segunda-feira, maio 4

A brasileira Lorrayne Mavromatis, ex-funcionária da empresa do youtuber MrBeast, afirma que foi vítima de assédio sexual e moral e de irregularidades trabalhistas enquanto trabalhava na companhia, que fica nos Estados Unidos. “Percebi que mulher não tinha voz ali”, disse em entrevista a Marie Claire.

Com mais de dez anos de experiência em redes sociais, Lorrayne começou a carreira como criadora de conteúdo no YouTube e depois migrou para o marketing digital. Ela se mudou para Greenville, cidade onde fica a sede da empresa, para trabalhar com o youtuber.

Segundo ela, o processo seletivo foi rápido e teve a participação do CEO da empresa, James Warren, e do próprio Jimmy Donaldson, o MrBeast. “Ele é o maior criador do mundo. Eu analisava os vídeos dele para entender o mercado e vi ali a chance de trabalhar com quem é considerado o melhor”, afirmou.

Os primeiros sinais de um ambiente hostil apareceram na primeira semana, segundo a brasileira. Em uma reunião, uma ideia que ela apresentou teria sido descartada, mas recebeu aprovação quando foi repetida por um colega homem. “Eu sentia que precisava me esforçar muito mais para ser ouvida. Era terrível saber que eu tinha tanta capacidade quanto eles, mas, por ser mulher, era excluída.”

No primeiro mês, ela relata ter sofrido assédio de um produtor, que a abraçava de forma invasiva. “No Brasil é comum, mas aqui nos EUA o abraço é uma invasão de espaço. Além de abraçar, ele me tirava do chão e me dava uma voltinha. Dava para ver que o contato ia muito além de um ‘bom dia’.”

Outras mulheres teriam passado pela mesma situação. “Formalizamos uma denúncia interna para o nosso chefe, mas nada aconteceu. O profissional acabou sendo promovido, na verdade”, contou. Ela também destacou a falta de um setor de recursos humanos estruturado.

Acusações contra o CEO

Lorrayne também descreve episódios com o CEO James Warren. Segundo ela, reuniões eram convocadas na casa dele, em um ambiente que considerava inadequado. “Não era um home office formal. Era no segundo andar da casa, em uma sala com um sofá de veludo, luzes apagadas e apenas um abajur aceso no canto. Era extremamente desconfortável. Eu sentia medo. Se gritasse, ninguém ouviria.”

Durante essas reuniões, ela afirma que os dois ficavam a sós e o executivo fazia elogios sobre sua aparência. “Ele chegou a abrir meu Instagram para ver imagens minhas de biquíni no Caribe, comentando as fotos na minha frente.”

Em um relato, ela diz que, ao perguntar por que MrBeast evitava contato visual com ela, o CEO deu uma resposta inapropriada. “Ele disse: ‘Digamos que, quando você está perto do Jimmy e ele tem que ir ao banheiro… Ele não está indo realmente usar o banheiro’. Deu a entender que o Jimmy se masturbava por causa da minha presença.”

Para Lorrayne, a cultura interna era diferente da imagem pública do criador, que tem mais de 400 milhões de inscritos no YouTube. “Eram dois mundos: o que os seguidores conheciam e a realidade de como as coisas funcionavam lá.”

A ex-funcionária aponta que as empresas associadas a MrBeast não usavam um manual de funcionários comum, mas sim um documento chamado “How to Succeed in MrBeast Production” (“Como ter sucesso na produção do MrBeast”). “Não é porque fazemos vídeos engraçados que não deve haver regras. Tem que ser uma empresa séria, não liderada como um ‘clube dos meninos’. No manual dele, diz que ‘se os meninos quiserem desenhar um pênis na parede, deixe-os’. Isso precisa mudar.”

Licença-maternidade e viagem ao Brasil

Outro ponto da denúncia envolve a licença-maternidade. Lorrayne afirma que, apesar de ter combinado que se afastaria ao entrar em trabalho de parto, participou de reuniões enquanto tinha contrações. Dias após o nascimento da filha, voltou a ser incluída em projetos e, cerca de um mês depois, teria sido pressionada a viajar ao Brasil para colaborar em uma produção com o jogador Neymar.

“Mesmo sangrando, com hormônios à flor da pele e passando por depressão pós-parto, tive que entrar em um avião. E, quando voltei, as ligações e os pedidos continuaram. O trabalho vinha na frente de tudo, até de um direito protegido por lei.”

Duas semanas após retornar da licença, ela apresentou um planejamento estratégico para 2026, que foi aprovado. No dia seguinte, perdeu acesso ao e-mail corporativo e foi demitida. “Disseram que eu era ‘qualificada demais’ para a vaga.”

A decisão de recorrer à Justiça foi tomada no mesmo dia. “Entendi que não poderia mais me calar, mesmo sabendo que estava enfrentando uma das maiores empresas do setor”, disse. Durante os três anos na companhia, Lorrayne afirma ter desenvolvido depressão, com agravamento ao longo do tempo. “O que era um sonho se tornou um pesadelo.”

O advogado de Lorrayne argumenta que a legislação trabalhista americana, por meio da Family and Medical Leave Act (FMLA), garante que a decisão sobre o término da licença cabe ao trabalhador e a seus médicos. “Ao acioná-la durante esse período, houve violação da lei.”

O que diz a defesa

Em nota, a defesa da Beast Industries negou as acusações e afirmou que a ex-funcionária teria se voluntariado para trabalhar durante a licença e para participar da viagem ao Brasil. A empresa classificou a ação como baseada em “distorções deliberadas” e como tentativa de obter ganhos financeiros e visibilidade. Afirmou ainda que a demissão da brasileira ocorreu em meio a uma reestruturação interna, afetando “funcionários de diferentes áreas, independentemente de gênero ou histórico profissional”.

O Brasil está entre os países considerados mais inseguros para mulheres que viajam sozinhas, segundo um relatório recente.