sábado, maio 9

Duas mulheres usaram as redes sociais para denunciar abusos sexuais que sofreram dentro de igrejas. Ane Almeida tinha 16 anos quando foi abusada pela primeira vez. Stephanie Lourenço era uma criança de 8 anos quando foi acordada por um homem que passava a mão em seu corpo. Ambas foram vítimas de homens que ocupavam cargos de liderança religiosa.

Elas compartilharam seus relatos no Instagram e falaram sobre como foram silenciadas dentro das comunidades religiosas. Histórias como essas ajudam a explicar a repercussão do discurso da pastora Helena Raquel, líder da Assembleia de Deus Vida na Palavra (ADVIP), no Rio de Janeiro. Durante uma pregação no 41º Congresso dos Gideões, ela criticou a proteção dada a homens abusadores dentro da igreja. “Pare de orar por ele hoje e comece a orar por você”, disse ela.

Em entrevista à Marie Claire, Helena afirmou que o silêncio nas igrejas vem da tentativa de preservar a instituição. “As pessoas se sentem na obrigação de proteger a comunidade e, por isso, não falam. Quando, na verdade, a comunidade não pode ser acusada pelo erro de uma pessoa”, disse. Para ela, enfrentar esses casos publicamente é uma forma de responsabilidade coletiva.

Ane Almeida foi estuprada pelo pastor da igreja que frequentava no litoral do Paraná. Na época, seus pais passavam por uma crise no casamento, e ela encontrou acolhimento na família do líder religioso. “Era alguém que eu depositava minha confiança e meu carinho”, conta. O pastor a levou para um local afastado, onde ocorreu o primeiro abuso. Ela demorou quatro meses para entender o que tinha acontecido. Quando contou à esposa do pastor, sua palavra foi questionada. A comunidade a tratou como amante, e ela se afastou da igreja.

Hoje, aos 42 anos, Ane é psicóloga e afirma que a rejeição da igreja foi o que mais a traumatizou. “O foco era a restauração do pastor. Eu saí da igreja, não tive apoio de ninguém”, afirma. Depois de se mudar de cidade, tentou frequentar outra igreja, mas foi novamente tratada como amante e assediada pelo novo pastor. Ela escreveu um livro sobre a violência, intitulado “Além da face do abismo”.

Stephanie Lourenço foi perseguida por um homem que fazia parte da igreja que frequentava em Taboão da Serra (SP). Desde os 8 anos, ela era vítima de atos libidinosos disfarçados de brincadeiras. “Na minha cabeça de criança, eu pensava: ‘um homem de Deus nunca seria capaz de fazer isso comigo'”, lembra. Ela só entendeu o que havia sofrido ao ver uma situação semelhante em uma novela. Stephanie contou aos pais quando percebeu que seu irmão mais novo também estava na mira do abusador, mas não tornou o caso público por medo de não ser acreditada.

Ela critica a falta de ações de conscientização sobre abuso sexual dentro das igrejas. “Como que um país que se diz majoritariamente cristão ainda não criou algum tipo de comitê de proteção a essas pessoas dentro das igrejas?”, questiona. Para ela, líderes como a pastora Helena Raquel são necessários para quebrar o ciclo de abusos. “Eu nunca tinha escutado uma pastora falar que pedófilo, agressor, pessoas ruins não são ungidos”, desabafa.