúmeros benefícios já tão conhecidos; porém, acho que se não houver um equilíbrio, corremos o risco de transformá-las em fontes de procrastinação e ansiedade. E é o que acontece comigo, de tempos em tempos, utilizando o Facebook (…) – quando dou por mim, estou vendo conteúdos totalmente desnecessários e que não acrescentam nada de bom ao meu dia. E daí vem aquela ‘reação em cadeia’: perda de tempo, sensação de culpa e ansiedade. Por isso, de vez em quando, preciso desse ‘detox’ rs. Podem me chamar de antissocial, ou que sofro de autismo, não dou muita importância, pois o que importa de verdade é o meu bem estar. Ultimamente, tenho dado mais importância às pessoas com as quais convivo, estando mais atento (a elas), não apenas presente. Interessante que, no decorrer do post, você traz essa questão da vida com mais simplicidade – a palavra foi citada algumas vezes – e coincidentemente ontem escutei que ‘a simplicidade é o máximo da sofisticação'(…); talvez esse seja o segredo: complicar/ se expor menos, viver (plenamente) mais! Abs!


G
4. Stephanie
12/11/2015 às 07:21

Oi André,

Sim, já escrevi outras vezes sobre redes sociais, esse assunto me interessa bastante.

Adorei seu comentário! Eu acho que esse equilíbrio que precisamos encontrar é algo individual. Para alguns, pode ser sair de vez das redes sociais. Para outros, pode ser equilibrar melhor o tempo entre a vida virtual e a real. Bom saber que você (e outras pessoas que comentaram aqui) estão buscando e conseguindo esse equilíbrio.

Obrigada por comentar!


G
5. Patrícia Vaz
10/11/2015 às 11:57

Já tive muitas crises sobre o uso excessivo das mídias sociais e muitas brigas em casa pelas horas de distanciamento vendo a vida dos outros passar na tela. Já deletei face várias vezes, embora eu trabalhe com comunicação e alimente página de clientes. Mas agora eu parei com esse zero ou dez e criei regras próprias, um caminho do meio: tirei o facebook do celular e só vejo de segunda a sexta no trabalho. Com isso, o vício foi diminuindo e hoje acho meu relacionamento saudável com mídias sociais. Evito twitter e snapchat porque são frenéticos demais, saturam a mente de informações sem nos dar tempo para filtrar. E o Instagram é um fofo que não me atrapalha em nada.


G
6. Stephanie
11/11/2015 às 07:14

Patrícia, você fez exatamente o que acredito que é a melhor forma de lidar com isso: encontrou sua própria forma de equilíbrio.

Obrigada por comentar!

Beijos


G
7. Regiane Tássia
15/11/2015 às 18:58

Amei o texto, li em um momento oportuno. Ando passando tempo demais observando e também invejando a vida alheia que deixo minha vida de lado. Isso obviamente gera frustração, andei muito infeliz com minha vida querendo comparar com a vida de pessoas que eu nem conheço, nem sei se são reais. Hoje decidi dar um basta nesse pessimismo, sair desse vício, porque é um vício, e apreciar mais as coisas boas que me acontecem e curtir meu filho que de certa forma tenho negligenciado. Não pretendo apagar minhas contas senão perco contatos com amigos e familiares, mas dosar tempo e importância que dou as redes sociais. Obrigada pelas palavras, me ajudaram muito!


G
8. Stephanie
16/11/2015 às 19:34

Regiane, eu acho que admitir isso para si mesma já é um grande passo para você conseguir melhorar. Que bom que está motivada a mudar isso e apreciar mais a própria vida! Fico muito feliz 🙂

Beijos!


G
9. Bárbara
16/11/2015 às 06:56

Bom dia,Stephanie quero parabenizá-la em relação aos assuntos aqui abordados, que pra mim,é de muita valia, estou sempre lendo seus textos que sempr
e me acrescentam em algum aspecto da minha vida. Obrigada por compartilhar conosco. Grande abraço.


G
10. Stephanie
16/11/2015 às 19:32

Muito bom saber disso, Bárbara!

Obrigada!

Beijos


G
11. Laysa Dias
19/11/2015 às 12:03

Sua expressividade é convincente!
É tudo aquilo que acredito que deveríamos fazer e ser… VIVER!
Parabéns, sempre acompanho os seus posts pois me identifico com a maiorias das publicações expostas. Abraços


G
12. Stephanie
20/11/2015 às 12:18

Obrigada pelo carinho, Laysa! <3


G
13. Ohara
20/11/2015 às 11:40

Nossa, que post lindo. juro q se nao fosse por isso não saberia da notícia, ja que deletei meu face a um bom tempo.
Ontem saiu mais uma blogueira falando sobre o assunto, e ela criticou, eu levei por esse lado haha, dizendo coisas como “de preto e branco ja basta
nossos dias” “o q q tem editar um pouco a vida” mais é como eu sempre falo: “cada um com sua opinião, nada contra”. o pior e q ando invejando mto a
vida das psoas ultimamente: seus vlogs, tweets felizes, sei la, haha ate agora ainda nao parei, vamos ver se tento e consigo melhorar: rs.
bjsss


G
14. Stephanie
20/11/2015 às 12:57

Oi Ohara!

Eu li várias opiniões diferentes sobre esse assunto, e não discordo de quem diz que é normal postar só os momentos felizes na internet. É claro que ninguém vai postar os problemas e as tristezas, queremos compartilhar o que é bom.

Quem precisa ter consciência somos nós mesmos quando vemos as postagens dos outros, e meu texto foi mais voltado para isso, para tentar explicar que não há nada de errado nas redes sociais, nós é que precisamos ser mais conscientes e inteligentes ao utilizá-la, para não deixar que ela nos afete de forma a trazer sentimentos de inveja, descontentamento etc e também para não vivermos apenas para mostrar. Por isso eu achei muito válido o que a blogueira fez, porque seja verdade ou mentira, a notícia se espalhou e incentivou muita gente a pensar sobre isso.

Muito obrigada por comentar!

Beijos


[…] Os mais difíceis pra mim são os textos que envolvem alguma polêmica. Esse texto  em especial, fiquei bastante receosa em publicar, li e reli muitas vezes, mas acabou tendo uma […]



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