Na madrugada de 29 de maio de 1983, Maria da Penha acordou em sua casa sem conseguir se mexer, depois de levar um tiro enquanto dormia. Aos vizinhos, médicos, parentes e policiais, o então marido afirmou que a família tinha sido vítima de um assalto, versão descartada pela polícia. “Meu organismo ficou muito debilitado. Até hoje, quando faço raio-X, aparece chumbo no meu pescoço. Uma parte ficou ali e o restante ficou entranhado na musculatura”, conta.
Farmacêutica bioquímica e mãe de três meninas, Maria da Penha viu o relacionamento mudar após a mudança de São Paulo para Fortaleza. O marido, antes prestativo, passou a isolá-la da família e a tornar o ambiente imprevisível. “Eu sabia que alguma coisa estava errada. Cheguei a pedir o divórcio, mas ele não aceitava se separar”, diz. A batalha judicial se arrastou por quase duas décadas. Com apoio de movimentos de mulheres, ela escreveu o livro Sobrevivi… Posso contar, reuniu provas e levou o caso à Organização dos Estados Americanos, que responsabilizou o Brasil por negligência diante da violência doméstica.
Em 2006, a Lei Maria da Penha foi sancionada e, mais tarde, reconhecida pela ONU como uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência contra mulheres. Aos 80 anos, ela avalia que o texto da lei é avançado, mas que o desafio é fazer com que chegue a quem mais precisa. “A mulher da comunidade, do pequeno município, aquela que não tem informação nem um lugar seguro para conversar, continua muito vulnerável”, afirma.
Ataques e mentiras
Maria da Penha afirma que seu agressor ainda mantém perfil ativo nas redes sociais, sustentando a versão do assalto descartada pela investigação. “Isso me machuca, claro. Porque alimenta a descredibilização da vítima e levanta uma onda de agressões contra mim.” Em 2026, Marco Antonio virou réu, ao lado de outros três acusados, em investigação sobre campanha de ódio contra ela. Segundo o Ministério Público do Ceará, ele foi denunciado após utilizar um laudo adulterado para sustentar sua inocência.
A mesma peça teria servido de base para um documentário da plataforma Brasil Paralelo, usado para questionar a história da vítima e a credibilidade da lei. O reflexo desse movimento interferiu na rotina de Maria da Penha, que passou a evitar sair de casa por medo de abordagens hostis. “Cheguei a ouvir de desconhecidos que se determinada pessoa soubesse que eu estava ali, iria até lá para me agredir. Tenho medo de quem tem raiva de mim”, desabafa.
Memória e luta
Sobre o reconhecimento público das falhas da Justiça no seu caso, ela diz que foi “como fechar com chave de ouro”, uma confirmação de que a Justiça errou e tomou partido do agressor. “Demorou, mas chegou. Para mim, era o momento de dizer: ‘Está aqui. Eu tinha razão’.”
Maria da Penha também comenta o avanço de comunidades masculinistas nas redes, que define como “uma desgraça, um absurdo”. Para ela, a escola tem papel fundamental na mudança de comportamento. “Nenhuma criança nasce machista, racista ou violenta. Ela aprende em casa, na comunidade. Se a escola contrapõe esse aprendizado, começamos a modificar a sociedade”, diz.
Ela destaca ainda que, nos últimos anos, os índices de feminicídio aumentaram no Brasil. “A lei existe, mas a política pública ainda não acompanha a demanda. Falamos mais sobre violência, mas ainda falta estrutura para acolher, orientar e proteger todas que precisam”, avalia. Sobre a distância entre o discurso e a prática, ela afirma que há mais interesse do governo federal atual do que no anterior, mas que o investimento precisa chegar ao cuidado elementar, formar quem está no primeiro atendimento e fortalecer as redes locais.
