Quando Flávia Alessandra viveu sua primeira protagonista, a Lívia de Porto dos Milagres (2001), sua filha Giulia Costa tinha menos de 2 meses. Para não interromper a amamentação, a atriz, então com 24 anos, decidiu levar a bebê para as gravações, que duraram seis meses no litoral sul da Bahia. “Precisava me desdobrar para conciliar as mamadas com o volume exaustivo de cenas. Foi um período de dedicação extrema, em que aproveitava o silêncio da madrugada para dar conta do trabalho enquanto ela dormia”, diz Flávia. “É lindo ver que deu tudo certo. Hoje vejo nela um mulherão cheio de ideias, que se preocupa com o outro”, complementa, com lágrimas nos olhos.
Desde cedo, Giulia, hoje criadora digital e assistente de direção, reconhece a garra da mãe. “Ela me ensinou tudo. Eu me inspiro nela e nos esforços que fez para conquistar a independência. Ao mesmo tempo, ela sempre me ouviu e buscou entender meus desejos.” Há três anos, aos 23, Giulia decidiu morar sozinha e saiu da casa da mãe, mas as duas seguem próximas. Moram no mesmo bairro, a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e se encontram com frequência para programas como um almoço rápido ou uma exposição aos finais de semana. Também passaram a trilhar juntas um caminho profissional na influência digital.
Ao se mostrar em entrevistas e nas redes sociais, cada uma em seu perfil, construíram aos poucos uma comunidade de seguidoras que se impressiona com a maneira autêntica como mãe e filha se expressam – inclusive entre si, dispensando a rigidez da hierarquia familiar. A parceria cresceu no ano passado, quando lançaram o podcast Pé no Sofá, em que recebem personalidades para conversas intimistas sobre estilo de vida e comportamento, incluindo temas como saúde mental e pressão estética – assuntos com os quais estão bem familiarizadas. Junto com Otaviano Costa, marido de Flávia e padrasto de Giulia, também fundaram a Agência Family, dedicada à gestão de negócios, carreira e imagem da família. Com Otaviano, Flávia também é mãe de Olívia, de 15 anos, que ainda não decidiu se vai embarcar em uma vida pública. Giulia respeita o tempo da irmã e lembra dos impactos da exposição que ela própria viveu. Em várias ocasiões, se abriu sobre as crises de ansiedade decorrentes de comentários sobre seu corpo, incluindo sugestões de que deveria ser “mais parecida” com a mãe. Hoje, fala dos incômodos abertamente em vez de “deixá-los morrer”. “Não quero ser uma super-heroína. Não quero que as pessoas pensem: ‘Nossa, como eu queria ser como ela, que acorda impecável todo dia’. Quero que me vejam cheia de espinha, com cólica e vontade de comer a geladeira inteira de doce porque estou de TPM, para que sintam uma identificação real.”
Para Flávia, esse é um assunto que atravessa gerações: “Enfrentei inseguranças, cobranças e momentos de autocrítica duros. Mas, com o tempo, entendemos que muitos desses dilemas não são realmente nossos – foram construídos por padrões irreais e expectativas que mudam o tempo todo”. Apesar de compartilharem publicamente sua conexão, mãe e filha não querem que a relação pareça idealizada. Elas contam se identificar com o filme Lady Bird: A Hora de Voar (2017), dirigido por Greta Gerwig, que aborda o ponto de cisão entre uma filha adolescente e uma mãe arrimo de família. A interação de ambas é marcada por farpas, tom passivo-agressivo e atitudes drásticas, como a garota se jogar de um carro em movimento. “Esse filme vai do caos ao amor e do choque à admiração, que são sentimentos comuns nessa experiência de cortar o cordão umbilical, quando sua filha tenta descobrir seus caminhos”, diz Flávia. Giulia, que se lembra bem de sua fase rebelde, discorda que a relação mostrada no longa seja conturbada. “É um laço real, não tem só flores. Nós brigamos e discutimos. Mas, no fim do dia, as qualidades dela são infinitamente maiores que os defeitos.” As rebeldias de Giulia, segundo Flávia, não passavam de um bater de porta ou uma resposta atravessada. A estratégia nunca foi esbravejar de volta – até porque via nessas atitudes traços de uma personalidade forte despertando. “Giulia é pragmática e cheia de opiniões, mas eu também era”, diz a atriz. “Ela é um leão! Quando discordamos, peço a tese dela para me convencer do contrário. E sempre é ótima.”
Voos solo
Além do podcast, que ganhou uma rodada de gravações ao vivo no Teatro YouTube, em São Paulo, mãe e filha aparecem juntas em publicidades no Instagram, entrevistas e eventos que tratam tanto de empreendedorismo quanto de saúde e bem-estar. Mas também percorrem caminhos independentes. Aos 51 anos, sendo 37 de carreira, Flávia construiu uma trajetória sólida na televisão. Desde a estreia como Tânia, em Top Model (TV Globo, 1989), já fez 20 novelas, colecionando personagens que mostram sua versatilidade – da mocinha Lívia até a empresária determinada Dafne, de Caras & Bocas (TV Globo, 2009), passando pela impiedosa Cristina de Alma Gêmea (TV Globo, 2006).
