Em um novo livro, as jornalistas Angela Boldrini e Carolina Moraes revelam como grupos antiaborto no Brasil usam o medo para manipular mulheres. A obra, intitulada “Coreografia da escolha: a disputa pelo aborto no Brasil” (editora Fósforo), é fruto de uma investigação que começou com o podcast “O caso das 10 mil”, lançado em 2023 pela Folha de S.Paulo.
A expressão que deu origem ao projeto foi ouvida por Boldrini durante uma palestra em 2022. O nome se refere ao maior processo criminal de aborto no Brasil, envolvendo a Clínica de Planejamento Familiar de Campo Grande (MS). A clínica foi exposta por realizar abortos clandestinos há 15 anos. Em duas décadas, mais de 10 mil mulheres foram atendidas no local, e 1.000 delas foram levadas à Justiça.
As jornalistas realizaram um trabalho de campo, consultaram documentos oficiais e ouviram depoimentos de médicos, sociólogos e conselheiros tutelares. O objetivo foi construir um panorama sobre a realidade do aborto clandestino no país. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto (2021), uma em cada sete mulheres de até 40 anos já realizou o procedimento. Apesar disso, o tema é tratado com uma retórica moralista, baseada em preconceito, medo e desinformação.
Moraes lembra que as mulheres costumam usar eufemismos para se referir ao aborto, como “fazer descer”. Para ela, as palavras mudam a perspectiva sobre o assunto. Boldrini afirma que a falta de um vocabulário que trate o aborto como questão de saúde pública dificulta vê-lo como um direito coletivo. “Há uma visão do aborto como problema a ser resolvido no âmbito privado”, diz.
Como parte da investigação, Boldrini participou secretamente de um curso de formação antiaborto em Belo Horizonte. Nos encontros, os integrantes discutiam estratégias para encontrar e persuadir mulheres pelas redes sociais. Eles criavam um clima de medo para convencê-las a não realizar o procedimento. “Dizem: ‘Você pode estar abortando o filho que vai te sustentar depois'”, relata a jornalista.
A religião também aparece no debate, mas Moraes afirma que ela não explica totalmente como a retórica contrária ao aborto se organiza. Ela cita o exemplo da Argentina, país de tradição cristã que avançou na “maré verde”, movimento pela ampliação do acesso ao aborto legal.
A desinformação atinge tanto as mulheres que têm direito ao aborto garantido por lei (em casos de violência sexual, risco à vida da gestante e anencefalia fetal) quanto as que enfrentam uma gravidez indesejada. Muitas não sabem que estão amparadas pela legislação. A falta de informação também afeta profissionais da saúde e do sistema jurídico, que muitas vezes desconhecem os protocolos ou agem de forma arbitrária.
Boldrini e Moraes veem o aborto como uma realidade empurrada para as margens do debate público e usada como ferramenta de mobilização eleitoral. “O aborto virou um bicho-papão do mundo político”, afirma Boldrini. Moraes conclui que o procedimento é comum, sempre aconteceu e continuará acontecendo. “Só podemos decidir como queremos encará-lo.”
