Mulheres sofrem com assédio e importunação sexual várias vezes ao longo da vida. O primeiro episódio costuma ocorrer ainda na infância ou no começo da adolescência. Muitas se sentem sozinhas quando a violência acontece, especialmente quando as pessoas ao redor não oferecem apoio.
A fotógrafa Caroline Soares, de 26 anos, foi vítima de importunação sexual no metrô de São Paulo. Ela conta que não recebeu nenhum apoio. “Fiquei em choque. Reagi empurrando o homem, mas o que mais me marcou foi a ausência de reação das pessoas ao redor. Depois vieram sentimentos de culpa e nojo, que ficaram comigo por um tempo”, disse.
O caso de Caroline está na estatística brasileira. Pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres”, do Instituto Cidades Sustentáveis e da Ipsos-Ipec, feita em dezembro de 2025, mostra que sete em cada dez mulheres já sofreram assédio moral ou sexual, principalmente em ruas e espaços públicos. O levantamento também revela que 71% delas já sofreram assédio em ao menos um de seis locais: ruas e espaços públicos, transporte público, ambiente de trabalho, ambiente doméstico, bares, casas noturnas ou transporte particular.
A experiência levou Caroline a buscar um treinamento de defesa pessoal. Ela conheceu o projeto StandUp, da ONG Cruzando Histórias. Lá, aprendeu táticas para se proteger e para ajudar outras mulheres. “O que mais marca não é só o assédio, mas o silêncio em volta. E eu não quero mais fazer parte dele. Hoje entendo que, antes, eu reagia no impulso e me sentia sozinha depois. O treinamento me trouxe estratégia e consciência de que podemos agir e apoiar umas às outras”, afirmou.
No projeto, Caroline aprendeu a diferença entre assédio e importunação sexual. Segundo Bia Diniz, CEO da ONG Cruzando Histórias, entender o contexto é importante para saber reagir. O assédio ocorre quando o agressor usa uma posição de poder, como professor e aluna, chefe e funcionária, líder religioso e fiel. A importunação sexual acontece entre desconhecidos ou pessoas sem relação hierárquica.
5 passos para lidar com assediadores
Bia Diniz ensina o método dos “5 Ds” para reagir a situações de assédio ou importunação sexual. Não se trata de luta corporal, mas de posturas para interromper a violência e acolher a vítima. “As pessoas veem acontecer e é natural que paralisem ou finjam que não é problema delas. Também há medo de intervir. Quando oferecemos ferramentas simples de ação, as pessoas percebem que nunca tinham pensado nisso”, disse Diniz.
Os 5 Ds são: distrair, delegar, documentar, dialogar e direcionar.
Distrair é fazer uma intervenção para interromper a situação, como fazer uma pergunta, se aproximar ou derrubar um objeto. Delegar é pedir apoio a outra pessoa, como motorista, segurança, funcionário ou gerente do local. Documentar é registrar a situação com foto, vídeo ou anotar características do agressor, local, horário e placa de veículo. Diniz orienta que o material não deve ser compartilhado em redes sociais para evitar exposição indevida. Dialogar é acolher a vítima, oferecer ajuda, companhia ou apoio. Direcionar é intervir diretamente com o agressor ou a vítima, com cautela e avaliando a segurança de todos.
Caroline lembra que, após as aulas, vivenciou outra situação de importunação no ônibus. Dessa vez, ela não era a vítima, mas quem interveio. “Percebi um homem importunando mulheres com olhares e gestos. Quando notei que ele tentaria sentar ao lado de uma jovem de forma invasiva, me antecipei e ocupei o lugar. Em seguida, denunciei ao cobrador, e o homem foi retirado”, contou.
Se causa desconforto, é violência
Para Bia Diniz, há uma maneira simples de diferenciar assédio e importunação de uma demonstração de interesse: se há desconforto por parte da mulher, é violência. “Se a mulher está se sentindo constrangida, triste, envergonhada, com medo ou com nojo, então é assédio ou importunação. É mais sobre a reação da vítima do que o ato em si”, afirmou.
Assédio e importunação vão além do toque físico. Incluem encarar de forma invasiva, gestos sexualizados, aproveitar cumprimentos para tocar de forma inadequada. Também ocorrem no ambiente digital, com mensagens insistentes, conteúdos insinuantes ou envio de nudez sem consentimento. Em casos como masturbação em público, o fato de não haver contato físico não minimiza a violência.
Homens também participam do projeto. Bia Diniz observa que a maioria chega com receio de ser responsabilizada pela cultura de violência. “Buscamos criar uma conexão explicando que a violência contra a mulher é um problema social complexo. Não se trata de colocar um contra o outro, mas de resolver juntos uma situação que afeta pelo menos metade da população”, afirmou. Muitos homens percebem que já tiveram comportamentos de assédio ou identificam conhecidos. Quando são pais, levam a conversa aos filhos.
O projeto Stand Up também atua em estádios de futebol, treinando torcedores para lidar com assédio durante as partidas. “São espaços majoritariamente masculinos. Tem sido interessante a abertura dos clubes para falar sobre o tema. Houve boa receptividade da torcida”, disse Diniz.