Também cursou Direito (plano B caso a profissão de atriz não desse certo), o que colaborou para sua veia empreendedora. É sócia do cabeleireiro e amigo Marcos Proença, com quem abriu salões de beleza de alto padrão em bairros nobres de São Paulo, como Jardins e Vila Nova Conceição. Com o marido, é também sócia e conselheira de marketing da clínica de estética Royal Face, que tem uma estação dentro do hotel Rosewood, na capital paulista. O percurso de Flávia até os holofotes, porém, não foi marcado por sucessos repentinos. Foi, segundo ela, uma construção “miúda e gradual”.
“Vim de uma classe média em que meus pais priorizavam os estudos. Fiz inglês, teatro, balé, jazz e canto. Buscava bolsas em academias ou trabalhava como modelo para ter desconto”, diz. “Foi suado.” Ela se vê como o oposto de Fábia Brandão, sua personagem em Quem Ama, Cuida, nova novela das 21h da TV Globo, escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. O papel, conta, foi apresentado por Carrasco como um desafio. “Ele me disse: ‘Ela é muito fútil e superficial. Tudo o que você não é’.”
Flávia descreve Fábia como uma mulher com um quê de socialite que passa a integrar uma família da elite tradicional paulista: “Ela aproveita a vida, joga beach tennis ao ar livre, gosta das coisas materiais. É rica, mas almeja crescer ainda mais”. Para se preparar, a atriz mergulhou nos reality shows que mostram como vivem e pensam os ricos, como Sunset: Milha de Ouro, Dubai Ostentação e todos os programas da família Kardashian-Jenner. Detalhe: Flávia tem Tanya McQuoid, a excêntrica personagem de Jennifer Coolidge em The White Lotus, como foto de perfil na sua conta de streaming da HBO. Outra referência é a descrição sobre os endinheirados do Brasil feita pelo antropólogo Michel Alcoforado no best-seller Coisa de Rico (Todavia). “A Fábia está em um círculo que tem muitos códigos estabelecidos para se sentir inserida e aceita na alta sociedade. É um lugar muito distante do meu. Amo minhas conquistas materiais e me orgulho de dar conforto para minha família, mas não foram essas coisas que me deram sustentação. O que me estruturou e me fez dar a volta por cima foram as pessoas e as relações que cultivei. Isso é o que é valioso de verdade para mim.”
Tanto Flávia quanto Giulia estão envolvidas com causas sociais. Enquanto Flávia colabora com a BrazilFoundation, tendo visitado projetos em Brumadinho logo depois do rompimento da barragem da Vale, Giulia é embaixadora do Fluxo Sem Tabu, focado em dignidade menstrual. “As pessoas tinham um estereótipo meu de ‘nepo’. Aos poucos, estou mostrando que não é só isso”, diz Giulia. O podcast ajuda. “Sou uma pessoa privilegiada, econômica e culturalmente, e ter esses privilégios em um mundo tão desigual é uma responsabilidade. Pensei: ‘O que posso fazer com isso? Onde posso ajudar?’ Sei que vou passar por white people problems e que meus problemas, em ampla escala, são minúsculos perto dos enfrentados no mundo, mas falar sobre as inseguranças e os entraves de ser uma jovem mulher independente pode ser uma maneira de validar o que outras mulheres, em diferentes escalas sociais, também sentem.” Filha de Flávia com o diretor Marcos Paulo, morto em 2012, Giulia sempre esteve em contato com os dilemas da vida pública. Adorava a atmosfera colaborativa dos sets de filmagem, mas detestava o assédio da imprensa.
Em 2016, quando teve seu primeiro papel como atriz, em Malhação: Seu Lugar no Mundo (TV Globo), percebeu que seu interesse estava mais nos bastidores. Cursou cinema na PUC-Rio e, aos 26 anos, soma uma carreira de quatro anos como assistente de direção. “Quando me viam no cargo, alguns diretores questionavam quantos anos eu tinha – como se, pela pouca idade, não fosse possível ter know-how.” Nesse cenário, a moda virou artifício para se impor. Apaixonada pela leveza, pelas cores e pela descontração da roupa carioca, opta por blazers e visuais “mais sérios” quando vai a palestras ou entrevistas. “É como assumo uma skin mais adulta e madura.”
A relação com as redes sociais se desenvolveu tão naturalmente quanto para qualquer garota da geração Z. Amante de viagens, compartilha com os seguidores do Instagram os destinos que visita e o dia a dia. No último ano, também iniciou um projeto no YouTube, Pescadora de Experiências, de vlogs documentais em que mostra suas andanças por lugares que vão das livrarias de rua de São Paulo ao Deserto do Atacama e à Amazônia paraense. Uma de suas últimas aventuras foi escalar e acampar no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo. “Quero pescar essas experiências no intuito de viver o presente e imprimir minha visão sobre elas. Sou muito interessada pelo autoconhecimento e pela energia da vida. Acredito que isso agrega muito na minha relação com o outro, mas também comigo mesma.” Está no campo digital, aliás, um dos principais ensinamentos da filha para a mãe. Flávia, que inicialmente encarava a internet apenas como um canal para estreitar a relação entre artista e fã, descobriu que poderia ser mais.
“Com a Giulia, aprendi a ter abertura para apresentar minhas vulnerabilidades e fragilidades e entender as redes como um local de desconstrução. Isso ficou mais gritante com o podcast, em que conseguimos criar uma comunidade com outras mulheres sobre autocuidado, filhos, menopausa.” É assim, nas trocas corriqueiras, entre o atrito e o acordo, que mãe e filha seguem aprendendo a afinar a escuta. E a transformar esse intercâmbio em um modo próprio de estar e se mostrar no mundo, juntas ou separadas.

