domingo, maio 3

O número de mulheres que viajam sozinhas cresceu mais de 60% nos últimos três anos. Elas já representam 71% de todas as viagens individuais no mundo, mas seguem com preocupações relacionadas à segurança. Os dados são da Riskline, empresa dinamarquesa focada em análise de risco em viagens.

Relatório divulgado neste ano mostra que o índice de mulheres que relatam ansiedade em relação a viajar subiu de 64% para 70% em apenas um ano. Viajantes mulheres enfrentam riscos específicos, entre eles assédio sexual e agressão, assédio no transporte público e em espaços públicos, intimidação verbal e física, discriminação de gênero e diferenças legais.

A Riskline aponta o Brasil como um dos países considerados mais perigosos para mulheres que viajam sozinhas. O mapa destaca 29 países classificados como de “alta preocupação”, onde precauções extras são recomendadas. Nas Américas, estão Brasil, México, Haiti e Honduras. Na Ásia-Pacífico, Afeganistão, Myanmar, Papua-Nova Guiné, Paquistão e Timor-Leste. Na África Subsaariana, Burundi, República Centro-Africana, Congo-Brazzaville, República Democrática do Congo, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Nigéria e Serra Leoa. No Oriente Médio e Norte da África, Chade, Iraque, Mali, Níger, Síria, Somália, Sudão do Sul, Sudão, Líbia, Iêmen, Cisjordânia e Gaza. Há uma observação no relatório dizendo que os riscos no Brasil variam muito por região.

Em contraste, destinos mais seguros para mulheres viajantes continuam incluindo países da Europa, Canadá, Japão, Nova Zelândia, Singapura, China, Coreia do Sul e Austrália.

Estatísticas se confirmam

A sensação de insegurança geral, demonstrada no relatório da Riskline, confirma-se na pesquisa Mulheres que Viajam Sozinhas, realizada pelo Ministério do Turismo do Brasil com a Unesco e divulgada em março. Seis em cada dez mulheres dizem já ter vivido alguma situação que as fez se sentir inseguras durante uma viagem desacompanhada. Ainda de acordo com a pesquisa, 62% das entrevistadas afirmaram já ter deixado de viajar sozinhas por questões de segurança.

A preocupação é ainda maior entre mulheres negras e indígenas. Entre as entrevistadas que se autoidentificaram pretas, pardas ou indígenas, 65,35% já deixaram de viajar por questões de segurança. O material foi construído a partir de uma pesquisa conduzida em agosto de 2025, com 2.712 mulheres de todas as regiões do país, além da contribuição de 17 especialistas.

Segundo Carolina Fávero, coordenadora-geral de Turismo Sustentável e Responsável no ministério e uma das idealizadoras do Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas, fica claro que a preocupação com a segurança é fator determinante para as mulheres. “O caminho é dar visibilidade ao problema. E desenhar produtos e políticas públicas que tenham esse olhar”, reflete. Juliana Medaglia, professora do Programa de Pós-Graduação em Turismo da UFPR, concorda e destaca que o documento evidencia a necessidade de políticas públicas no turismo com foco nas questões de gênero. “É o que pode transformar essa realidade.”

Assédio e medo

Além dos riscos comuns a qualquer turista, para as mulheres o assédio se torna um fator central. Renata Motta, 47 anos, já visitou 91 países, muitos deles desacompanhada. “Eu já fui sozinha para a África, mas, nas últimas vezes, viajei com um amigo. Só nós dois e, ainda assim, foi difícil, porque teve assédio.” Ela completa: “Faz tempo que eu comecei a viajar sozinha. Só que, cada vez mais, penso na segurança. Ser mulher não é fácil em todos os aspectos da vida – e viajar sozinha, com certeza, faz parte disso.”

Outro destino que gerou problemas para Renata foi o Egito. “É um país que foi bem complicado, apesar de ser lindíssimo. Eu fiquei num hotel de rede americana e reservei sem medo. Na primeira noite, tentaram abrir a porta do meu quarto com o cartão. A tranca que levo na mala evitou que a pessoa entrasse. Isso aconteceu de novo no último dia”, lembra.

Diante dos números do Ministério do Turismo, quatro em cada dez brasileiras já viajaram sozinhas. Entre as 2.712 entrevistadas, quase 35% têm entre 35 e 44 anos, e 22%, entre 45 e 54 anos. O resultado sugere que, nessas fases da vida, as mulheres dispõem de mais autonomia para viajar sozinhas, com maior estabilidade financeira ou liberdade pessoal. Esse é o caso de Renata Motta: “Eu não tive grandes projetos, como ter filhos, na minha vida. Então, possuo tempo e espaço pra pegar um outro projeto muito grande: viajar.”

Nadielly Santos, 20 anos, começou a viajar sozinha pelo Brasil para se reconectar com sua avó. “Tive uma grande virada quando minha avó faleceu. Nas últimas semanas em que ela estava em coma, prometi que viveria por nós duas. Acho que ela ter partido me encorajou. Já que estou viva, então vamos viver.” Fabiana Chatziefstratiou, 26 anos, começou a explorar novos continentes por autoconhecimento. “Percebi que estava seguindo um script do que achava que era o certo. Quero ir para um lugar onde ninguém tenha expectativa nenhuma sobre mim.”

Dicas de segurança

A partir do Guia Para Mulheres que Viajam Sozinhas, do ministério, e das experiências das entrevistadas, seguem algumas medidas para uma viagem mais segura: andar com aliança para desencorajar abordagens; pesquisar o destino, entendendo cultura local, costumes e zonas seguras; planejar roteiros com antecedência e evitar deslocamentos longos ou áreas pouco movimentadas; salvar contatos de emergência como polícia, bombeiros e consulado; ter documentos digitalizados; manter conexão de internet estável; hospedar-se em lugares bem avaliados; viajar com pouca bagagem; andar com localização em tempo real ativa; comprar tranca portátil; tomar cuidado com remédios e bebidas alcoólicas; contratar seguro viagem e seguro saúde; ativar autenticação de dois fatores em redes sociais, e-mails e sites de bancos; confiar no instinto.

Mulheres que viajam sozinhas são solitárias?

Além da insegurança, as entrevistadas também percebem estigma associado a mulheres que viajam sozinhas. Renata Motta sente que conquistou um lugar com amigos, familiares e seguidores de uma mulher resolvida. “Mas sei que, geralmente, a mulher que viaja sozinha é vista como uma coitada, como se não tivesse ninguém para ir com ela. O homem é um lobo solitário, charmoso que resolveu não casar. Tem muita diferença no tratamento”, observa. Elas destacam que criar uma rede de apoio entre viajantes e fazer amizade com outras mulheres ajuda a minimizar medos e tornar a experiência mais segura. “A gente quer que mais mulheres viajem, tomando as devidas precauções”, diz Motta.