A senadora Daniella Ribeiro (PP-PB) revelou ter vivido episódios de violência doméstica durante um relacionamento de seis anos. O relato foi feito no Seminário sobre Violência contra a Mulher, realizado em parceria com o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB).
À época deputada estadual, Daniella afirmou que o namoro afetou sua vida pessoal e profissional. “Certamente eu não teria chegado ao Senado se ainda estivesse com ele”, disse em entrevista a Marie Claire. O ex-companheiro não permitia que ela viajasse ou mantivesse interações profissionais com homens.
Ele chegou a convencê-la de que deveria deixar a política, dizendo que poderia sustentá-la. Daniella cogitou se afastar de tudo após conversar com os filhos. Foi o filho mais velho que a alertou: “Você sempre foi apaixonada por política, construiu sua trajetória, conquistou seu espaço. E agora quer abrir mão de tudo isso?”
Após um casamento anterior de 21 anos considerado saudável, ela demorou a reconhecer os sinais de abuso. “Eu era a presa perfeita. O agressor vai isolando você de todos, até que perca a própria identidade”, afirmou. A senadora disse que era rastreada pelo ex-namorado, que ligava para saber onde ela estava com detalhes precisos.
Em outro episódio, ela fez uma tatuagem com o nome dele para conseguir permissão para sair com amigas. “Foi uma marca, como se eu fosse uma posse”, relatou. A situação chegou a agressões físicas, com tentativas de sufocamento. “Muitas vezes, estava debaixo de um travesseiro sendo sufocada”, contou.
O controle também ocorria no trabalho. Como o ex-companheiro era juiz, ele a assistia pela TV Assembleia e ligava no celular quando ela conversava com colegas homens. “Ele foi minando todas as áreas da minha vida”, disse Daniella.
Ela demorou a nomear o que vivia. “Faltava conhecimento sobre o ciclo da violência. Só quando reli a Lei Maria da Penha me enxerguei dentro dela”, afirmou. O término ocorreu no fim de 2017, com apoio de amigas, psicóloga e família. Em seguida, Daniella se candidatou ao Senado com 2% nas pesquisas e venceu.
Após a vitória, vieram os impactos emocionais. “Perdi 12 kg no primeiro ano. Só tomava café e água”, relatou. O tratamento psicológico começou em 2023. “Nenhuma mulher está imune a viver um ciclo de violência”, reforçou.
Violência política de gênero
Com mais de 15 anos de vida pública, Daniella diz ter enfrentado machismo e violência política de gênero. Após discursos, a imprensa perguntava sobre sua aparência, não sobre seu posicionamento político. “Revela como a aparência da mulher ainda é colocada em primeiro plano”, destacou.
No Senado, em uma reunião com autoridades, mesmo sendo a parlamentar de maior hierarquia, foi convidada a ceder seu lugar a um homem. “Você precisa reafirmar diariamente o espaço que conquistou”, afirmou. Ela também apontou que conversas decisivas acontecem em rodas de homens.
Entre os projetos liderados por Daniella está o programa “Antes que Aconteça”, com ações de prevenção à violência de gênero. A iniciativa inclui educação nas escolas, acolhimento e autonomia financeira para vítimas. Criado na Paraíba, o programa foi aprovado pelo Senado para expansão nacional. Um destaque são as Salas Lilás, espaços em municípios sem delegacias especializadas, com atendimento policial, psicológico e social para mulheres com filhos.

