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Pix invisível: despesas femininas escondem dívida silenciosa

Imagem feita com ajuda de IA

O presente de aniversário do amigo do filho, a compra rápida no supermercado durante a semana, o remédio dos pais idosos comprado no caminho de casa. Isoladas, essas despesas parecem pequenas. Somadas, revelam uma conta silenciosa que costuma recair sobre quem está na linha de frente do cuidado.

É isso que aponta o estudo Elas Pagam a Conta, da Think Olga e Think Eva, ao mostrar como custos ligados à alimentação, à saúde, à educação e ao bem-estar da família acabam, muitas vezes, concentrados no bolso das mulheres. A pesquisa chama esse fenômeno de “pix invisível”, pagamentos que nem sempre aparecem na planilha familiar, raramente entram na divisão oficial da casa, mas se repetem ao longo do mês e pesam no orçamento.

Segundo o levantamento, mulheres representam 50,6% das pessoas com dívidas atrasadas, contra 49,4% dos homens. A diferença parece pequena, mas ganha outra dimensão quando se observa a origem desses débitos: 59% das dívidas femininas envolvem compra de mantimentos em supermercados e 42% estão ligadas a remédios e tratamentos médicos.

O levantamento cruza mais de 100 estudos acadêmicos, pesquisas oficiais e reportagens com relatos de mais de 400 mulheres da comunidade Olga. “O pix invisível se torna visível quando a mulher começa a somar o montante de gastos que tem por estar na linha de frente do cuidado”, explica Nana Lima, publicitária e cofundadora da Think Eva e da Think Olga.

Nana reforça que esses valores raramente entram na divisão formal dos custos da casa, justamente por parecerem pequenos demais para virar conversa. “Você divide o aluguel, o boleto da escola, a parcela do carro, o plano de saúde. Mas esses pequenos montantes acabam ficando com as mulheres, e os homens nem sabem, nem são afetados por isso”, acrescenta.

A sobrecarga financeira se soma a outras desigualdades. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mulheres realizam 76% das horas de trabalho de cuidado não remunerado no país. Quando se somam trabalho pago e não pago, elas dedicam 58,1 horas semanais ao trabalho, contra 50,3 horas dos homens. A maternidade amplia essa distância. O nascimento do primeiro filho pode reduzir em até 24% o salário de uma mulher. Entre mães de três filhos ou mais, a queda chega a 40% em comparação com mulheres sem filhos.

Mesmo nesse cenário, as trabalhadoras recebem, em média, 21% menos que homens na mesma função. Ainda assim, fecham 25% mais acordos que eles no Feirão Serasa Limpa Nome e quitam 11,6% mais dívidas. Ou seja: mesmo com menos renda e menos reconhecimento, elas seguem assumindo a responsabilidade de reorganizar a vida financeira.

“É muito mais fácil culpabilizar a mulher do que olhar por que elas estão endividadas. Dentro do cartão de crédito, os gastos que mais aparecem são: supermercado, boleto de escola, farmácia, alimentação. São os gastos essenciais da vida”, acrescenta Nana.

Além de assumirem despesas pouco reconhecidas, as mulheres também lidam com uma desigualdade que aparece no próprio consumo. Segundo o estudo, produtos direcionados ao público feminino custam, em média, 12,3% a mais que equivalentes masculinos. Assim, mesmo quando a despesa é individual, ela pode vir acompanhada de um custo adicional associado ao gênero.

Vale destacar que o crédito oferecido às mulheres também costuma ficar preso ao território do consumo cotidiano, enquanto aos homens são oferecidas condições mais associadas à expansão financeira. No levantamento, 47% das mulheres afirmam ter dificuldade para obter crédito e 85% já tiveram algum pedido negado. Entre aquelas que conseguem financiamento, a taxa média contratada é de 40,6% ao ano, acima dos 36,8% registrados entre donos de pequenos negócios em geral.

“O crédito oferecido para as mulheres é muito mais um crédito para consumo do que um crédito para empreender, para ampliar seu empreendimento, para contratar mais gente”, observa a cofundadora do Think Eva. “Vai muito além de ter uma renda ou obter um emprego. É ter recursos disponíveis, tempo para usufruir deles e uma estratégia para esse dinheiro”, alerta ela.